#1 Dom Quixote

Ecos de Calvino - Por que ler os clássicos?

#1 Dom Quixote

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Dom Quixote

 

99.

O prólogo de Cervantes, graciosamente ofensivo: “Desocupado leitor, na precisão de prestar aqui um juramento para que creias que com toda a minha vontade quisera que este livro, como filho do entendimento, fosse o mais formoso, o mais galhardo e discreto que se pudesse imaginar […]”. Uma honesta disciplina da ironia, que, após 410 anos, ainda permanece.

 

98.

Os melhores e mais irônicos títulos de capítulos: Do curioso expurgo que o padre-cura e o barbeiro fizeram na livraria do nosso engenhoso fidalgo; Do bom sucesso que teve o valoroso Dom Quixote na espantosa e jamais imaginada aventura dos moinhos de vento, com outros sucessos dignos de feliz recordação; Do que sucedeu ao engenhoso fidalgo na venda que ele imaginava ser castelo;

 

97.

A vã filosofia de Dom Quixote, um fanfarrão, “Natural condição de mulheres desdenhar a quem lhe quer, e amar a quem as aborrece”. É desconsertante a forma marota como Cervantes envolve seu personagem, num sensível arcabouço de devaneios, glórias e desgraças, ridicularizando as regras das novelas de cavalaria.

 

96.

O coração de Dom Quixote, que se enamora de Dulcinéia por achar condição essencial para se sagrar um grande cavaleiro: “Ó Dulcinéia Del Toboso, dia de minha noite, glória de minha pena, norte dos meus caminhos, estrela da minha ventura […] Ó solitárias árvores, que de hoje em diante ficareis acompanhando a minha solidão.”. É difícil mensurar o quanto Cervantes se diverte às custas do amor. [Goethe não entendia Cervantes.] “Ó senhora minha Dulcinéia del Toboso, extremo de toda a formosura, fim e remate da discrição, arquivo do melhor donaire, depósito de honestidade, e ultimamente ideia de tudo quando há de proveitoso, honesto e deleitável no mundo;”

 

95.

Esse antológico trecho do expurgo dos livros em que o autor se autorridiculariza com gosto:

“- Porém que livro é esse que está ao pé dele?

– A Galatéia de Miguel de Cervantes – disse o barbeiro.

– Muitos anos há que esse Miguel de Cervantes é meu amigo; e sei que é mais versado em desdita que em versos. O seu livro alguma coisa tem de boa invenção; alguma coisa promete, mas nada conclui.”

 

94.

Com sorte, encontra-se por aí uma boa edição com as estupendas ilustrações de Gustave Doré.

 

93.

Dom Quixote, o Cavaleiro da Triste Figura, é de uma ingenuidade e candura que talvez falte aos protagonistas contemporâneos. Isso acontece aqui porque temos um narrador sem ambições à superfície: Cervantes não monta em seus personagens. E Dom Quixote toma as melhores surras da literatura universal.

 

92.

Cervantes morreu em 22 de abril de 1616.

Lawrence Sterne não existiria sem Cervantes; Machado de Assis não existiria sem Sterne. Muita coisa da literatura inglesa paga tributo ao fundador da ficção moderna – Jonathan Swift sequer teria um chão sem o espanhol.

Curiosamente, Shakespeare morreu um dia depois, em 23 de abril de 1616.

Shakespeare e Cervantes não existiriam sem Homero.

 

91.

Antes da estrutura, da condução harmoniosa de elementos, um livro muito do engraçado.

 

90.

Quixote chama vilão de vilão ruim. E algumas pessoas de néscio, que é um excelente adjetivo.

 

89.

A novela do curioso impertinente.

 

88.

Trecho do antológico discurso de Dom Quixote sobre as armas e as letras:

“Visto começarmos, tratando do letrado, pela pobreza e pelas divisões várias com que esta o ataca, examinemos se o soldado é mais rico: e este exame nos fará conhecer que ninguém entre a própria pobreza é mais pobre que ele, porque vive atido a um miserável pagamento que vem ou tarde ou nunca, ou àquilo que suas mãos pode pilhar, muitas vezes com grande perigo da sua vida e mesmo da sua consciência. […] Ouçamos o que dizem as letras quando afirmam que sem elas não podem as armas sustentar-se, porque também a guerra tem as suas leis, às quais está sujeita, e que estas leis devem pertencer à inspeção das letras e dos letrados, que são em tal caso os juízes competentes.”. Em seguida, Cervantes define o discurso de Quixote como uma larga arenga.

 

87.

O sensacional pagode da ofensa de Quixote direcionado ao leal Sancho Pança, após o escudeiro questionar a lisura moral de determinada mulher:

“Ó velhaco e vilão, descomposto e ignorante, estúpido, desbocado, murmurador e maldizente, que semelhantes palavras ousaste dizer na minha presença e na presença destas ínclitas senhoras, como é que ousaste pôr na tua confusa imaginação semelhantes desonestidades e atrevimentos? Vai-te da minha presença, monstro da natureza, repositório de mentiras, armário de embustes, inventor de maldades, publicador de sandices, inimigo do decoro que se deve às pessoas reais; vai-te, e não apareças diante de mim, sob pena da minha ira.”.

 

86.

A tradição perdida dos títulos longos: “El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha”.

 

  • Nota do capista: A edição lida foi a da Otto Pierre Editores, que era um selo muito do curioso – o pessoal sequer se deu ao trabalho de colocar o nome dos tradutores nos dados bibliográficos. Mas, ó, a labuta é de Visconde de Castilho e Pinheiro Chagas. Ao menos diz que as ilustrações são de G. Doré, o que é mais ou menos como dizer que Os Miseráveis são V. Hugo. Sabe-se muito pouco sobre essa coleção Os Grandes Clássicos, exceto que circulou entre os anos 1970 e 1980, em bancas. Os dois tomos, de capa dura vermelha, são acompanhados de um marcador de fita de cetim – o segundo livro foi severamente atacado por traças.