#2 A Morte de Ivan Ilitch

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#2 A Morte de Ivan Ilitch

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Tolstoi

 

Motivos para ler A Morte de Ivan Ilitch, de Leon Tolstoi, para muitos, a maior novela da literatura mundial, quiçá, interplanetária. O russo não tem a menor piedade de suas personagens.

 

76.

Temos um poderoso retrato das dimensões mais finitas e baixas do espírito humano, da indiferença à vaidade, a partir de um burocrata. “A história da vida de Ivan Ilitch foi das mais simples, das mais comuns e portanto das mais terríveis.” Tolstoi é escritor pedagógico, que produziu literatura para espalhar sua leitura de mundo. E, em muitos casos, sua leitura de mundo não tem o ser humano em alta conta. Atenção aos alvos: médicos e advogados.

 

75.

A forma melíflua (!) como Tolstoi compõe seu painel, do pessoal ao social. Cada personagem, excetuando um caseiro de alma pura, é da envergadura moral de um guaxinim: “Assim que conseguiu seu diploma e ingressou no décimo escalão do serviço público, e tendo recebido de seu pai um dinheiro para o novo guarda-roupa, Ivan Ilitch fez encomendas na Scharmer’s, pendurou na corrente do relógio uma medalha com a frase Respice Finem, deu adeus ao seu professor e ao patrono da Escola, fez um jantar de despedida com seus colegas no Donon’s e com seus novos pertences – um baú, roupas de cama, uniforme, objetos de toalete e um cobertor para a viagem –, todos adquiridos nas melhores lojas, partiu para uma das províncias para assumir o posto de secretário particular e emissário do governador, conseguido com a ajuda de seu pai.”

 

O envenenamento mental de Ivan Ilitch diante da personificação individual da morte, quando ela se torna uma presença opressora, abrangente, capaz de levar à revisão da própria vida, e, por outro lado, a indiferença de seus pares ao seu fim anunciado – a morte como uma formalidade. No mapa ideológico proposto por Tolstoi, morrer perde seu caráter público de grande ato, exceto para quem está prestes a morrer. As pessoas ao redor de Ivan Ilitch enxergam o seu fim apenas como um utensílio para seus projetos pessoais, uma saída de cena.

 

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O melhor velório, entre cretinos e jogatinas: “Piotr Ivanovich continuou fazendo o sinal-da-cruz e inclinando a cabeça numa direção intermediária entre o caixão, o orador e as imagens sobre a mesa do canto. Em seguida, quando achava que o sinal-da-cruz já havia durado tempo suficiente, parava e punha-se a olhar para o defunto.”

 

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A incrível paridade narrativa, realizada entre a insensibilidade dos médicos com o quadro clínico de Ivan Ilitch e o tratamento que o procurador e juiz dispensava aos réus e demais pessoas envolvidas na sua rede de influência.

 

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Tolstoi sendo Tolstoi, esse compêndio de ingenuidade, crítica, religiosidade, revolução, crítica, moralismo, maldade e paganismo. A maneira como ele monta nos elementos da burocracia e da busca por escalada social: a derrota dos afetos básicos e o embrutecimento crônico das relações humanas.

 

70.

A agonia final do burocrata. A surra que o narrador aplica ao seu protagonista através de uma autoimolação. A morte transformada num cadáver alado que procria. Ivan Ilitch é vítima e parte funcional do padrão social, o que invariavelmente nos atinge e nos arrasta. Sua morte angustia e redime.