#3 Vidas Secas

Ecos de Calvino

#3 Vidas Secas

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Vidas Secas

 

Obra marcante de Graciliano Ramos impõe uma geografia da incomunicação e é parte fundamental na compreensão da literatura brasileira do século 20

 

123.

Através do infortúnio de uma família devastada pelas condições de seca e de exclusão social, o Velho Graça anula o tempo cronológico com a mão de quem tem pedras e compaixão por suas personagens. A aridez da paisagem, a desolação suprema, o sol inclemente, tudo contamina quem sobrevive. Temos a exposição de um cenário destituído de futuro, sem discurso ideologizante, o que amplia o fosso emocional.

 

122.

Os capítulos, autônomos, são determinados pelo sol, ditador: a estiagem, a comida, a esperança que parece advir com as chuvas – falsos luminares –. A ausência de perspectiva sobrepõe a saída de túnel. É literatura de derrocada. Cada capítulo tem motor próprio, apesar do conhecido rigor e controle excessivo de Graciliano Ramos. É seu trabalho mais sanguíneo.

Vidas Secas flutua no tempo, não oferece exatidões e contabilidades; é um hoje quase absoluto, maior que os minutos, “as tardes que são comidas lentamente”, pairando no espaço como algo imutável, que sempre estará assolando quem se arrisca a querer encará-lo. Há uma ciclicidade da rudeza, da melancolia, da terra como fim e sina.

 

121.

Os personagens humanos mal se pensam e tentam sobreviver em um ambiente hostil. O sofrimento chega a proporções animalizantes: “Inferno, inferno. Não acreditava que um nome tão bonito servisse para designar coisa ruim.”

 

120.

A via-crúcis da cadela Baleia é certamente um dos maiores capítulos da literatura brasileira de todos os tempos. “A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença. Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente Sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.

Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.”

 

119.

Anos 1930 e Vidas Secas foi um fracasso comercial retumbante. De fato, é um livro que não se localizava no espírito de seu tempo, um recorte psicológico que avança em escala vulcânica o discurso do regionalismo de sua época. Um avanço agreste, áspero. Graciliano tinha um coração em degelo.

 

118.

Fabiano, o rude protagonista de Graciliano, é um ser imediato, provedor, de aspectos ancestrais. As suas emoções obedecem a uma lógica imposta pela necessidade. A linguagem é econômica, sem gordura, porque assim deve ser. A impressão de desumanidade é equivocada. Nada mais humano do que lutar contra o inelutável.

 

117.

Por fim, para quem realizou o percurso inverso, conhecendo primeiramente o filme homônimo de Nelson Pereira dos Santos, de 1962, ganhador dos maiores prêmios da cinematografia brasileira, uma constatação: Graciliano é o autor brasileiro melhor tratado nos cinemas. Talvez o único. Não é pouco.