“Anotações de um narrador parcial”, de Reginaldo Pujol Filho

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“Anotações de um narrador parcial”, de Reginaldo Pujol Filho

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Caspar David Friedrich - Woman with Candlestick

Caspar David Friedrich em “Mulher Com Um Castiçal”

Em novembro do ano passado, o escritor gaúcho Reginaldo Pujo Filho, autor de “Sem Título”, trouxe a Oficina “Quem está falando?”, onde falou sobre os aspectos e as possibilidades do narrador literário. “Anotações de um narrador parcial” saiu na primeira edição do dESConforto.

 

Anotações de um narrador parcial

Reginaldo Pujol Filho

 

Durmo vendo, da janela do quarto, um homem nu e uma mulher nua. Mas, antes disso, o pessoal já tinha me alertado que Curitiba não é sempre assim.

Conheço o cara há menos de meia hora e duas cervejas, mas já recebi a promessa de que, no dia seguinte, serei levado a um bar por hora entre 19h e 23h com direito a assombração, literatura e bigodes. Mas Curitiba não é sempre assim.

É sábado de manhã: uma casa branca, com leões alados no topo, bonita, conservada, no centro bem centro da cidade e, dentro dela, quase dez pessoas se dispõem a ler literatura, escrever textos, discutir pontos de vista, prestar atenção no outro. E é sábado de manhã, e já é sábado à tarde, depois será a manhã de domingo e a tarde de domingo e todos os seus chamados da cama, do sofá ou das ruas. Mas o pessoal me alerta: atenção: Curitiba não é sempre assim.

Chove. Para. Fica nublado. Abafa. Chove um pouquinho. Fica nublado. A turma lamenta ou me consola: Curitiba é quase sempre assim. Rollmops: ninguém sabe me dizer de onde vem, seja a receita (acabo de descobrir na internet), seja a suspeita conserva em cima do balcão. Rollmops: todo mundo fala de rollmops, mas ninguém quer comer. Encaro, é ardido, até o dono mal humorado do boteco ri da minha cara. Mas eu gosto. E me lembram que Curitiba não é sempre assim.

Entre a mesquita e o Bar do Alemão centenas de pessoas passeando pelo fim de tarde de domingo. Há shows no museu, nas ruínas, mesas nas ruas, pessoas dançam dança de salão atrás dos janelões de uma casa colonial ao rés do chão. Eu olho para os meus guias, ameaço a pergunta, eles antecipam: Não, não é sempre assim.

Imagino como seria andar no ônibus turístico: à sua direita, não é sempre assim. Agora, se você olhar para sua esquerda, poderá ver que não é sempre assim. Vamos virar a esquina e convido todos a olharem para frente: vejam, não é sempre assim.

Recebo jornais literários e revistas também. E antologias de autores locais que não são o Dalton Trevisan, nem o Paulo Leminski, nem o Cristóvão Tezza, nem o Wilson Bueno, nem o Jamil Snege, nem o Valêncio Xavier, nem Manoel Carlos Karam. E ouço da Biblioteca Pública do Paraná e dos poetas do Batel, e dos poetas que não são do Batel e vou a duas ou três livrarias onde há bons acervos de revistas de literatura, e fico sabendo de rixas literárias e que tinha quatrocentas ou trezentas pessoas para ouvir o José Luis Peixoto falar. Mas, claro, todos sabem: Curitiba não é sempre assim.

Uma rua de teatros que eu imagino que desapareça durante a semana, porque me dizem que não é sempre assim. Bolo de carne no pão e cerveja. Marreco e cerveja. Promessa de carne de onça e cerveja. Curitiba não é sempre assim e peço uma cerveja.

Descemos, de carro uma série de ruas cujos nomes não deu tempo de aprender, e chove um chuvisco típico de dia lançamento de livro e mais típico ainda de congestionar trânsito às 18h no que chamamos de metrópole. E vamos lentos e, num cruzamento parcialmente obstruído por carros retardatários e outros afobados, é preciso fazer um ziguezague com a EcoSport como se ela fosse maleável e há carros em fila dupla tentando estacionar em raras vagas, confundindo ainda mais o fluxo e anda-se mais devagar do que se a pé e estamos todos ou atrasados, ou cansados, ou querendo deixar a semana para trás e chegar logo na sexta-feira, ou tudo isso, e comento sobre o tráfego com as meninas e elas me interrompem enchendo a boca para dizer que Curitiba é sempre assim, porém peço meu direito de vírgula para seguir meu comentário, mas e onde estão as buzinas, em Porto Alegre não nos ouviríamos mais, tantas as buzinas. Ah, pois é, mas Curitiba não é sempre assim.

 

O CRIANÇADA

NOIS FECHA 11:30 (23:30)

DEPENDO DE ÔNIBUS

VILA SANDRA

 

Diz a faixa dentro do bar e a cerveja custa ingênuos cinco reais e o boteco chama-se Condor, mas todos fingem não saber e pedem mais uma para o Bigode, que, se me dissesse mais do que dois resmungos simpáticos, sim, ele foi simpático, diria, talvez, eu não sou sempre assim e Curitiba também não.

E a livraria com café e uma editora que admiro era exatamente como eu imaginava, o que é muito bom, é ótimo. Mas parece que Curitiba não é sempre assim – até porque a livraria vai se mudar.

Sei que a cidade tem uma praça de bolso e não conheci nem a Ópera de Arame, nem a Pedreira e sei que não sei como a cidade é. Só sei que não é sempre assim. Mas quem é sempre assim, assado, como ontem, anteontem, amanhã?