“24 Aforismos sobre poesia”, de Rodrigo Garcia Lopes

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“24 Aforismos sobre poesia”, de Rodrigo Garcia Lopes

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"Cemitério de Azulejos", instalação de Julie Fank.

Hoje é o dia da poesia e nossa comemoração vem com o texto de Rodrigo Garcia Lopes, autor do livro Experiências Extraordinárias e professor da nossa Oficia de Criação Poética.

 

1.

Permanece um mistério o fato de que vivemos em estado permanente de linguagem. A poesia é o instrumento ideal para captar este mistério.

2.

Mu Ga não é parar o pensamento: é perceber o pensamento.

3.

Cada vez mais a persistência da ideia de poesia radical entendida em seu sentido etimológico, do latim radix, ‘raiz; base, fundamento’. Uma poesia que investiga sua própria ocorrência, ramificações, vis-à-vis seu encontro com o mundo, indo na raiz do problema: para o poema, esta raiz é a palavra. Rizoma: um processo horizontal e proliferante de significação.

A abstração é a natureza da mente, não a mente um reflexo da consciência.

5.

O desafio está em não cair numa metalinguagem barata. Ou solipsismo (“não há nada fora de minha mente”). Ao contrário, o poema é um encontro em nosso território comum, nosso habitat.

Poeta é quem que provoca música com os vocábulos. E afasta a afasia.

Certa aversão pela ideia difundida pelo senso comum da vida (e da poesia) como algo contínuo. Poemas são seres vacilantes, como animais, ORGANISMOS, e além do mais parecem estar o tempo todo querendo incorporar o caráter fragmentário e material da experiência. Por isso, parecem muitas vezes “incompletos”.

7.

Se “poesia é a promessa de uma linguagem” (Hölderlin), então o poema é um não lugar, uma utopia. Seu sentido é seu movimento.

8.

O poema é um ultraje (outrage), um contratexto.

9.

De olhos fechados: o universo é vermelho.

A natureza nos desconstrói sem que notemos, e a noite restaura a memória das percepções que usaremos, no dia seguinte, para reconstruir a natureza e a nós mesmos.

10.

Um “eu” que é um olho, o olho que é um outro, o outro que é um. A consciência da consciência.

11

Poder pensar, como Paul Cézanne, que

as palavras é que se pensam através de mim.

12

Nos fala, nos media, nos habita. Sempre a caminho. Não há como escapar. Nelas estamos em nossa única casa, ou fora, ou estamos a sós.

13

Todas as abordagens poéticas (seja através de iluminuras, personas, objetivos correlativos, colagem, simultaneísmo, pastiche, ostranenie, ideograma, non-sequitur) desembocam, por operações distintas, na grande questão: o espaço habitado pela poesia enquanto matéria mental, entre palavra e mundo. Entre estar mudo e ser mundo.

14.

O nome do ventríloquo era Eulírico. (Já meu nome é eutro: o intervalo entre palavra e mundo).

15

O poema nasce enquanto o procuramos.

16.

Como numa história de detetive, o poema, hoje, é um enigma. Seu crime começa já nas primeiras palavras. O poema nada mais é que uma seção de correlatos do sentido suspensos entre pistas falsas, frustrações de expectativas, que apontam inequivocamente para sua própria aparição & desaparição. O nome dessa luta invisível é o sentido.

Whodunit?

17.

A prosa parece se traduzir em ser vidro transparente, enquanto a poesia revela manchas de mão no vidro, trincas, poeira, as imperfeições da superfície.

18.

Fala em curto-circuito. Um dispositivo de estranhamento. Uma filosofia de linguagem. Um sistema linguístico alternativo. Linguagem lenta. Um campo aberto de possibilidades discursivas.

19

Talvez poemas devessem ser mais que simplesmente escrita sobre experiências, e sim escrita como experiências.

20.

Produto e processo, num poema, têm que ser pensados juntos. O que  e como são siameses. Esmero excessivo desvirtua o palácio da sabedoria.

21.

O desafio tem sido esse: investigar como se dá o processo de transferência do mundo “real” ao mundo “poético”. Interessa-me este momento único que se dá na percepção: no choque do “dentro” com  o “fora” (Como aquilo virou isto?). E o poema seria exatamente a tradução simultânea desta percepção em palavra, energia, usina, poesia. E o poema surge como o resultado desse atrito entre consciência e mundo, fruto dessa tensão e, antes que me esqueça, desse prazer.

22.

O momento em que o poema se fecha é o momento em que ele se abre para o leitor.

23

A ideia tradicional de prosa, para mim, é que o texto parece nos colar numa temporalidade, um estado absortivo, com as palavras quase parecendo passar transparentemente da página para a mente, (“uma câmera filmando tudo isso”, sem erros de continuidade), enquanto a poesia atua com mais frequência em saltos, cortes, surpresas, desconstruções sintáticas, frustração de expectativas, associações, conexões, desconexões.

24.

Vai ver a poesia seja uma necessidade estética da consciência.

(Apud Macedonio Fernández)

 

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Em Estúdio Realidade (7Letras, 2013)