# 4 Silogismos da amargura.

Ecos de Calvino

# 4 Silogismos da amargura.

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Em Silogismos da Amargura, Cioran cria um extenso mapa do tempo e mostra porque é considerado um dos maiores aforistas de todos os tempos

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Ler Emil Cioran é exatamente o oposto de estabilização. O filósofo romeno é o caminho mais rápido para praticar e entender o desespero. “O ‘talento’ é o meio mais seguro de falsear tudo, de deformar as coisas e de equivocar-se quanto a si mesmo”. Assim como a obra pictórica de Edward Hopper, que evidencia a solidão da natureza humana nas cidades, nos bares, nas esquinas, por dentro de tudo, entra-se aqui para perder – a sensação posterior é de um crescimento através da sangria. “A insônia é a única forma de heroísmo compatível com a cama”.

 

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“Shakespeare: encontro de uma rosa e de um machado”. Cioran leva o aforismo a um novo patamar de alcance moral. As suas combinações ligeiras, diretas, são capazes de desexplicar o mundo incluso no caos. Temos medo – e já aconteceu. É o pessimismo sombrio na mais alta voltagem literária.

A voz narrativa de Cioran não usa muletas. Descongestiona. “Pode-se falar honestamente de outra coisa além de Deus ou de si mesmo?”. Cirúrgico, Cioran quer ver as entranhas, as fragilidades – não é surpresa que outro livro grandioso seu se chame Breviário da Decomposição.

Publicado em 1952, Silogismos da Amargura foi um fracasso de vendas, talvez por, enfim, não ser um livro de fácil deglutição. Estamos diante de um autor que engasga, que não flui por impossibilidade – cada conjunto de frases mínimas é um tiro. A condensação de linguagem promove uma espécie de esgar, uma vista terrificante sobre a miséria humana.

 

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“Quem nunca contradisse seus instintos, quem nunca se impôs um longo período de ascese sexual ou desconheça por completo as depravações da abstinência, será completamente alheio tanto à linguagem do crime como a do êxtase; jamais compreenderá as obsessões do marquês de Sade ou as de São João da Cruz”.

 

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Fala-se de Cioran como um dos melhores tradutores da decadência da civilização ocidental. Contudo, o romeno não é apenas isso. Ele opera numa frequência acima, da impossibilidade humana de rasgar suas cadeias internas, o mundo sem perspectivas, não há para onde correr. “Quando se aprende a beber nas fontes do Vazio, deixa-se de temer o futuro. O tédio opera prodígios: converte a vacuidade em substância, é ele próprio vazio nutritivo.”

 

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Dois adjetivos abarcam parcialmente Silogismos…: crueldade e precisão. Impressiona em sua arte de criar eventos de maldade a capacidade de redução-potencialização. Cioran é um crítico que vê como se vê um sistema solar, do chão para as estrelas. Nisso de produzir luz e calamidades, ele é eficiente, arrasador, a hipótese tenebrosa do vácuo absoluto: “Dom Quixote representa a juventude de uma civilização: ele se inventava acontecimentos; nós não sabemos como escapar aos que nos perseguem.”

 

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Pequena seleção de ligações improváveis e luminares de palavras:

“Um evangelista extraviado”.

“Por que essa substituição de cadáveres?”

“A Criação foi o primeiro ato de sabotagem”.

“Um monge e um açougueiro brigam no interior de cada desejo”.