A brevidade dos amores de domingo

Resenhas

A brevidade dos amores de domingo

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Vazante, de Luís Henrique Pellanda, conquista, entre mar e terra, por seu recorte da natureza finita do amor

Um poema-monumento de Jamil Snege chamado “Para se matar um grande amor” define com uma precisão assustadora o espírito volúvel dos amores e afetos: “Arrisco mesmo a dizer: só os amores verdadeiros se acabam./ Os que sobrevivem, incrustados no hábito de se amar,/ podem durar uma vida inteira e podem até ser chamados/ de amor, mas nunca foram ou serão um amor verdadeiro./ Falta-lhes exatamente o dom da finitude, abrupta e intempestiva.”

Em Vazante, Luís Henrique Pellanda realiza um intenso mergulho ao covil do primeiro dia de um casal de amantes, embrenhados numa casa de praia em um domingo sem localização exata no tempo – dois universos abruptamente em convergência, aparentemente sem maiores expectativas, “aos domingos os telejornais não querem nos explicar nada”.

O contista-mais-cronista de Curitiba promove um interessante painel da impossibilidade do amor quando imerso na velocidade. No percurso, a narrativa é toda circundada por sutilezas e vulgaridades habituais dos começos: “Os estômagos cheios de macarrão e salsicha, as bocas lavadas com pasta dental vencida, os cabelos de novo cheirosos”.

Ao não buscar maiores inovações de linguagem, seguindo por um caminho retilíneo, Pellanda oferece uma outra dinâmica (muito importante) do prazer literário: o percurso da memória. Vazante opera como uma viagem íntima, carregada de frustrações, corpos que se afastam repentinamente e possivelmente nunca mais se encontrarão. As agruras dos amores que se abortam ao meio.

Os desentendimentos que surgem na divisão das pequenas coisas, as vontades que se anulam e separam pouco a pouco, contam-nos, de um modo universal, o amor como um barco que talvez nunca ancore – a imagem dos animais mortos na praia surge, então, como uma espécie de jogo sobre os nossos baús de ossos afetivos.

A obra estabelece seu eixo narrativo entre a melancolia inevitável do fim e as hipóteses sentimentais que criamos para o que dá errado. O amor é o porto em que mal pisamos e precisamos partir, pois é preciso, é necessário, seguir em frente.

 

Estante                

Vazante (2015)

Luís Henrique Pellanda

Arte & Letra, 35 páginas, edição limitada

www.arteeletra.com.br

 

Inscrições para a oficina de crônica de Luís Henrique Pellanda, aqui.  

 

Escape para a leitura

“Ou seja: todas aquelas mortes anônimas, que em sua insignificância representavam a morte como entidade democrática, como lembrança incômoda, a morte niveladora de destinos, de certa forma maculavam nosso domingo de sexo. A vida, porém, exige renovação constante e uma dose mínima de alegria, e um dia entre os vivos nunca estará de todo perdido. Assim, quando ainda nus e molhados nos atiramos aos beijos e pela segunda vez à cama, e revimos de relance, da janela do primeiro anda, os corpos lá longe, na areia, e os cães que latindo espantavam dali as aves carniceiras, simplesmente fechamos os olhos.” (p.16-17)