À espreita dos círios do futuro

Crítica Literária

À espreita dos círios do futuro

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Marcelo Daldoce

Marcelo Daldoce

Em Poemas, Konstantinos Kaváfis afirma com clareza a importância do domínio histórico e demonstra como um escritor ainda pode ressignificar o contemporâneo de modo original

 

Não é tarefa simples fugir da tradição histórica e erigir um projeto literário novo quando se nasce na Grécia. Escrever diante de torres, guarnições e impérios – cânones formados de camadas profundas de tudo o que é humano – geralmente assusta os mais autocríticos e comprometidos com a engenharia do texto. Nesse aspecto opressor, das sombras por detrás dos passos, o caminho de Konstantinos Kaváfis, nascido em Alexandria, aos pés de 1863, é especialmente singular e marca um dos auges do que se convencionou chamar de literatura neogrega.

A extensão poética de Kaváfis é curta e de uma exatidão difícil de definir, embora alguns elementos sejam cativos, como a volúpia, a guerra e a morte. São 154 poemas que conversam com o passado e propõem ao presente uma espécie de zona de significados incômodos, com muitas alusões existencialistas. O corpo é o templo das contradições. “No meio do café ruidoso, sem ninguém, / por companhia, está sentado um velho. Tem / à frente um jornal e se inclina sobre a mesa. // Imerso na velhice aviltada e sombria, / pensa quão pouco desfrutou as alegrias / dos anos de vigor, eloquência, beleza.”, diz em “Um velho”.

A própria tradução de Poemas para o português merece um episódio. Feita por José Paulo Paes, um quase-devoto do poeta alexandrino, busca capturar as estruturas fundamentais do discurso de Kaváfis. De fato, Paes foi mais um autodidata apaixonado do que um tradutor convencional. Era conhecido o seu domínio peculiar em diversas línguas, do grego ao italiano. Sua tradução buscou estabelecer um diálogo da voz de um Fernando Pessoa com os versos existencialistas kavafianos, fugindo da versão mais conhecida, em francês, de Marguerite Yourcenar. Curiosamente, Yourcenar preferiu transformar todo o jogo de métricas, rimas e simetrias em prosa por achar o simbolismo de alma decadentista do grego solene algo meio passado para a cultura francesa de seu tempo.

Realmente, as marcas do Simbolismo percorrem o interior de praticamente todos os poemas. Temas caros como a solidão, a inquietação e o vazio estão lá, mas com uma certa dose de desautorização ao passado clássico grego. A carta de alforria intelectual de “Círios” aponta para esse poeta em constante conflito com o eu poético e as sombras históricas, em busca, ao seu modo, de atemporalidade. “Os dias do futuro se erguem à nossa frente / como círios acesos, em fileira – círios dourados, cálidos, vivos. // Os dias idos ficaram para trás, / triste fila de círios apagados; / os mais próximos ainda fumaceiam, / círios pensos e frios e derretidos”.

É preciso dizer que Kaváfis, apesar de pouco lido em vida, era muito consciente de seus méritos, da própria capacidade de empurrar a linguagem para frente. São notórios os casos em que ele desfazia de alguns poetas contemporâneos consagrados em Atenas, como Palamás. Em reuniões caseiras, quando ofereceria uísque de segunda categoria aos convivas, costumava chamar a bebida de uísque de Palamás.

A autoconsciência está presente em todo o constructo do alexandrino. É uma poesia sem exageros, a promover exatidão a partir do desequilíbrio da natureza humana. Intelectualmente consistente, não deixa de ser uma estranha coincidência que o poeta grego tenha morrido, em decorrência de um câncer na garganta, a 29 de abril de 1933, dia em que completava exatos 70 anos.

 

Estante

Poemas

Konstantinos Kaváfis

Tradução de José Paulo Paes

Editora Nova Fronteira, 192 páginas

 

www.novafronteira.com.br

 

Escape para a leitura

 

À espera dos bárbaros

 

O que esperamos na ágora reunidos?

É que os bárbaros chegam hoje.

 

Por que tanta apatia no senado?

Os senadores não legislam mais?

 

É que os bárbaros chegam hoje.

Que leis hão de fazer os senadores?

Os bárbaros que chegam as farão.

 

Por que o imperador se ergueu tão cedo

e de coroa solene se assentou

em seu trono, à porta magna da cidade?

 

É que os bárbaros chegam hoje.

O nosso imperador conta saudar

o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe

um pergaminho no qual estão escritos

muitos nomes e títulos.

 

Por que hoje os dois cônsules e os pretores

usam togas de púrpura, bordadas,

e pulseiras com grandes ametistas

e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?

Por que hoje empunham bastões tão preciosos,

de ouro e prata finamente cravejados?

 

É que os bárbaros chegam hoje,

tais coisas os deslumbram.

 

Por que não vêm os dignos oradores

derramar o seu verbo como sempre?

 

É que os bárbaros chegam hoje

e aborrecem arengas, eloqüências.

 

Por que subitamente esta inquietude?

(Que seriedade nas fisionomias!)

Por que tão rápido as ruas se esvaziam

e todos voltam para casa preocupados?

 

Porque já é noite, os bárbaros não vêm

e gente recém-chegada das fronteiras

diz que não há mais bárbaros.

 

Sem bárbaros o que será de nós?

Ah! Eles eram uma solução.