A noite inominada de Juliana Meira

Crítica literária

A noite inominada de Juliana Meira

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Magritte

Poema Pássaro aposta na metalinguagem e no retrabalho de pequenas cenas para ampliar as estimativas líricas sobre o cotidiano

 

Há uma força que atravessa a poesia de Juliana Meira, mesmo quando ela erra. Em Poema Pássaro, seu terceiro livro, lançado agora em 2015 pela editora Patuá (dos raros selos a apostar com contundência em poesia contemporânea), a advogada gaúcha traz à tona uma expansão mais madura de seu universo marcado pelo estudo das sonoridades. O resultado, entre um existencialismo comovente e o tensionamento que às vezes soa inócuo, faz pensar no que a autora, atualmente radicada em Curitiba, ainda pode fazer em matéria de captura de objetos e sensações.

De “todas as palavras/ com suas mutações/ contagiam meu corpo// por isso sofro/ desde a sombra/ até o osso” até “a noite sibila/ velando o escuro sono/ das gentes/ até que silencia/ simplesmente// em sonho lhe escancaramos/ a brancura dos dentes”, fica evidente em Juliana a preocupação com a estatura de cada palavra. A engenharia é silenciosa, respeitando o peso do alfabeto – não por acaso seus poemas não têm nome e raramente são longos. É um método deliberado de síntese.

Poema Pássaro é formado por 86 textos. São, em sua maioria, tributos à concisão, à observação. Quando se assemelha em demasia à estética do haikai e, por conseguinte, dos senruys, Juliana perde um pouco o fluxo e entrega mais jogos de palavras do que significados – o que, em si, não é exatamente um demérito para quem evidentemente se interessa pelo aspecto “audível” da literatura.

Contudo, em certos poemas, principalmente nos mais longos, ela chega a imagens-conceitos que fazem de sua alfaiataria um lugar realmente singular: “Tento pintar/ a memória// revisito traços/ jogo tanta tinta fora// sustento ideias que/ estão só na minha// fundo cor de gelo// faço cor de pérola// talvez mais carvão// vou tingir de chão/ toda atmosfera”.

É fundamental no entendimento dessa poética o uso cotidiano da linguagem. Não interessam as palavras grandes. As costuras trabalham com um arsenal de palavras conhecidas, caseiras, porém reposicionadas de modo diferenciado.“não escrevo procurando/ ou perdendo// pra isso consulto mapa/ carrego bússola/ afio faca” O seu trunfo de economia é também um empurrão à frente em matéria de linguagem. Quanto mais se escreve, maiores são as chances de submissão ao erro.

 

Estante

Poema Pássaro

Juliana Meira

Editora Patuá, 100 páginas, R$ 35

www.editorapatua.com.br

 

Escape para a leitura

há no olho do gato
algo que não se vê
em nenhum outro

alguma coisa observa atenta
por vezes apenas contempla
noutras fera espreita
pondera

olhar feito lanterna
espectro de luz fulge
revelando traço lúgubre vertical
no abre e fecha da retina
cristal

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