A vida imita a escrita ou a escrita imita a vida?

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A vida imita a escrita ou a escrita imita a vida?

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No século XX, bastante ligado às universidades e a uma maior assertividade no discurso, o ensaio contemporâneo ocupa novos lugares de escrita, como a internet, e a experimentação. Contudo, ainda é pouco estudado, tanto na teoria literária como na prática das oficinas literárias ou de comunicação. Dessa maneira, antes do nosso Ensaiando a Não-Ficção, listamos 5 livros de ensaios de autores recomendados na bibliografia proposta por Moema Vilela, professora do curso:

Ficando longe do fato de meio que já estar longe de tudo — David Foster Wallace
Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo reúne alguns dos mais significativos ensaios de David Foster Wallace.
Embora seja mais conhecido por sua obra de ficção, que inclui, entre outros títulos, o aclamado romance Infinite Jest (1996), Wallace também foi um ensaísta e repórter brilhante, que deixou marcas no jornalismo literário e exerce hoje uma influência comparável à de Hunter S. Thompson.
Com a proposta de fornecer uma porta de entrada ao universo literário do autor, o volume abriga três reportagens – entre elas o famoso “texto do navio”, o relato de um cruzeiro pelo Caribe -, uma palestra sobre Kafka, uma crônica poderosa sobre o tenista Roger Federer e “Isto é água”, o discurso de paraninfo que se difundiu como um viral inspirador pela internet.
Na reportagem que dá título ao livro, Wallace, enviado pela Harper’s a uma feira agrícola em Illinois, se sai com uma crônica hilária sobre o estilo de vida americano. Em “Pense na lagosta”, o autor aproveita a visita a uma feira gastronômica para refletir sobre a legitimidade ética de ferver lagostas vivas para degustá-las. Ao tratar desses e de outros temas, o autor ignora as convenções da apuração jornalística e se concentra nos detalhes mais inusitados. Humor, inteligência, inventividade e um poder de observação assombroso são as marcas desse estilo que influenciou toda uma geração de escritores.

A vontade radical — Susan Sontag
Misto de ensaísta, novelista e cineasta, Susan Sontag é hoje uma das mais destacadas figuras da intelectualidade norte-americana. A vontade radical – Estilos reúne alguns de seus melhores ensaios sobre arte, filosofia e política. Em análises agudas e desmistificadoras, a ensaísta põe em questão temas polêmicos e absolutamente atuais, tocando em pontos-chave da contemporaneidade.
No primeiro artigo, a arte do século XX é analisada em sua tendência a se transformar em “antiarte”. A partir daí, são examinados o cinema (Bergman, Godard), o teatro (Beckett) e a literatura (Rilke, Novalis, Burroughs) e, em especial, a literatura pornográfica.
Passando pelo pensamento do filósofo romeno Emil Cioran, Sontag chega, por fim, à reflexão política: esboça um retrato seco e cortante da América e opõe-se à guerra do Vietnã num famoso “diário de guerra”, escrito por ocasião de sua visita a Hanói.

Ó — Nuno Ramos
Olhando bem os textos que compõem este livro em sua unidade tão estrita quanto desatada não são contos, nem poemas em prosa, nem crônicas, nem ensaios, nem crítica, nem romance, nem autobiografia etc., sendo, no entanto, tudo isso e mais uma coisa incerta e não-sabida, que o leitor nomeará. Uma vasta fantasia antropológica? Uma crítica da percepção? Um De senectude precoce? Uma meditação sobre a ruína? Uma reflexão espectral da forma-mercadoria? O transe brasileiro no seu limite? Epifania negativa? Uma Carta ao pai, que dói e estala em todas as suas juntas? Uma tese de doutoramento impossível, apresentada a um Departamento de Filosofia do Além? De novo nenhuma dessas coisas e, ao mesmo tempo, todas elas e mais alguma etc.

O guardador de segredos — Davi Arrigucci Jr.
Composto majoritariamente por textos escritos nesta primeira década do século, O guardador de segredos é dividido em três partes. Na primeira, “Poesia e segredo”, Arrigucci renova sua aguda capacidade analítica na leitura cerrada de textos poéticos brasileiros. Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade dividem espaço com nomes menos canônicos como Roberto Piva e Sebastião Uchoa Leite. Em seguida, em “Prosa do sertão e da cidade”, a ficção de João Guimarães Rosa baliza a rota interpretativa percorrida na abordagem de narradores como Rachel de Queiroz e Dyonelio Machado, assim como Juan Rulfo e Jorge Luis Borges. Na última parte, o autor analisa sua própria trajetória intelectual numa entrevista e em ensaios esclarecedores. Integrante de uma geração privilegiada pelo convívio com mestres como Gilda de Mello e Souza e Antonio Candido, Arrigucci revela nos textos sobre seus colegas e mestres a paixão pela experiência da literatura. Um texto magistral sobre o cinema de Alfred Hitchcock fecha o volume, reafirmando a amplitude da constelação de interesses que caracteriza a carreira intelectual de um dos críticos literários mais destacados do país.

Reflexões sobre o exílio — Edward W. Said
Em ensaios primorosos, Edward Said combina experiência pessoal e reflexão teórica para abordar autores de filosofia e literatura, além de temas ligados à política, à antropologia, à música e ao papel social dos intelectuais.
A guerra, o imperialismo e a ambição de governantes totalitários fizeram do século XX a era da imigração em massa e de uma condição de deslocamento psicológico ligado ao refúgio e ao exílio. A família de Edward Said é um exemplo significativo dessa condição: seu pai, a fim de não servir no exército turco, fugiu da Palestina para os Estados Unidos. Depois, já como cidadão americano, voltou, prosperou nos negócios e instalou-se no Egito.
Foi no Cairo que o menino Edward passou a infância e a adolescência, quando estudou em escolas inglesas que ignoravam a cultura árabe. Como diz ele, a escola “me convencera de que com um nome como Said eu deveria envergonhar-me de mim mesmo, mas que meu lado Edward deveria ir adiante e progredir, ser mais inglês, agir mais como inglês”.
É do ponto de vista privilegiado e ao mesmo tempo doloroso de quem sempre esteve dividido entre duas culturas que Said aborda uma série de temas que conduzem, cada um à sua maneira, ao ensaio que dá título ao livro. Como ele mesmo afirma, o exílio é uma fratura terrível e “sua tristeza essencial jamais pode ser superada”.


Professora do curso Ensaiando a Não-Ficção, Moema Vilela é doutora em Escrita Criativa pela PUCRS, graduada em Jornalismo (UFMS), mestre em Linguística e Semiótica (UFMS) e em Escrita Criativa (PUCRS). Trabalha com comunicação e artes desde 2000. Escritora e jornalista, é autora de Ter saudade era bom (Dublinense, 2014) e organimoema-vilelazadora de Vozes da Dança e Vozes do Teatro (Editora FCMS, 2008 e 2009). Co-editora e repórter da revista Cultura em MS de 2008 a 2015. Ministrou oficinas de escrita criativa em Porto Alegre, Pelotas e em Campo Grande-MS. Publicou contos e poemas em antologias e revistas literárias brasileiras, como na Raimundo, Revista Escrita, Jornal Vaia, Homo Literatus, O Borralho, De tudo fica um pouco.