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De chorar, A Festa de Babette faz de um jantar uma experiência de elevação e amor

 

Se A Festa de Babette não fosse o livro estupendo que é, extenso como imaginar um país desconhecido, a passagem em que a cozinheira chega à casa das duas senhoras norueguesas já seria digna de pasmo: “Quinze anos depois, numa noite chuvosa de junho, em 1871, a corda de campainha da casa foi puxada violentamente três vezes. As donas da casa abriram a porta para uma mulher robusta, morena, mortalmente pálida, com um pacote no braço, que as fitou com olhos arregalados, deu um passo adiante e tombou sem sentidos sobre o limiar da porta”.

Sabe-se, a história do amor a partir da gastronomia não começa em Babette. É longa, dos banquetes gregos às telas delirantes de Giuseppe Arcimboldo, que pintava rostos com todo o mercado municipal disponível. E convêm, de passagem, lembrar toda a trajetória do excesso no Ocidente, os ideais de gula e culpa na tradição católica, elementos fortemente impressos nas características das duas senhoras. Babette simboliza, de certa forma, a quebra em uma cidade de hábitos religiosos arraigados.

Em pouco menos de 50 páginas, Karen Blixen (1885-1962), também conhecida pelo pseudônimo de Isak Dinesen, realiza uma proeza: transformar um vilarejo no meio do nada em uma apoteose do amor e do bem viver. E a dinamarquesa descreve tudo com a volúpia de quem quase se arrebata de tão intensificada: “Na Noruega, existe um fiorde – um braço longo e estreito de mar entre montanhas altas – chamado Berlevaag. No sopé das montanhas, a cidadezinha de Berlevaag parece uma cidade de brinquedo feita com pequenas peças de madeira pintadas de cinza, amarelo e rosa e muitas outras cores. Há sessenta e cinco anos, duas senhoras idosas moravam em uma das casas amarelas.”

A Festa de Babette é harmônico. A prosa de contornos realistas se compõe ao lirismo das sutilezas – como certos pães e vinhos. O resultado é emocionante. “Mas o verdadeiro motivo para a presença de Babette na casa das duas irmãs estava para ser descoberto buscando-se um pouco mais fundo no passado e nos domínios do coração humano”. A obra entrega originalidade com a soma de candura e mistério. A cozinheira absorve os horrores do passado e transfigura-se numa explosão amorosa, restabelece a esperança, sem soar inacreditável. “Sim, assim é, querido irmão”, disse Martine. “Neste mundo, tudo é possível.”.

A mão de Karen dá uma pesada ao final da trama, com uns excessos sobre a arte e o mundo – difícil não aumentar a voz diante de um cenário tão hipertenso. Contudo, quando chegamos nessa etapa – e Babette se torna uma companheira nossa – já não há mais derrota, tristeza ou melancolia: tudo é felicidade, delírio e feitiço.

 

Estante

A Festa de Babette

Karen Blixen

Cosac Naify, 64 páginas

www.editora.cosacnaify.com.br

 

Escape para a leitura

“E logo descobriram que, a partir do dia em que Babette encarregou-se da administração da casa, seus gastos foram milagrosamente reduzidos e as panelas de sopa e cestas adquiriram um poder novo e misterioso de estimular e fortalecer os pobres e enfermos”. p.21