André Volpato, A Hora da Sesta

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André Volpato, A Hora da Sesta

Categorias:

Cordel

 

Texto vencedor do 1º Concurso Passaporte Esc., promovido pela Escola de escrita

 

A Hora da Sesta

André Volpato

Na casa desses aí era sempre a mesma coisa. O Seu Antônio pegava o júnior escondido no paiol e dava pra escutar lá do vizinho da outra esquina, Mais tu tá cumendu vridu, meu fíiu!, e o Antoninho tornava, Nãum, pai, eu tô chupando é preda d’água. Ai que tédio que a Dona Gema tinha dessa história. Vinha elezão reclamar, vinha elezinho choramingar, mas ela, Pff, estoica de dar orgulho no Zenão. Um dia, sentada na varanda depois do almoço, ela viu o tal vizinho da outra esquina com umas olheiras ássím! de grandes. Só aí se deu conta de que tinha gente perdendo a sesta por causa da gritaria. Com a hora da sesta alheia não se brinca: Dona Gema decidiu dar jeito na situação.

Olha que essa tal de Gema era uma dona cheia de artimanhas (desatolou a Mimosa só com uma vara e um apito no ano passado, fez a cabeça dos missionários ateus de dois anos atrás e, tem coisa de três anos, solucionou o caso do homem do saco), mas, mesmo pra ela, superar a teimosia do marido e do filho ia ser prova herculana. Bater de frente, sabia que não tinha como, então botou a cachola pra cozinhar e vesgueou até encontrar a resposta bem embaixo do nariz: se não tiver mais gelo pra chupar, também não tem mais briga. E lá foi a Dona Gema tentar se livrar da geladeira.

Primeiro tentou tirar ela da tomada (Vai que as besta num percébi…), mas não deu dez minutos pro Seu Antônio largar na orelha do júnior um berro de espantar urubu. Depois provou tombar a bicha com uma alavanca, mas era pesada que só ela, ficava dançando de lá pra cá e nada de cair. Aí a Dona Gema partiu pra ignorância, quis serrar fora a porta do segundo andar da geladeira, só que o Antoninho pegou ela no ato e não teve como seguir adiante. Ai que a Dona Gema já não tinha mais ideia. Olhando a adversária de revesgueio, ela teve certeza que os ímãs se mexeram pra dizer, Cumigu ninguém pode.

Nessa noite a Dona Gema mal dormiu, ficou escutando uns barulhos na cozinha, parecia que a geladeira tava gargalhando o triunfo. Levantou mais tarde no outro dia com um grito do Seu Antônio, Muié!, a geladera criô perna. A Dona Gema foi que foi correndo até enxergar o marido sambando bem no lugar onde ficava a maldita, e nada dela ali. Só teve tempo de chegar na varanda antes de começar a agradecer o destino, sem nem se perguntar quem é que tinha podido com a geladeira. E bem nessa hora vinha passando o vizinho da outra esquina, Diia, Dona Gema, foi embora o fazedô de gelo?