Arquitetura da violência institucional

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Arquitetura da violência institucional

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Terra em Transe 1

 

Notas de um tempo silenciado, de Robson Vilalba, ultrapassa definições para se posicionar como registro hagiográfico da história.

 

Foram 21 anos de ditadura. Mas parece que foram eras e degelos e infinitas peles-sobre-peles no Brasil. A nossa ditadura – ou período de exceção, se você prefere mais candura – ecoa, diferentemente de outros países latinos, por não se desvelar na íntegra: somos uma memória inacabada, um trem para as estrelas sem maquinista, um departamento público ainda vibrando à sombra de porões inauditos, à desconfiança de que em cada sorveteiro existe a sanha de um infiltrado.

Notas de um tempo silenciado, de Robson Vilalba, está no interstício entre a clareza e a escuridão. É literatura de horror jornalístico, a profusão distópica de George Orwell encontrando as páginas macabras (e frias) dos impressos. A obra, vencedora do Vladimir Herzog de Anistia e Direitos Humanos de 2014, um dos mais importantes prêmios do jornalismo brasileiro – Laerte ficou em segundo na categoria –, é o resultado estendido de uma série de reportagens publicadas na Gazeta do Povo por ocasião dos 50 anos do golpe militar.

O que faz Robson Vilalba em sua estreia (!) literária é assombroso. Retrato de histórias pouco conhecidas do período, a obra condensa o rigor do trabalho de pesquisa com os traços soturnos de um Frank Miller tomando café com Joe Sacco. É uma combinação inadequada para corações mais sensíveis. O poder de síntese gráfica é assustador, feérico, e colabora na formação de um painel da violência legitimada pelo estado. É trajeto para levar ao abismo. “É tortuoso ler a história de dentro”, diz logo na abertura, como quem anuncia um pesadelo.

Há livros tão fortes no espírito do tempo que inviabilizam um pouco a análise de campo mais criteriosa – sobram um e outro problema ortográfico no livro, por exemplo. Mas como avaliar a ausência de um de na revisão diante da história de um Antônio dos Três Reis Oliveira? De uma Sonia Lafoz? São histórias documentadas, escavadas, com ares de estorno – nós não pagamos nossas contas históricas, nunca pagamos. Nosso prédio está sempre em construção. Vilalba flerta um tanto com o panfletarismo, muito em função da forte carga da Sociologia em seus trabalhos. Contudo, num trabalho de tanta contundência, a voz narrativa um pouco mais carregada não é escorpião do contexto.

O livro ratifica a importância da pesquisa jornalística e o talento de um escritor-desenhista que já está precoce-e-ligeiramente posicionado na história da literatura brasileira. Ao final, Notas de um tempo silenciado tem uma espécie de roteiro de formação, um sumário de pesquisas, sensações e objetivos, pedagógico e fundamental para melhor compreensão do percurso. Aqui, onde o jornalismo é instrumento do fazer artístico, Vilalba cria um documento imprescindível para a melhor compreensão do que ainda não deglutimos.