As observações sobre o novo de Ana Guadalupe

Crítica Literária

As observações sobre o novo de Ana Guadalupe

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Beatriz Milhazes

 Não conheço ninguém que não seja artista, novo livro da autora maringaense, confirma potência e tradução atenta de nosso espírito do tempo

 

Destaca-se nos dois livros de Ana Guadalupe – relógio de pulso, de 2011, e Não conheço ninguém que não seja artista, de 2015 – um curioso senso de tragicomédia, a vida como uma sombra ambulante. A poesia da paranaense, radicada em São Paulo, aborda aspectos do cotidiano numa concentração de linguagem sutil como a gentileza e leve como uma tarde de histórias sem pretensão.

Em relógio de pulso, ela reúne 43 poemas, relacionados a um período de mais de dez anos de produção. O resultado é um tanto irregular, mas já desponta forças como “se perguntasse sobre a / fertilidade, os perni- / longos, a falta de sorte, //responderia que meu amor é / forte, chacoalha as árvores / sempre que parte”, de “Passé Composé”. Aqui, há a demonstração de controle daquilo que podemos denominar como prática do reverso do clichê. A poeta potencializa com simplicidade. “sem querer elisa / no quarto da frente / borrifa saliva / nas folhas”, diz em “sem querer elisa”.

Em não conheço ninguém que não seja artista, Ana realiza um dos caminhos mais tradutores do espírito de nosso tempo, sem se deslocar dos elementos básicos da natureza humana. Se no primeiro livro já víamos notas-observações da vida e um lastro de uma espécie de toque irônico-carinhoso, no segundo título, encontramos uma delicada reunião entre poesia e fotografia, num tipo especial de brincadeira de realidade.

A editora Confeitaria Mag propôs um percurso para construção de não conheço ninguém…. Ana e a fotógrafa Camila Svenson realizaram a seguinte proposta: Ana escreveu dez poemas e Camila fez dez fotografias. Em seguida, as autoras trocaram os materiais. A partir daí, Ana criou outros dez poemas em diálogo com as fotos, e Camila fez o percurso inverso. O resultado é de uma força incomum: em Ana, temos a singeleza, o detalhe, o pequeno susto de tudo o que é banalmente nós, a concentração de linguagem. Em Camila, a melancolia, a solidão dos objetos, o desconforto, o nada que aparece.

A poesia é, para Ana, uma brincadeira de sensibilidade, o presente é um estado voluntário de engano, sem perder a doçura: “que bom / que amor / um advento / a invenção de todos os séculos / o esquecimento”.

O que Ana faz de melhor em seu novo livro é a reconsideração do discurso das redes sociais. Ela se trabalha num certo pessimismo divertido. Assim, atinge locais que poucos poetas contemporâneos chegam. Em “amigos demais nas redes sociais II”: “amizade na infância é útil / há tempo de sobra e a casa / do amigo talvez tenha mais brinquedos / pais mais equilibrados biscoito recheado / anos depois manter um amigo / pode determinar uma agenda difícil / aborrecimento com seus novos discursos / fotos em exagero de frente pro mar”.

 

Estante

Não conheço ninguém que não seja artista

Ana Guadalupe e Camila Svenson

Confeitaria Mag, 56 p., R$ 39,90

 

Escape para a leitura

 

quem é você na web

a internet é tema perigoso e delicado

quero descrevê-la na folha

mostrar que domino seus ícones

jogar emojis na tela

para impressionar o leitor

dialogar com o novo

é tudo o que posso fazer nesta idade e momento

retratar o ciberespaço

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os bytes

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os atalhos

os dingbats

          os cd-roms

enquanto me atrevo a fazer isso

envelheço 44 anos num segundo

os símbolos se autodestroem

deletando minha autoironia coerente

apenas com o ano de 2014

o que resta é uma senhora cardíaca

          tentando pintar de roxo e aumentar a fonte