“Autoentrevista comigo mesmo / Na Esc., sempre tem café”, de André Cúnico Volpato

dESconforto

“Autoentrevista comigo mesmo / Na Esc., sempre tem café”, de André Cúnico Volpato

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Remedios Varo, Creation of the Birds

Pintura de Remedios Varo, “A Criação dos Pássaros”

 

O colaborador de hoje em nosso blog é o escritor André Cúnico Volpato, vencedor do Concurso Passaporte ESC. de 2015 e um dos alunos participantes da primeira edição do dESConforto.

 

Autoentrevista comigo mesmo / Na Esc., sempre tem café

André Cúnico Volpato

 

– Bom dia! Bom dia a você que nos acompanha aí da sua casa, do seu trabalho, da sala de aula ou da beira de um precipício, meu nome é André Cúnico Volpato e o nosso entrevistado de hoje é o André Cúnico Volpato. André, no semestre passado, você participou de cento e treze horas e trinta minutos de oficinas na Escola de Escrita. Como foi passar por esse intensivo de criação e crítica literárias?

– Bom dia, André, bom dia a todos que nos acompanham. Primeiramente, eu gostaria de agradecer pelo convite…

– Algum problema, André?

– Isso tá idiota.

– Como assim idiota?

– O lance do precipício ali, nada a ver. Em nenhum precipício que se preze tem cobertura 3G, como alguém ia acompanhar a gente de lá? E para com essa coisa de entrevista, que ideia bosta. Só pediram pra gente escrever um depoimento, coisa simples.

– O comentário sobre o precipício eu até aceito, dá pra mudar depois, se for o caso. Mas a entrevista foi ideia sua. Então, né, tenha a bondade.

– Você tá me proibindo de mudar de ideia, é isso?

– Não, você tá se proibindo de mudar de ideia. Agora, por favor, chega de perder tempo.

– Tá bom, tá bom. Qual era a pergunta?

– Como foi fazer tantas oficinas num semestre só?

– Depois dá pra cortar isso aqui, né?

– Dá.

– Bem, André, foi certamente uma imersão interessante. Eu conhecia muito pouco da cena literária aqui de Curitiba, e durante o semestre eu estive em contato com pessoas importantes para a sua organização. Agora tenho uma boa ideia do funcionamento do meio literário, sei um pouco do que pensam sobre a literatura alguns autores e críticos, tanto novos quanto já estabelecidos.

– E sobre o seu aprendizado, André, o que você pode nos contar? Estar em constante contato com essas pessoas que você descreveu, além da maratona de aulas e exercícios, com certeza serviu para você aprimorar a técnica, não é mesmo?

– Sim.

– Só sim? Responde direito.

– Posso ser o entrevistador?

– Puta merda, André, responde pra gente acabar de uma vez.

– É que eu não tô respondendo bem.

– Tá, sim, tá ficando legal.

– Se eu acho que tá ruim, você também acha.

– Mas eu vou ser pior ainda.

– Não custa a gente tentar.

– Vai, então.

– Tá bom, do início… Bom dia! Bom dia a você que nos acompanha aí da sua casa, do seu trabalho, da sala de aula ou do topo de um prédio num grande centro urbano onde há cobertura 3G de todas as operadoras, meu nome é André Cúnico Volpato e o nosso entrevistado de hoje é o André Cúnico Volpato. André, no semestre passado, você participou de cento e treze horas e trinta minutos de oficinas na Escola de Escrita. Como foi passar por esse intensivo de criação e crítica literárias?

– Bem, André, deixe-me explicar utilizando uma metáfora…

– Eu já escutei o bastante.

– Como assim?

– Você tinha razão, você responde pior.

– Mas você nem escutou a minha metáfora.

– Vamos voltar, você pergunta e eu respondo.

– Era uma metáfora com café.

– Uhm?

– Na Esc. sempre tem café.

– E daí?

– Daí que eu gosto de café.

– …

– Não entendeu?

– Puta merda, André, faz a pergunta pra gente acabar de uma vez.

– Qual foi a sua oficina favorita? E de qual você menos gostou?

– Ficou brabinho?

– Responde.

– Eu quero deixar registrado aqui que gostei de todas as oficinas em igualíssima medida. Agora chega de pergunta-armadilha.

– Então chega de mudar de ideia.

– Como você quiser.

– A pergunta sobre o aprendizado, então.

– O aprimoramento da técnica é uma busca que não termina, André. O que eu posso dizer é que todas as oficinas serviram para ao menos um desses dois objetivos: transformar a leitura num processo ativo e fazer da criação um ato consciente. Ainda não tenho domínio sobre o meu processo criativo, ele passa por altos e baixos de um jeito caótico, quase esquizofrênico, eu diria. Mas aprendi a ser um leitor muito mais atento, e isso significa que tenho uma ferramenta para dar continuidade à busca pela técnica fora do ambiente das oficinas.

– Esse semestre de oficinas foi suficiente, então? Agora você pretende dar continuidade sozinho?

– De maneira nenhuma, vou continuar fazendo as oficinas. Só queria ilustrar a importância da leitura atenta como ferramenta para aprimorar-se. Mas há uma outra coisa essencial no ambiente da oficina, muito difícil de encontrar fora dela, que é o momento de submissão dos textos à crítica. Antes de chegar na Esc., tentei mostrar meus textos para amigos, mas os retornos costumavam ser destrutivos ou elogiosos. Raramente recebia alguma crítica construtiva, e é justamente disso que escritores precisam, principalmente quem está começando.

– Chegamos, então, ao fim da nossa entrevista. Pois é, que pena! Muito obrigado por sua participação, André, e muito obrigado a você que nos acompanhou até o final. Até a próxima.

– É só isso?

– Aham, acabou.

– …

– …

– Metáfora com café. Que ideia bosta.