As condições de laboratório em Rodrigo Garcia Lopes

George Grosz em Paisagem do Apocalipse
George Grosz em “Paisagem para o apocalipse”

Experiências Extraordinárias apresenta uma nova relação entre os fenômenos midiáticos e a poesia

 

A poesia, o ato de preencher a linguagem com significados, está para a interpretação do mundo assim como a água está para a seca, exercício de resgate. Experiências Extraordinárias, último livro do londrinense Rodrigo Garcia Lopes, é um caso raro de clareza intelectual com rigor e método: precisão aliada a sentimento.

(Força na aguadura, distanciamento do que é turvo.)

A obra é dividida em quatro eixos bem amplos. Em “Idade Mídia”, os temas contemporâneos são questionados na balança fumegante entre civilização e barbárie; “Satori Uso” é uma compilação de haicais, também nome do heterônimo criado pelo poeta na década de 1980; “Diálogos” é um passeio pelo percurso intelectual-artístico do autor, com suas referências à mostra; e “Experiências Extraordinárias” é um apanhado de poemas livres. Os núcleos quase extremos se conversam e denotam a versatilidade de Garcia Lopes, também compositor, tradutor, editor e jornalista.

A obra foge do palavreado nebuloso, de uma certa alma trapaceira muito em voga na poesia contemporânea – quando o autor deixa no leitor a desconfiança de que ou escreveu algo muito genial ou foi apenas confuso, algo que realmente não acontece aqui. “Querido pensamento,/ nunca fomos tão nós/ quando estivemos a sós/ no instante de seu advento.” é dito em “Solilóquio”.

De modo geral, a curvatura metodológica de Experiências Extraordinárias transita entre a tradição literária – os mitos, a literatura oriental, França, as glórias do mundo – e a elaboração de um tipo de leitura para o novo, quando o poeta se coloca na condição de tradutor. Aqui, a cultura pop se apresenta num campo onde o erudito não a anula. A primeira sequência de 14 poemas desvela isso; vozes para entender o imediato:

 

Tempos de Celebridade

Carlos, na próxima encadernação

Nascerei filho de alguém famoso.

E então, como um cão raivoso,

Não largarei meu precioso osso.

 

Quem disse que é preciso ler,

Ter talento? Não seja ridículo.

Esforço é coisa de otário.

Meu sobrenome será meu currículo.

 

Vou escrever uns poemas fofos

Umas cançõezinhas ordinárias

Com uma certeza: o Brasil nunca saiu

Das capitanias hereditárias.

 

Garcia Lopes corre alguns riscos. Ao se aventurar em um terreno crítico/sonoro, ele soa, em alguns momentos, quase como tribunal de redes sociais, principalmente na sequência em que parodia formatos jornalísticos para autores clássicos. “DJ Marcel Duchamp curte balada em Jurerê Internacional”, diz em um trecho de Famosos (I). A busca por ser integrante de seu tempo também cobra seu preço, que o autor não se nega a pagar.

Porém, a aplicação conferida ao cotidiano, àquilo que está boiando na superfície em busca de sentido poético e é recuperado, impede que a obra se perca no próprio fluxo de acidez. Em “Guarujá Salem”: “linchada por um boato/ numa tarde de sábado/ mundo-barbárie// fabiane// ainda ergue a cabeça/ para um último olhar/ à multidão de agressores// filmando com celulares/ e smartphones”.

Sem semear espinhos, Experiências Extraordinárias ambiciona, sim, uma certa juventude eterna, assentar-se como espírito de um tempo. Não é um livro pequeno, individualizante, parido para ser mais. Em “Império dos Segundos”, há o aprofundamento das noções contemporâneas de tempo, a fugacidade toda da matéria que absorve os dias, o fluxo inesgotável, perene. (O poeta como um revelador, transmissor e registrador dos pensamentos):

“Se eu fosse parar pra saber/ o sabor deste instante/ não iria jamais perceber/ do que é feito o durante,// a carne de cada segundo, / minuto de cada poente/ de que é feito este mundo, / sangue, esperma, poeira,// não ia jamais me lembrar/ da trama da tarde, museu/ onde moram as velhas horas,/ nem o duro rosto deste outro// outono, matéria, mistério,/ nem a memória, esse mármore/ em fluxo, rugido em estéreo/ de uma incessante cachoeira.”

A poesia de Rodrigo Garcia Lopes é bela e funciona. Atravanca o caminho, mas descongestiona. É o poeta como um cientista de sensações, em busca de responder (com a cabeça e o coração) à fome absoluta dos dias.

 

Estante

Rodrigo Garcia Lopes

Experiências Extraordinárias

Kan editora, 104 páginas, R$ 35

A obra pode ser adquirida na livraria da Escola de Escrita, localizada na Rua Riachuelo, 427, Centro, Curitiba ou pelo contato@escoladeescrita.com.br.

O autor ministrará na Escola, a partir de março, a Oficina de Criação Poética, também denominada Experiências Extraordinárias. As inscrições podem ser feitas aqui e aqui.

 

Escape para a leitura

A história da Lua

Ela, velha

lanterna chinesa

translúcida

 

(Cor de crânio

quase a explodir)

flutua – Lua:

 

Escudo de batalha,

hóspede do céu,

cesta de damas-da-noite:

 

Quantas marcas de passado

em suas feridas, fissuras,

cicatrizes?

 

1969, Armstrong te largou aí,

depois de pisar e pular

em suas crateras.

 

Até hoje dizem

que tudo não passou

de pura encenação.

 

Cientistas se debatem

sobre o mistério

de sua composição

 

E ainda assim, com essa cara

de máscara de Nô,

você nos olha.

 

Li Po te esperou aquela noite

no Rio Amarelo.

Ele só queria abraçá-la.

 

Méliès (1902) abusou

de sua inocência

em Le voyage de la lune

 

Enquanto egípcios

a tiveram, Chonsu,

em altíssima conta.

 

Artemis, Chandra, Jaci.

Deusa branca,

Senhora do Oriente,

 

A memória colhe

outros nomes

em seu passeio noturno:

 

Bombardeada pelo sol,

o que fascina

é sua face oculta:

 

Capuz de velha bruxa,

perita no disfarce

de suas fases.

 

Este o nascer da Terra

visto de sua praia cinza e sem mar,

onde som nenhum se propaga.

 

Estéril concubina, espelho solar,

satélite inútil

suspenso no enigma.

 

Certa noite de verão

Sokan lhe pôs um cabo

e tornou-a um esplêndido abano.

 

Lua que desce à terra

e se mistura

com o sonho dos homens.

Ossos do Paraná

Multidão no Passeio Público por ocasião das homenagens ao poeta de Ilusão.
Multidão no lançamento de “Ilusão”, de Emiliano Perneta, em 20 de agosto de 1911

 

A história literária paranaense tem na revista Joaquim seu primeiro grande momento de protagonismo, mas há, anteriormente, nomes e eventos importantes para o entendimento de nossa produção cultural.

 

Daniel Zanella

 

Em abril de 1948, o confiante Dalton Trevisan proclamou, no primeiro editorial da Joaquim, um peculiar manifesto: “Por tudo, a literatura paranaense começa agora”. A revista – em homenagem a todos os joaquins do Brasil, em minúsculo mesmo – começava a romper com o provincianismo local, a estabelecer uma nova rota literária e a colocar-se como um dos periódicos brasileiros mais vanguardistas do século 20. E não tinha vergonha de anunciar isso.

Não foi pouco. Ao longo de 23 edições, a revista atacou o Paranismo, corneteou Monteiro Lobato, colocou Alfred Andersen pra correr e lançou uma série de artistas, de Poty Lazarotto ao próprio Dalton, que, curiosamente, se autopublicou algumas vezes – uma interessante tradição dos publishers locais de literatura.

Apesar da ressignificação proposta (e acontecida) pela Joaquim, a literatura paranaense feita antes da década de 1940 não pode ser descartada como um Emiliano Perneta severamente arrasado na terceira edição, em artigo de Trevisan: “[…] Ele está para Bilac como o canto do vira-bosta está para o canto do sabiá”. Em sua própria revista, o Vampiro de Curitiba relembrou diversas vezes a importância da obra de Newton Sampaio (1913-1938), a quem considerava o maior contista do Paraná – a intertextualidade de vozes, inclusive, é evidente.

Sampaio não publicou nenhum livro em vida, mas acabou sendo reconhecido quase ao acaso pela Academia Brasileira de Letras por Irmandade, livro premiado após a morte do autor, vítima de tuberculose, num sanatório da Lapa. (Até hoje não se sabe como um exemplar foi parar nas mãos dos imortais). Os contos de Sampaio, destituídos de adjetivismos ou de floreios, apresentam uma Curitiba sem cortinas, escura, fugindo propositalmente do baú de mitos, belezas e engrandecimentos do Paranismo, em voga no estado. Pessoalmente, ele desprezava com força a vida artística pública.

Quando o artigo da discórdia relembra a coroação de Emiliano Perneta, eleito Príncipe dos Poetas Paranaenses em uma pitoresca solenidade realizada no Passeio Público de Curitiba, em 20 de agosto de 1911, podemos ver retratado ali um certo sangue histórico de Sampaio, de fato, o nosso primeiro outsider. Trevisan não seria tão determinado em seus ataques sem uma coragem originária.

Se Ilusão representa o Simbolismo em seu cerne muitas vezes pejorativo, também é o primeiro best-seller paranaense e a comprovação da existência de uma cena literária local. A cerimônia toda de lançamento é bem mais do que um marco da nossa trajetória cultural. É a sagração do mais importante nome da produtiva geração de simbolistas paranaenses.

Para homenagear Perneta, foi construída uma pequena ilha de contornos gregos, em um cenário marcado pela artificialidade. Foram vendidos 400 exemplares, entre louros e aplausos. Os registros do evento são até hoje inigualáveis no entendimento do Paraná, sempre de mãos dadas com a autoveneração, principalmente de fora para dentro – Emiliano era bem relacionado no Rio de Janeiro e em São Paulo, algo sempre considerado entre nossos pares.

Dalton, do alto de seus 21 anos, negava, de modo visceral, a validade da obra de Perneta, mais como um publicitário iconoclasta do que como um crítico apurado. “Foi uma vítima da província, em vida e na morte. Em vida, a província não permitiu que ele fosse o grande poeta que podia ser, e, na morte, o cultua como o poeta que ele não foi.” Contudo, não é tão simples invalidar Emiliano, integrante que foi de importantes coletâneas nacionais sobre o Simbolismo, apesar de uma visível repetição de temas. Além disso, ele foi motor no surgimento e desenvolvimento de diversos impressos literários, como a revista Cenáculo e a Pallium.  

Aliás, a tradição de impressos do Paraná é quase misteriosa. Entre 1896 e 1914, por exemplo, tivemos 15 periódicos com ambições estéticas comprometidas com o Simbolismo. A própria Joaquim, antianterior, surgiu na esteira seguinte com uma modernidade difícil de explicar, se valendo, sim, de uma trajetória já estabelecida de periódicos. Depois tivemos (e temos) O Sapo, Nicolau, Rascunho, Cândido, entre outros periódicos importantes, além daqueles com atividades reduzidas a períodos mais curtos, como a curitibana Oroboro, publicada de 2004 a 2006 por Ricardo Corona e Eliana Borges.

Bem antes de tudo isso, em 1867, foi realizado o lançamento do volume 1 de Flores Dispersas, de Júlia da Costa, a primeira escritora paranaense, de voz romântica-melancólica e história pessoal dramática, a quem o escritor e editor Roberto Gomes dedicou um livro emocionante, Júlia, de 2008. A parnanguara teve uma vida social e política marcada por um protofeminismo ferrenho. São tristezas, escândalos – ela pintou os cabelos de negro numa época em que apenas as meretrizes faziam isso –  e a posterior reclusão seguida de paranoias. No fim da vida, fazia colagens na parede. Em uma prova da nossa falta de respeito histórico, seus restos mortais foram “redescobertos” em 2009, quando operários faziam a manutenção do obelisco em sua homenagem, no Centro Histórico de Paranaguá.

Em 1894, o escritor e tipógrafo Dario Vellozo (1869-1937) afirmou na Revista do Clube Curitibano (1890-1912) que o Paraná não tinha literatura, nem possuía valiosos subsídios para sua história. Não é verdade. Talvez o Paraná sempre tenha sido bom em desarticular suas próprias origens, como se tudo se iniciasse agora. Ou depois.

“Anotações de um narrador parcial”, de Reginaldo Pujol Filho

Caspar David Friedrich - Woman with Candlestick
Caspar David Friedrich em “Mulher Com Um Castiçal”

Em novembro do ano passado, o escritor gaúcho Reginaldo Pujo Filho, autor de “Sem Título”, trouxe a Oficina “Quem está falando?”, onde falou sobre os aspectos e as possibilidades do narrador literário. “Anotações de um narrador parcial” saiu na primeira edição do dESConforto.

 

Anotações de um narrador parcial

Reginaldo Pujol Filho

 

Durmo vendo, da janela do quarto, um homem nu e uma mulher nua. Mas, antes disso, o pessoal já tinha me alertado que Curitiba não é sempre assim.

Conheço o cara há menos de meia hora e duas cervejas, mas já recebi a promessa de que, no dia seguinte, serei levado a um bar por hora entre 19h e 23h com direito a assombração, literatura e bigodes. Mas Curitiba não é sempre assim.

É sábado de manhã: uma casa branca, com leões alados no topo, bonita, conservada, no centro bem centro da cidade e, dentro dela, quase dez pessoas se dispõem a ler literatura, escrever textos, discutir pontos de vista, prestar atenção no outro. E é sábado de manhã, e já é sábado à tarde, depois será a manhã de domingo e a tarde de domingo e todos os seus chamados da cama, do sofá ou das ruas. Mas o pessoal me alerta: atenção: Curitiba não é sempre assim.

Chove. Para. Fica nublado. Abafa. Chove um pouquinho. Fica nublado. A turma lamenta ou me consola: Curitiba é quase sempre assim. Rollmops: ninguém sabe me dizer de onde vem, seja a receita (acabo de descobrir na internet), seja a suspeita conserva em cima do balcão. Rollmops: todo mundo fala de rollmops, mas ninguém quer comer. Encaro, é ardido, até o dono mal humorado do boteco ri da minha cara. Mas eu gosto. E me lembram que Curitiba não é sempre assim.

Entre a mesquita e o Bar do Alemão centenas de pessoas passeando pelo fim de tarde de domingo. Há shows no museu, nas ruínas, mesas nas ruas, pessoas dançam dança de salão atrás dos janelões de uma casa colonial ao rés do chão. Eu olho para os meus guias, ameaço a pergunta, eles antecipam: Não, não é sempre assim.

Imagino como seria andar no ônibus turístico: à sua direita, não é sempre assim. Agora, se você olhar para sua esquerda, poderá ver que não é sempre assim. Vamos virar a esquina e convido todos a olharem para frente: vejam, não é sempre assim.

Recebo jornais literários e revistas também. E antologias de autores locais que não são o Dalton Trevisan, nem o Paulo Leminski, nem o Cristóvão Tezza, nem o Wilson Bueno, nem o Jamil Snege, nem o Valêncio Xavier, nem Manoel Carlos Karam. E ouço da Biblioteca Pública do Paraná e dos poetas do Batel, e dos poetas que não são do Batel e vou a duas ou três livrarias onde há bons acervos de revistas de literatura, e fico sabendo de rixas literárias e que tinha quatrocentas ou trezentas pessoas para ouvir o José Luis Peixoto falar. Mas, claro, todos sabem: Curitiba não é sempre assim.

Uma rua de teatros que eu imagino que desapareça durante a semana, porque me dizem que não é sempre assim. Bolo de carne no pão e cerveja. Marreco e cerveja. Promessa de carne de onça e cerveja. Curitiba não é sempre assim e peço uma cerveja.

Descemos, de carro uma série de ruas cujos nomes não deu tempo de aprender, e chove um chuvisco típico de dia lançamento de livro e mais típico ainda de congestionar trânsito às 18h no que chamamos de metrópole. E vamos lentos e, num cruzamento parcialmente obstruído por carros retardatários e outros afobados, é preciso fazer um ziguezague com a EcoSport como se ela fosse maleável e há carros em fila dupla tentando estacionar em raras vagas, confundindo ainda mais o fluxo e anda-se mais devagar do que se a pé e estamos todos ou atrasados, ou cansados, ou querendo deixar a semana para trás e chegar logo na sexta-feira, ou tudo isso, e comento sobre o tráfego com as meninas e elas me interrompem enchendo a boca para dizer que Curitiba é sempre assim, porém peço meu direito de vírgula para seguir meu comentário, mas e onde estão as buzinas, em Porto Alegre não nos ouviríamos mais, tantas as buzinas. Ah, pois é, mas Curitiba não é sempre assim.

 

O CRIANÇADA

NOIS FECHA 11:30 (23:30)

DEPENDO DE ÔNIBUS

VILA SANDRA

 

Diz a faixa dentro do bar e a cerveja custa ingênuos cinco reais e o boteco chama-se Condor, mas todos fingem não saber e pedem mais uma para o Bigode, que, se me dissesse mais do que dois resmungos simpáticos, sim, ele foi simpático, diria, talvez, eu não sou sempre assim e Curitiba também não.

E a livraria com café e uma editora que admiro era exatamente como eu imaginava, o que é muito bom, é ótimo. Mas parece que Curitiba não é sempre assim – até porque a livraria vai se mudar.

Sei que a cidade tem uma praça de bolso e não conheci nem a Ópera de Arame, nem a Pedreira e sei que não sei como a cidade é. Só sei que não é sempre assim. Mas quem é sempre assim, assado, como ontem, anteontem, amanhã?

“alpargatas no cio”, de Marcelo Wilinski

Genieve Figgis Mulher Nua Descendo a Escadaria
“Mulher nua descendo a escadaria”, da pintora Genieve Figgis

O colaborador de hoje no blog da Escola é Marcelo Wilinski. Ele foi um de nossos alunos da Oficina de Literatura Paranaense e da Oficina de Criação Poética ministrada por Noemi Jaffe. Este ano, ele está matriculado para a Oficina de Criação Poética de Rodrigo Garcia Lopes, que acontece a partir de março. “alpargatas no cio” integrou a primeira edição do dESConforto

alpargatas no cio

Marcelo Wilinski

 

cavalos marinhos

terrestres equinos

alados por não quererem voar

um voo simples

quem salta de um precipício também voa

um avião com escala para o além

pena que voa para baixo

pena que voa

quem voa não é a pena

a pena que faz voar

apenas pelo pena

papagaios não voam

porque estão presos

se estivessem soltos

não iriam voar

se alguém voasse perto

eles voariam também

adoram imitar

vanilla ice do mundo animal

nós somos o queen

cantando under pressure

e eles dizendo que tem uma nota a mais

por isso não é plágio

ou quando o terra samba

(nada mal)

foi gravar um clipe em cuba

e o reinaldo suava mais

que o fidel de coturno em aruba

(é T de terra

S de samba

o que é que deu?)

deu sorologia positiva pra malária

se fodeu

febre terçã

falei que não era pra pegar chuva, menino

leva a blusa

vai jogar bola, volta com virose

ainda bem que não é leptospirose

catapora

unha encardida

fuligem no cérebro

catatau

síndrome de patau

patati patatá

ilha de páscoa

cidade do méxico

jaboatão dos guararapes

jururu internacional

(a praia da tristeza)

um mundo onde o celso portiolli

é o seu padrinho de casamento

e você leva uma torta na cara

perdendo a sua viagem para a lua de mel

para cubatão

com tudo pago pelo candeias

porque errou a pergunta final

“em que ano estreou o globo rural?”

vai à merda

não sei nem a data de aniversário do meu pai

só lembro porque ele me adicionou no feice

de presente, tolice

comprei um livro do padre marcelo

biografia divina

hermético som das harpas celestes

fronteiras bíblicas de israel

algo do tipo

meu irmão deu o cd novo do daniel

ele adorou

mas eu gosto mesmo é do double you

maldito gringo

veio pro brasil nos anos 90

pra cantar

e nunca mais foi embora

falando nisso

onde está robinson, o anjo?

adryana? e a rapaziada?

afonso nigro?

marcelo augusto?

aquela cantora que namorava o latino e era bem gostosa?

a nota de um real?

sidney magal?

juma marruá?

o leite em saquinho?

a arminha de plástico com suco cancerígeno dentro?

A

B

C

A

B

C

toda criança tem que ler

e escrever

grande pelé

que fez essa poesia pra provar

também é poeta quando fala

paulo leminski

paulo francis

paulo autran

paulo ricardo

paulo nunes

paulo maluf

paulo cintura

issa

ie

essa padaria

nunca vendeu pão

Curitiba em lead e travelling

de Kooning - Woman
“Mulher”, do pintor Willem de Kooning

Uns Contos No Bolso, de Flavio Jacobsen, concilia ambientes cinematográficas com técnicas narrativas do Jornalismo

 

Se assim é, se lhe parece, Uns Contos no Bolso, de Flavio Jacobsen, é o retrato do jornalismo contemporâneo – seco, reto, distanciado perante o absurdo – abraçado a um cinema cinzento, de cortes rápidos, sem piedade. Em 21 histórias, marcadas pela brevidade, o escritor paulista, radicado na capital desde a infância, relata uma série de episódios urbanos com personagens vestidas de decadência.

Não falta pra ninguém.  Da televisão às madrugadas, a prosa de Jacobsen atira sem ser o vilão que explica o crime. Em “Paranoid”, um repórter conversa com uma banda de death metal antes de um show – a ironia vencendo o tédio e o ridículo. “A entrevista foi boa. Anticristos, nada demais. Gente que não gosta da sociedade cristã e ouve música alta. Muito alta. Só isso. Barulheira dos infernos, eu não quis ficar. Fomos embora, deixando os filhotes de Rosemary pra trás.”

A prosa de Jacobsen, apesar de não fazer questão de esconder influências de diretores que nunca foram reconhecidos pela falta de pretensão, não sofre de mimetismo intelectual (quando tudo parece um arremedo de algo melhor). São diversas capturas que resultam num estilo próximo da música barroca, com cores próprias. “Cigarro versus escuro. João esteve aqui. Dá-lhe Coxa. I love you. Boqueirão na veia. Aqui o valente se mija. Só Jesus salva. Mariazinha, volta pra mim.”, diz em “Ao Sucesso”.

Alguns momentos se destacam pela crueza, principalmente quando o autor faz prevalecer a sua vontade de choque e lirismo. Personagens mais tortos são humanizados em sua natureza menor, solenemente dramática. Em “Cotidiano 2”, um terno diálogo amoroso evidencia isso:

 

– Me diz uma coisa. Você engole meu esperma por que me ama ou é pra não sujar o lençol?

– Hmm?

– Pra não sujar o lençol, né?

– É.

– Puxa…

– Mas eu gosto. E te amo, também…

 

Uns Contos no Bolso é direto como a tristeza é para a bebida. Um projeto noturno-decrépito para bares cativos. A lamentar apenas que um livro tão consistente em intenção e gesto não tenha recebido um título melhor.

 

Estante

Uns Contos no Bolso

Flavio Jacobsen

Kotter Editorial, 80 páginas, R$ 30

 

Escape para a leitura

Escarlate

Entre os destroços do avião, o que sobrou de Antônio, ainda que por milagre, foi a feição. O terno risca de giz, chamuscado mas quase intacto, seus grisalhos inconfundíveis. Em punhos cerrados numa mão uma maleta, algemada ao pulso, na outra uma foto 3×4.

Madalena foi reconhecer o marido no IML. Confirmado, era ele e seus os pertences. Na foto colorida, uma moça de cabelos em falso vermelho contrastando azul claro dos olhos, sorria leve. Na maleta escova, pasta de dente e documentos, dos quais a esposa não sabia nem muito nem pouco. Choro breve e procedimentos.

Dia seguinte, na capela do Municipal, família, imprensa, empresários e amigos. Sob um véu negro, adentrando discreta e solene, a moça toca levemente o caixão fechado. Sorri o mesmo enigma da foto, deixando escapar por debaixo do véu os fios escarlates. Uma rosa branca, e vai-se sem cumprimentos.

Madalena abraça o mais novo, desalinhando seu tweed inglês. Ensaia uma gargalhada, que evolui para choro e soluços. Ao vivo, de soslaio, a repórter de tevê irrompe em breve silêncio, examina a cena e, ato contínuo, devolve a matéria ao apresentador do plantão.

O que as pessoas pensam quando falamos em Redação Criativa?

Escolha a alternativa correta para completar a frase seguinte.
Redação Criativa é um curso de ___________________.”

a. Nada, afinal ou você tem ou você não tem criatividade. Não dá pra forçar.
b. Extrema importância para quem pretende participar do Big Brother Brasil.
c. Formas de ensinar o cidadão a pescar o próprio peixe e contar histórias legítimas de pescador.
d. Trocadilhos e sacadinhas (geniais).
e. Rimas.
f. Preparação de florais de Bach.
g. Reaproveitamento inteligente das horas vagas, vulgo ócio criativo.
h. Aceitação de marca autoral. É autoajuda, né?
i. Como escrever em posições novas: Kama Sutra literário.
y. Um curso para essa geração.
x. Estratégias para lidar com a falta de ar-condicionado na empresa ou com a falta de coerência dos coleguinhas.
o. Caligrafia?
k. Desconstrução da linguagem enquanto forma pulsante e em processo permanente de ressignificação.
l. Escrita de juramentos universitários e discursos de formatura.
m. Como lidar com a repetição voluntária – formas de.
o. Autoconhecimento do eu lírico – um preparatório para lidar com o self, com o próprio eu.
n. Um aprendizado que começa desde o alfabeto.
k. Geração aleatória de caracteres.
r. Capacitação para o jogo Academia ou para melhorar o desempenho no Imagem & Ação.
z. Definição de novos padrões.

Venha fazer o nosso curso de Redação Criativa, nos dias 23 e 24 de janeiro, em Curitiba-PR, e esteja apto a escolher a alternativa mais adequada. Podemos garantir que a sua vida, ~no que se refere~ à categoria textual, vai mudar. Ou o seu dinheiro de volta. Ou um motivo para você tomar um café com a gente. Ou fim.

Vai ter em Cascavel-PR e em Belo Horizonte-MG também.

“Autoentrevista comigo mesmo / Na Esc., sempre tem café”, de André Cúnico Volpato

Remedios Varo, Creation of the Birds
Pintura de Remedios Varo, “A Criação dos Pássaros”

 

O colaborador de hoje em nosso blog é o escritor André Cúnico Volpato, vencedor do Concurso Passaporte ESC. de 2015 e um dos alunos participantes da primeira edição do dESConforto.

 

Autoentrevista comigo mesmo / Na Esc., sempre tem café

André Cúnico Volpato

 

– Bom dia! Bom dia a você que nos acompanha aí da sua casa, do seu trabalho, da sala de aula ou da beira de um precipício, meu nome é André Cúnico Volpato e o nosso entrevistado de hoje é o André Cúnico Volpato. André, no semestre passado, você participou de cento e treze horas e trinta minutos de oficinas na Escola de Escrita. Como foi passar por esse intensivo de criação e crítica literárias?

– Bom dia, André, bom dia a todos que nos acompanham. Primeiramente, eu gostaria de agradecer pelo convite…

– Algum problema, André?

– Isso tá idiota.

– Como assim idiota?

– O lance do precipício ali, nada a ver. Em nenhum precipício que se preze tem cobertura 3G, como alguém ia acompanhar a gente de lá? E para com essa coisa de entrevista, que ideia bosta. Só pediram pra gente escrever um depoimento, coisa simples.

– O comentário sobre o precipício eu até aceito, dá pra mudar depois, se for o caso. Mas a entrevista foi ideia sua. Então, né, tenha a bondade.

– Você tá me proibindo de mudar de ideia, é isso?

– Não, você tá se proibindo de mudar de ideia. Agora, por favor, chega de perder tempo.

– Tá bom, tá bom. Qual era a pergunta?

– Como foi fazer tantas oficinas num semestre só?

– Depois dá pra cortar isso aqui, né?

– Dá.

– Bem, André, foi certamente uma imersão interessante. Eu conhecia muito pouco da cena literária aqui de Curitiba, e durante o semestre eu estive em contato com pessoas importantes para a sua organização. Agora tenho uma boa ideia do funcionamento do meio literário, sei um pouco do que pensam sobre a literatura alguns autores e críticos, tanto novos quanto já estabelecidos.

– E sobre o seu aprendizado, André, o que você pode nos contar? Estar em constante contato com essas pessoas que você descreveu, além da maratona de aulas e exercícios, com certeza serviu para você aprimorar a técnica, não é mesmo?

– Sim.

– Só sim? Responde direito.

– Posso ser o entrevistador?

– Puta merda, André, responde pra gente acabar de uma vez.

– É que eu não tô respondendo bem.

– Tá, sim, tá ficando legal.

– Se eu acho que tá ruim, você também acha.

– Mas eu vou ser pior ainda.

– Não custa a gente tentar.

– Vai, então.

– Tá bom, do início… Bom dia! Bom dia a você que nos acompanha aí da sua casa, do seu trabalho, da sala de aula ou do topo de um prédio num grande centro urbano onde há cobertura 3G de todas as operadoras, meu nome é André Cúnico Volpato e o nosso entrevistado de hoje é o André Cúnico Volpato. André, no semestre passado, você participou de cento e treze horas e trinta minutos de oficinas na Escola de Escrita. Como foi passar por esse intensivo de criação e crítica literárias?

– Bem, André, deixe-me explicar utilizando uma metáfora…

– Eu já escutei o bastante.

– Como assim?

– Você tinha razão, você responde pior.

– Mas você nem escutou a minha metáfora.

– Vamos voltar, você pergunta e eu respondo.

– Era uma metáfora com café.

– Uhm?

– Na Esc. sempre tem café.

– E daí?

– Daí que eu gosto de café.

– …

– Não entendeu?

– Puta merda, André, faz a pergunta pra gente acabar de uma vez.

– Qual foi a sua oficina favorita? E de qual você menos gostou?

– Ficou brabinho?

– Responde.

– Eu quero deixar registrado aqui que gostei de todas as oficinas em igualíssima medida. Agora chega de pergunta-armadilha.

– Então chega de mudar de ideia.

– Como você quiser.

– A pergunta sobre o aprendizado, então.

– O aprimoramento da técnica é uma busca que não termina, André. O que eu posso dizer é que todas as oficinas serviram para ao menos um desses dois objetivos: transformar a leitura num processo ativo e fazer da criação um ato consciente. Ainda não tenho domínio sobre o meu processo criativo, ele passa por altos e baixos de um jeito caótico, quase esquizofrênico, eu diria. Mas aprendi a ser um leitor muito mais atento, e isso significa que tenho uma ferramenta para dar continuidade à busca pela técnica fora do ambiente das oficinas.

– Esse semestre de oficinas foi suficiente, então? Agora você pretende dar continuidade sozinho?

– De maneira nenhuma, vou continuar fazendo as oficinas. Só queria ilustrar a importância da leitura atenta como ferramenta para aprimorar-se. Mas há uma outra coisa essencial no ambiente da oficina, muito difícil de encontrar fora dela, que é o momento de submissão dos textos à crítica. Antes de chegar na Esc., tentei mostrar meus textos para amigos, mas os retornos costumavam ser destrutivos ou elogiosos. Raramente recebia alguma crítica construtiva, e é justamente disso que escritores precisam, principalmente quem está começando.

– Chegamos, então, ao fim da nossa entrevista. Pois é, que pena! Muito obrigado por sua participação, André, e muito obrigado a você que nos acompanhou até o final. Até a próxima.

– É só isso?

– Aham, acabou.

– …

– …

– Metáfora com café. Que ideia bosta.

Com quais cursos e oficinas eu vou?

Russian
Fotografia de Alexander Anufriev, “Russian Abbey Road”

A hora é de tirar o pó e começar a planejar 2016 com a nossa programação de férias e novo período de matrículas

 

2016 já está acontecendo e, para tanto, retornamos às atividades de espírito revigorado, com novos cursos, workshops e oficinas para 2016. Em janeiro, dentro da nossa programação de férias, estamos com as inscrições abertas para o curso de Redação e Edição de Texto. Ele abraça tudo o que envolve o texto e te ajuda a compreender os mecanismos da escrita e a conciliar os papéis de editor, revisor e criador dentro da produção diária de conteúdo.

Também estamos com matrículas para o curso permanente de Aperfeiçoamento Textual, aquele que coloca em um liquidificador todas as referências e leituras que você vai trocar durante o período e serve em pratos que vão do artigo de opinião à crônica, do conto ao texto satírico.

Ainda este mês, temos a primeira edição do Circuito Esc. de inESCritos. De 25 a 27 de janeiro, são três dias de aulas abertas e gratuitas sobre literatura e escrita criativa. Um dos destaques é Luci Collin, que falará sobre Literatura Subversiva. As inscrições podem ser realizadas na página oficial do evento no Facebook.

No começo de fevereiro, é a hora das oficinas de longa duração, como a de Romance, de Cezar Tridapalli, e a oficina de tradução, com Christian Schwartz. A oficina terá convidados como Caetano Waldrigues Galindo, Adriano Scandolara e Guilherme Gontijo Flores. Em fevereiro, Daniel Zanella também reaparece com a segunda temporada do curso de Literatura Paranaense, agora com novas aulas e duração até dezembro.

Nós desenvolvemos uma metodologia para os cursos da Escola, que se dividem em três eixos. O primeiro é o de cursos relacionados ao repertório, espécie de curadoria de leitura. Um texto para ser texto passa, inevitavelmente, por antecedentes criativos. E nesse ato de ingestão e digestão às vezes falta referência ou fonte. Os cursos de repertório fornecem bagagem de leitura e capacidade crítica, auxiliando o aluno a avaliar em que estágio está escrevendo.

Nosso segundo alicerce é o técnico, que se refere à forma e aos recursos estilísticos expressivos utilizados no processo de organização da narração e do processo de composição do texto. É o passo a passo trazido para o campo da labuta. Um exemplo é o curso de Aperfeiçoamento Textual, que busca apresentar os mecanismos da linguagem e também transformar o aluno em um leitor mais exigente.

O terceiro eixo, que não deixa de conversar com os anteriores, é o que trabalha com a marca autoral, o que também chamamos de poesia da escrita. É quando o aluno-escrevente passa a analisar de maneira mais prática a própria produção e alguns traços de sua personalidade artística começam a ficar mais nítidos. Às vezes, isso só é possível com uma certa maturidade em relação ao texto. “São cursos que buscam uma maior imersão e abrangência de conteúdo, com aulas semanais. De modo geral, nós queremos que o aluno saia de nossos cursos e oficinas ciente de que escrever não é um privilégio de poucos ou uma arte inatingível e mais consciente dos processos de linguagem”, afirma Julie Fank, diretora e professora da Escola.

Em 2015, recebemos em nossa casa importantes nomes do cenário literário brasileiro, como o português José Luís Peixoto, Alice Ruiz, Noemi Jaffe, Luís Henrique Pellanda, Rodrigo Rosp, Reginaldo Pujol Filho, Ana Guadalupe, Ricardo Pozzo, Assionara Souza e Flavio Stein. Em dezembro, criamos o dEsconforto, o nosso jornal formado com textos de alunos e professores. O lançamento aconteceu dentro da segunda edição do Terraço Literário, evento que busca misturar diversas manifestações artísticas, de música às artes plásticas, todas gratuitas.

A programação, que prevê inserção de cursos de curta e longa duração até o final de janeiro, está quase completa. Quem quiser saber mais sobre os nossos cursos pode consultar o nosso calendário no site da Escola.

“Um passeio público”, de Cezar Tridapalli

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Aquarela de Christopher St. Leger, em Negroni

 

Em dezembro, lançamos a primeira edição do dEsconforto, nosso periódico feito a partir de textos de alguns alunos e professores que passaram pela Escola. O escritor Cezar Tridapalli, autor de O Beijo de Schiller e Pequena Biografia de Desejos, além de professor da nossa Oficina de Romance, apresentou em “Um passeio público” seu mapa afetivo de Curitiba.

 

Um passeio público

Cezar Tridapalli

 

O roteiro é esse: entram pela primeira vez em nosso apartamento e dizem, vendo a sala sem mobília, que sala enorme. É para pular e dançar melhor, brincamos. Fazem o reconhecimento da nudez da casa, ameaçam levar o corpo para os pufes que, como batatinhas que nascem, se esparramam pelo chão, mas os olhos ainda se detêm: as janelas. O corpo em pé, pendurado pelos olhos, janelões de fora a fora. Que janela enorme. O mundo lá fora é que é, brincamos ainda outra vez.

É em frente a essa janela que faço meu filho dormir, como fiz com minha filha vezes sem conta. Olhamos pela rua de árvores enfileiradas cujas folhas amarelas devem ser medrosas porque, quando nevam, choram umas lágrimas amarelecidas que a vizinhança se apressa em limpar, alguma vergonha alheia, chorar sempre é feio e triste. Dizem que é sujeira, e mangueiras e vassouras fazem trabalho ligeiro, gastando água e escondendo as lágrimas-flores-sujeiras debaixo do tapete esburacado do asfalto, pelas bocas de lobo banguela.

Eu mostro para o menino o que vemos lá fora, em nossa rua que tem nome de poeta parnanguara. Pensando bem ou mal, quem mostra são os olhos dele. Eu apenas repito nomes do que conheço: digo olha o carro, olha lá a árvore, veja: as pessoas. Grudo palavras nos objetos que me aparecem e que talvez só eu veja, os olhinhos dele enxergando sei-lá-quê. No escuro, quando nos afastamos um pouco da janela, nos vemos refletidos no vidro-espelho. Eu também não sei – ignoro tanto – se ele se vê ou continua vendo através do vidro para a caixa d’água iluminada, o alto da XV, linha do nosso horizonte, a nossa Nossa Senhora da Luz por onde senhores e senhoras passam esfregando pneus no asfalto. Aí penso que o mundo fora de nós entra na gente e acaba sendo a gente. E invejo o menino, que vê o que quer, com olhos livres, sem precisar pensar nessas bobagens que me fazem perder a paisagem, colando nomes às coisas, refém de códigos arbitrários.

A paisagem vista, os olhos cansados. Chega de paisagem por hoje, hora de dormir. E ele pousa nos meus dois braços, sua cama. Começo a inventar canções, letra e música saindo no repente, associação livre, a primeira palavra que ganha o ar na voz desafinada fica esperando as outras, mas só se forem rimadas, como se ele dormisse melhor se elas combinassem ter o mesmo som final. Desde minha filha, já inventei muitas canções que se foram, rápidas como vieram. Como disco riscado, minúscula e insistente, uma delas persistiu.

 

E agora?

O mundo lá fora.

Um dia vai embora.

 

O mundo lá fora já tinha ido embora dos olhos do meu filho, que dormia e enxergava só os mundos misturados do sono e do sonho. Mas eu continuei o mantra, a cada repetição uma ave-maria a mais no rosário, novena perplexa.  

Eu pensava no agora e no dia em que o mundo fosse embora, presente e futuro, tempos reunidos pelo espaço. O dia, um dia, iria embora de mim, de nós. Mas o dia não morre, corre atrás da noite para não ser alcançado por ela. Entre o agora e o fim dos dias – dos dias, não dos meus dias – há, calculo, a distância de um infinito e meio.

O tempo se veste de espaço e seria invisível se não usasse estas roupas. É no espaço que a tinta descasca, que aparece a ruga ainda ontem escondida. O corpo é um lugar e dá forma ao tempo. Que transforma e deforma e transtorna, no trocadilho fácil e poderoso.

 

O mapa é a representação de um lugar. Representação é tornar algo de novo presente. Mapa é território atomizado. Se no grão de areia há o universo, no mapa é o território quem habita, encolhido.

Um mapa afetivo é um território que me afeta.

Meu filho já está no berço, deixo pra trás sua respiração pesada. Curitiba e seu molho de chaves a trancarem todos os narizes. Volto para a janela e logo ali na frente, cortando minha rua de poeta parnanguara, vejo um poeta alemão. Encontram-se, cumprimentam-se, e seguem seus caminhos. Fernando Amaro está separado de Schiller por 26 anos e um oceano, mas se encontram na esquina da minha janela. Esse é um encontro do território que me afeta. Mas mapas afetivos são cheios de ruas suspensas, becos sem saída, e entre as calçadas ruins em que tropeço me vejo levantando em outros chãos.

Sou um sujeito de sobrenome italiano esdrúxulo, em que as pessoas tropeçam mais do que nas calçadas. E fui espremido, premido, por alemães. Se Schiller é meu agora, faltou-me falar de passado – o que rima com ontem, para inventar a próxima cantiga? Shhh, o menino dorme. Montem um ontem? Eu monto o meu: meu primeiro mundo, dentro dele abri os olhos pela primeira vez, a inauguração dos meus dias, foi uma vila discreta desta discreta capital. Hoje Vila Hauer virou só Hauer e Curitiba diz que é gente grande. Anda metida, fazendo calor de 33 graus, alinhada aos principais avanços do mundo, como o da temperatura global, por exemplo. Hauer. Hauer e Schiller, meus pêndulos alemães a balançar em mim o ontem e o agora. Ontem, quase anteontem, da janela lateral do meu quarto de dormir eu ouvia a igreja. Santa Rita de Cássia e o sinal de glória: um beijo de quatro minutos e doze segundos embaixo do altar encoberto por toalha branca, sob corpo e sangue humano divino, marcou meu território. Afetou, alfinetou meu mapa de afetos. Hauer da primeira comunhão e do primeiro sexo, também comunhão, também corpo e um pouco de sangue, divino humano.

Sangue rubro, torcedor rubro-negro. Errei o bonde e, em vez de levado aos caminhos da Baixada, saio do Hauer casado para os trilhos do Alto da Glória, de onde, ainda distante, o trem já se fazia ouvir. Rima sem solução: lá, na Mauá: crio meu primeiro mundo de papel, uma pequena biografia dos desejos de outro, eu. Faço da guarita do porteiro fortaleza e, no deserto dos tártaros, esperamos que algo surja, binóculos atentos ao futuro. Quando o desejo vai ao mundo, na primeira Arte&Letra, do Lucca Café, já tinha dado adeus às verdes coxas brancas do Alto da Glória e sua inseparável necessidade de Perpétuo Socorro. Do sétimo andar do poeta de Paranaguá – ele acostumado a interromper o trajeto e esperar o trem passar, réptil barulhento gemendo e se arrastando a duas quadras de casa –, eu já acompanhava seu encontro diário com Schiller, encontro e despedida cada vez que eu olhava a janela.

A rua Schiller me devolve uns pedaços de esperança, que não foi a última a morrer. A cidade é bonita lá. Se eu merecer paraíso depois que meu mundo lá fora um dia for embora, serei modesto: um Mojica da luz dos pinhais: pedirei apenas a rua Schiller. Foi lá que houve um beijo? Perto da pista de skate? Emílio, o Meister, Aprendiz.

 

Sou um Tridapalli, criador de um Desidério e de um Meister. Sou filho de mãe Eurich. Eu e meu Desidério cercados por três alemães, um 3 a 2 pró-deutsch nunca visto entre as duas seleções. Para não virar goleada, não falo do Pe. Germano Meyer, que Fernando Amaro encontra no quarteirão seguinte.

 

*

 

  • Você sabe o que seu nome significa em italiano?

Desidério não estava mais lá.

Nem os livros.

 

*

 

Dessa vez não é o olho que apronta uma travessura. É tua boca, Menino. Mas dizei uma palavra e serei condenado. A voz sai fraca, contudo suficiente para ser ouvida pelos mais próximos. Eles se encarregam de passar a mensagem aos mais distantes: o menino pediu um beijo.

 

*

 

Nem forjou desejo de maestria, nem me tornou mestre do desejo. Curitiba criou em mim duas asas. Mas as asas, ah, mazasasas. Ladeiam corpo de âncora. É voo de galinha, tiros curtos que me cansam, elástico a me puxar de volta para a cidade sempre quando dela me afasto. Âncora dá lastro e afunda, estabiliza e imobiliza. Enterrado no território, afogado nele, vasculho jeitos de ganhar mundos. Minha cabeça de leitor, salpicada entre agora e ontem, Schiller e Hauer, abstraiu Curitiba. E conheceu a Rússia, a França. Portugal, Espanha. Passeou pela América e Japão, Moçambique e Angola. E sempre voltou de lá – curioso: tantos países, tantas pessoas, e os mapas mostravam sempre o mesmo lugar: tudo na Cândido Lopes 133. O planeta mora em Curitiba. A inutilidade de todos os atlas. Mapa-múndi, Google maps, Google Earth, globos iluminados, parem de palmilhar territórios. Basta espetar o alfinete na Cândido Lopes 133, morada do mundo.

 

Aí era sair do mundo e cair em Curitiba. Outra vez. Tropeçar nos mendigos, fugir dos crackentos e pensar neles como fatalidade, da mesma natureza que os fios elétricos amontoados entre os postes, os buracos com uma ou duas calçadas no meio, o grito silencioso entalhado a canivete nos vidros dos ônibus, a roda da SUV entalada a subir sem focinheira no meio-fio e morder o carrinho do bebê, os condomínios virando as costas para a cidade, a arquitetura salve-se-quem-puder-quem-fizer-a-coisa-mais-feia-ganha.

E o mundo agora um dia foi lá fora.

 

O menino dorme.

 

Do Italo Calvino, com suAs cidades invisíveis:

 

A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata.

 

O olhar percorre as ruas como se fossem páginas escritas.

 

Essa é minha Curitiba, sempre imaginária, tanto quanto pode ser uma voltinha no “metrô curitibano, que, dessa vez, vai sair. Agora vai, ah, vai” (fala de uma autoridade qualquer, em qualquer ano de 1693 para cá).

 

Esse é meu passeio livre, meu passeio íntimo, meu passeio público.

 

A cidade é tão linda

na hora do blecaute.

Um nocaute técnico,

Épico onde não existem heróis:

só eu, só tu, só nós.

 

Os 9 Melhores Livros de 2015

Parte da equipe da Escola de escrita ficou responsável por fazer três pequenas listas para definir afetivamente os melhores títulos de 2015. Confira:

MILENA VICINTIN

Walter

A desumanização | Valter Hugo Mãe | Cosac Naify

Fiquei absolutamente encantada com a linguagem, o cuidado estético e a delicadeza de Valter Hugo Mãe ao escrever e compor as suas metáforas e poemas visuais. O frio, a paisagem hostil e a mitologia nórdica se mesclam à dureza da trama, que, sob contraste, é narrada de forma leve e sensível pela “gêmea menos morta”. A desumanização é um livro bem afetivo e muito gostoso de ler.

 

 

Fernanda

Fim | Fernanda Torres | Companhia das Letras

Fim, definitivamente, é um bom começo literário para Fernanda Torres. Bem-humorado, irônico, sarcástico, cínico e ácido, o livro conta a história do fim de cinco amigos. Com diferentes vozes e olhares, os personagens narram suas histórias com a malemolência carioca e o estilo de vida típico do malandro. A leitura é bem rápida e fluida.

 

 

 

Luci

Nossa Senhora Daqui | Luci Colin | Arte & Letra

Primeiro livro da Luci que eu li, mesmo eu e ela sendo d’Aqui, o que é bem importante, afinal, “ninguém de Lá entende muito bem como é Aqui. Mas a gente sim”. Brincando com a memória, os hábitos nossos de cada dia, os parentes imigrantes e os jogos de linguagem e de narração, a obra é bem inusitada e divertida. Uma boa dica de leitura, mesmo pra quem não é d’Aqui.

 

 

 

 

 

 

DANIEL ZANELLA

Corpo de Festim

Corpo de Festim Alexandre Guarnieri Confraria do Vento

O segundo livro de Alexandre Guarnieri alcança novas latitudes ao ler o corpo como estrutura poética formadora do tempo e estabelecer, a partir disso, sequências rítmicas originais. Corpo de Festim impressiona pela profusão de imagens e pelo domínio narrativo do escritor carioca, capaz de acontecimentos semânticos como “o útero é a antessala líquida do mundo”.

 

 

Morreste-me

Morreste-me José Luís Peixoto Dublinense

Pequeno tratado sobre a perda da figura paterna, Morreste-me, do português José Luís Peixoto, é um acerto de contas afetivo capaz de desmoronar os leitores mais desavisados – quando a literatura é uma experiência de partilha dolorosa e de tradução do sofrimento.

 

 

 

O Esculpidor de Nuvens

O esculpidor de nuvens Otavio Linhares Encrenca

O curitibano Otavio Linhares conseguiu em O esculpidor de nuvens dar uma nova roupagem ao território das memórias da infância. É uma prosa que alterna momentos de lirismo com passeios pelos lados mais obscuros da natureza humana. Um livro que confirma Linhares como um dos mais interessantes autores paranaenses contemporâneos.

 

 

 

 

 

 

JULIE FANK

Jeito de matar lagartas_ACV

Jeito de matar lagartas | Antonio Carlos Viana | Companhia das Letras

Neste livro de contos que atam a velhice e a infância à solidão, Antonio Carlos Viana não deixa sobrar palavras. As personagens presas ao texto e ao leitor por um fio são esticadas ao limite de seus dramas até atravessarem a página num sobressalto – ou porque foram arrumar a casa, ou porque voltaram a pintar, ou porque paralisadas diante da morte. O autor sabe a hora exata de cortar o elástico, mas sempre deixa um pedaço com a gente.

 

 

 

Jóquei_MC
Jóquei | Matilde Campilho | Editora 34/Tinta-da-china

Matilde Campilho é uma das autoras novas para se prestar atenção. Ela passeia pelos poetas que a influenciaram, pelas calçadas do Rio e pelo Atlântico a bordo da vida como se estivesse indo comprar pão na padaria, “suas mãos desenhando a dança do oxigênio daquele julho e o pó se levantando desde os calcanhares”, “sempre usando o verão”. A argamassa que constrói Jóquei é preparada com as cores escorregadias do exílio e da cidade, das cidades. É para ler recitando, cantando e respirando como quem está prestes a arrumar as malas.

 

 

 

Galveias_JLP
Galveias | José Luís Peixoto |Companhia das Letras/Quetzal Editores

Se, em Morreste-me, Peixoto se aproxima do coração, em Galveias, ele dá nome às coisas, às pessoas e ao lugar que está próximo de sua pele e que o constituem como português dos arredores do Alentejo. Uma costura autoficcional das pontas rurais e memorialísticas que unem o autor à portugalidade que ele quer resgatar.