O corcunda vai à academia

Corcunda de Notre-Dame

Do grotesco e do sublime, de Victor Hugo, é uma descida entusiasmada às profundezas do fazer literário

 

Uma anedota impiedosa do cantor francês Serge Gainsbourg, com evidentes ares autobiográficos, é de tempos em tempos ressuscitada nessa relação entre o belo e o feio: “A grande vantagem da fealdade em relação à beleza é que a fealdade nunca acaba”. E é nessa atmosfera de investigar juízos de valor estético, com alguma graça, que Do Grotesco e do Sublime se situa, o antológico autoprefácio (sim, autoprefácio) de Victor Hugo para Cromwell, de 1827. “O belo só tem um tipo. O feio mil.”. Eis um escritor que não tinha problemas com a própria confiança.

Victor Hugo é um dos grandes nomes do romantismo europeu. Portanto, podemos intuir que o autor de Os Miseráveis e Os Trabalhadores do Mar não era de economizar ao narrar. Altamente produtivo, desses que gastavam tinta sem dó, era muitas vezes um verborrágico sem piedade e dotado de um espírito fundamental para a natureza da literatura: entusiasmo, muito entusiasmo.

Não tinha como ser diferente na crítica literária, terreno em que o francês também escrevia com todas as energias possíveis, sob o farol da pressa e da ansiedade de abarcar o mundo – seu texto não descansava. Contudo, era potente como uma usina, ou como ele mesmo dizia: “Eu sou uma força que avança!”, com exclamação e tudo.

Em Do Grotesco e do Sublime, a busca por unidade e expansão é translúcida, do percurso histórico às suas impressões pessoais sobre seu tempo. A poesia surge como um convite ao novo, em oposição às repetições do passado. Contudo, Victor Hugo evidencia a diferença entre tradição literária e continuísmo de velhas fórmulas. A base teórica se solidifica em três eixos: A Bíblia Sagrada, Homero e Shakespeare. Para o escritor francês, toda a base narrativa ocidental surge disso, paga tributo, mesmo que inconscientemente.

De fato, Victor Hugo produziu, pasmem, aos 25 anos, um valioso tratado sobre a arte e as entranhas literárias. E a condução desse processo é espantosa: “A sociedade, com efeito, começa por cantar o que sonha, depois conta o que faz, e enfim se põe a pintar o que pensa”.

A cada página vemos o pensador encontrando o romancista, num ótimo jogo de palavras. “O gênio, que adivinha antes de aprender, extrai, para cada obra, as primeiras da ordem geral, as segundas do conjunto isolado do assunto que trata. Não à maneira do químico que acende seu fogareiro, sopra seu fogo, esquenta seu cadinho, analisa e destrói”.

Importam aqui as especulações de como a literatura está sempre tensionando a linguagem, ao mesmo tempo em que se alimenta de tudo o que é humano, contraditório, num lance de espelhos que se utiliza tanto da claridade, quanto da escuridão. “O sublime sobre o sublime dificilmente produz um contraste, e tem-se a necessidade de descansar de tudo, até do belo. Parece ao contrário, que o grotesco é um tempo de parada, um termo de comparação, um ponto de partida, de onde nos elevamos para o belo com uma percepção mais fresca e mais excitada.”

Do Grotesco e do Sublime é o manifesto de um jovem em efervescência – “Destruamos as teorias, as poéticas e os sistemas”. Victor Hugo apresenta a literatura não como uma máquina de escrever corretamente ou reprodução de antigos modelos. Mas também como ferramenta de expansão, sem esquecer, nunca, de explorar o que o passado tem de permanente. Dali, se parte em busca do novo.

 

Estante

Do Grotesco e do Sublime

Victor Hugo

Editora Perspectiva, 101 páginas

www.editoraperspectiva.com.br

 

Escape para a leitura

“A arte folheia os séculos, folheia a natureza, interroga as crônicas, aplica-se em reproduzir a realidade dos fatos, sobretudo a dos costumes e dos caracteres, bem menos legada à dúvida e à contradição que os fatos, restaura o que os analistas truncaram, harmoniza o que eles desemparelharam, adivinha suas omissões e as repara, preenche suas lacunas por imaginações que tenham a cor do tempo, agrupa o que deixaram esparso, restabelece o jogo dos fios da providência sob as marionetes humanas, reveste o todo com uma forma ao mesmo tempo poética e natural, e lhe dá esta vida de verdade e de graça que gera a ilusão, este prestígio de realidade que apaixona o espectador, e primeiro o poeta, pois o poeta é de boa fé. Assim, a finalidade da arte é quase divina: ressuscitar, se trata da história; criar, se trata da poesia.” (p. 69)

Bebeste, Kafka?

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Coisa boa e natural.

Olá, amigos alcoolemistas & amigas abstêmias, não necessariamente nessa ordem de gênero, rum e literatura erótica de panfletinho subversivo – mal sabem vocês de minhas preferências, mal sabem…
Eu nunca contei por motivo de: preguiça, mas hoje a coisa vai. Já andei monstrão e trincado por diversos buracos das tavernas tchecas. (Escrevi um livro sem muita pretensão, Notas do Subterrâneo, mas acabei perdendo o manuscrito.) Gente, tenho mais rodagem nessa vida do que vocês têm de quilometragem em stalkeamento direcionado no Facebook. (Mas eu prefiro o Grinder.) Saibam que um bar em Praga é tão miserável quanto uma solidão na Rua Augusta – aliás, quem conhece o Las Jegas? Ninguém? Quem já foi pra SP atrás de um grande amor e apenas encontrou os rochedos da desilusão? No more I love you’s.
Há escritores que bebem para escrever, firmar o pulso, esquentar as cordas vocais – e se escreve, sim, com a voz. Mas, minha gente… Há escritor que bebe porque há um bar inteiro para se beber. Bebe! Bebe! Bebe! Os garrafões-com-perna, Os boca-de-litro. Os copo-sem-fundo. Ó, saibam que não tem coisa pior nessa vida do que a gente chegar em sã consciência num boteco e perceber que tá todo mundo jajengo. Sim, jajengo, estragado, mais envergado que as parabólicas de espinha de peixe. Parabolicamará. É o que dizem. Não vejo motivo em ficar são e resoluto.
Franz Kafka era um desses escritores bêbados. Ou nem. Mais emocionalmente quebrado do que bêbado. Quebradaço. Não. Estilhaçado. O tour de force – também falo francês porque sensual – não era bolinho. Pai dominador e comerciante. Fisicamente franzino e paranóico. Empregos medíocres. Diploma de advogado. Hipocondríaco. Solução ad eternum? Óbvia, ao menos é o que dizem: bordéis, garçonetes & balconistas, bares e bares sem fim, uns relacionamentos extraconjugais aqui e ali, talvez até tenha sido pai. Kafka, se estivesse entre nós, certamente escreveria na sua timeline se sentindo em dúvida entre comer mariscos, estudar hebraico através do skype ou se matar lentamente num show da minha banda preferida como gesto redentor.
Ele se queixava de tudo o que se podia imaginar, de reumatismo a furúnculo. Principalmente de seu corpitcho, que não era lá um shape muito alucinante mesmo. Contra a síndrome da magrelice, fazia levantamento de peso todo dia e era adepto de umas dietas que vou te contar – em uma delas, mastigava todo e qualquer alimento 45 vezes. Também era vegetariano, veja só, apesar de ter até açougueiro na família.
Escreveu A Metamorfose. Escreveu O Processo.
O que vamos dizer?
E a gente que não sabe nem escrever mensagem no celular ou roer livros com a técnica que melhor concilie conteúdo, nutrição e amor por espaços escuros?
Até!

A brevidade dos amores de domingo

vazante

Vazante, de Luís Henrique Pellanda, conquista, entre mar e terra, por seu recorte da natureza finita do amor

Um poema-monumento de Jamil Snege chamado “Para se matar um grande amor” define com uma precisão assustadora o espírito volúvel dos amores e afetos: “Arrisco mesmo a dizer: só os amores verdadeiros se acabam./ Os que sobrevivem, incrustados no hábito de se amar,/ podem durar uma vida inteira e podem até ser chamados/ de amor, mas nunca foram ou serão um amor verdadeiro./ Falta-lhes exatamente o dom da finitude, abrupta e intempestiva.”

Em Vazante, Luís Henrique Pellanda realiza um intenso mergulho ao covil do primeiro dia de um casal de amantes, embrenhados numa casa de praia em um domingo sem localização exata no tempo – dois universos abruptamente em convergência, aparentemente sem maiores expectativas, “aos domingos os telejornais não querem nos explicar nada”.

O contista-mais-cronista de Curitiba promove um interessante painel da impossibilidade do amor quando imerso na velocidade. No percurso, a narrativa é toda circundada por sutilezas e vulgaridades habituais dos começos: “Os estômagos cheios de macarrão e salsicha, as bocas lavadas com pasta dental vencida, os cabelos de novo cheirosos”.

Ao não buscar maiores inovações de linguagem, seguindo por um caminho retilíneo, Pellanda oferece uma outra dinâmica (muito importante) do prazer literário: o percurso da memória. Vazante opera como uma viagem íntima, carregada de frustrações, corpos que se afastam repentinamente e possivelmente nunca mais se encontrarão. As agruras dos amores que se abortam ao meio.

Os desentendimentos que surgem na divisão das pequenas coisas, as vontades que se anulam e separam pouco a pouco, contam-nos, de um modo universal, o amor como um barco que talvez nunca ancore – a imagem dos animais mortos na praia surge, então, como uma espécie de jogo sobre os nossos baús de ossos afetivos.

A obra estabelece seu eixo narrativo entre a melancolia inevitável do fim e as hipóteses sentimentais que criamos para o que dá errado. O amor é o porto em que mal pisamos e precisamos partir, pois é preciso, é necessário, seguir em frente.

 

Estante                

Vazante (2015)

Luís Henrique Pellanda

Arte & Letra, 35 páginas, edição limitada

www.arteeletra.com.br

 

Inscrições para a oficina de crônica de Luís Henrique Pellanda, aqui.  

 

Escape para a leitura

“Ou seja: todas aquelas mortes anônimas, que em sua insignificância representavam a morte como entidade democrática, como lembrança incômoda, a morte niveladora de destinos, de certa forma maculavam nosso domingo de sexo. A vida, porém, exige renovação constante e uma dose mínima de alegria, e um dia entre os vivos nunca estará de todo perdido. Assim, quando ainda nus e molhados nos atiramos aos beijos e pela segunda vez à cama, e revimos de relance, da janela do primeiro anda, os corpos lá longe, na areia, e os cães que latindo espantavam dali as aves carniceiras, simplesmente fechamos os olhos.” (p.16-17)

 

Um fractal, mariposas e gavetas, todos infinitos

Cortazar

“O tempo é um gris compadrito

fumando ali sem fazer nada.”

Julio Cortázar

O caminho mais sensato para percorrer uma biblioteca, ainda que ela seja infinita como a de Borges e duplicável por meio de um espelho, é começar do começo, percorrendo, por inquérito, palavra a palavra, e seguindo o fio de Teseu (ou de Ariadne), em busca de uma saída. Cortázar não tem saída – ele é o próprio jogo da amarelinha cujas casas dos números são desmontáveis e organizáveis ao prazer do leitor. Por que jogar a pedra no número um, seguir na contagem e esperar chegar ao fim do jogo para jogar a pedra ao céu? A biblioteca de babel, fosse escrita por Cortázar, não teria escadas espirais – seria a concretização das escadas de Escher. Nele, temos um fractal, uma infinitude, gavetas e mais gavetas de uma vida que ainda desperta fascínio.

O dia de nascimento e o dia de morte são, por certo, obscuros do ponto de vista documental. Se não se sabe que dia exato nasceu Julio Florencio Cortázar, se em 24 ou 26 de agosto de 1914, sabe-se que a morte aconteceu no dia 12 de fevereiro de 1984, em Paris, decorrência de uma leucemia e uma série de transtornos dela decorrentes. No mesmo dia, em Buenos Aires, cidade com a qual tinha uma relação paradoxal de pertencimento e estranhamento, um enxame de Mariposas invadiu o centro da cidade. O fenômeno, que até hoje não se repetiu na capital argentina, aconteceu por conta de uma onda de calor proveniente de uma zona rural – as espécimes migraram até o centro portenho e acompanhavam quem lia jornais em constantes metamorfoses em bancos de praça, cafés e metrôs. Do outro lado do mundo, a agenda informava: morria Julio Cortázar, na Paris que o nomeou cidadão honorário. Na literatura, um cronópio a menos. O fenômeno nunca mais aconteceu.

O escritor ainda se recuperava do luto pela morte de Carol Dunlop, sua segunda esposa, quando resolveu se dedicar integralmente à causa sandinista. Os dois haviam voltado de uma expedição Paris-Marselha, cujo relato foi um dos últimos trabalhos a que se dedicou Cortázar, publicado sob o título de Os aeronautas da cosmopista. Seu último ano completo de vida também foi o ano da publicação do livro de poemas Salvo el Crespúsculo e de uma viagem fora dos planos a Buenos Aires, quando aproveitou para ver a irmã e a mãe e visitar um país que dava os primeiros passos fora da ditadura, causa pela qual sempre lutou. Foi no internamento compulsório no Hospital Saint-Lazare, próximo ao apartamento em que vivia com Carol, que tomou as últimas providências para o que deixava em vida. Aurora Bernárdez, primeira mulher e tradutora com quem viveu durante anos, foi nomeada sua herdeira e curadora da obra completa do autor. Também Aurora ocupou o apartamento de número 4 da rua Martel. Lá, estaria Cortázar por inteiro, escrito, escritor, fotografado e fotógrafo, disponível à posteridade.

Por muitos anos, este foi o espaço em que se encontraram Carles Garriga, tradutor oficial de Cortázar e Aurora Bernárdez. Na antevéspera do natal de 2006, Aurora disse que tinha “uns papeizinhos” nos quais, quem sabe, Carles gostaria de dar uma olhada. Carles conta que desceram o primeiro andar da casa comprida e estreita que já recebeu a visita de Vargas Llosa, entre outros escritores. Aurora foi até uma cômoda em cujo topo repousava uma fotografia de Alejandra Pizarnik sorrindo com uma malícia muito adequada ao momento e abriu com esforço uma gaveta que estava tão barriguda que resistia à abertura. Ela tirou um punhado de folhas de vários tamanhos e cores, perguntando se ele já o tinha lido alguma vez. Dali, foram para a mesa em que foi escrito O jogo da amarelinha e iniciaram a garimpagem.

A cena presenciada pelo retrato da poetisa argentina foi mesmo digna de um sorriso malicioso – ou melhor, um sorriso que previa que algo estava para acontecer. A gaveta de Cortázar arrancou do marasmo Aurora e Carles: “De madrugada o chão estava todo empapelado de textos nunca publicados em livro. Como era possível que esse tesouro não estivesse ordenado, classificado, inventariado, microfilmado?”, comentou Carles sobre a seleção publicada posteriormente. Ali nasceram Papeles Inesperados (2009) – título original na Argentina, traduzido fielmente como Papéis Inesperados e publicado dois anos depois no Brasil. Nascia mais um Cortázar, com o perdão da metonímia. Um Cortázar fragmentado, disperso, detalhado, mosaico, fractal, caleidoscópico, duplo, triplo, múltiplo, multifacetado. Era como se a chave do galpão tivesse sido encontrada e os móveis antigos pudessem ser colocados no lugar novamente – para integrar a casa da qual sempre fizeram parte. Os móveis herdados haviam sido incorporados imprevisivelmente (?) à obra agora completa (?) do cronópio.

As mesmas gavetas que escondiam um tanto considerável de textos não escolhidos pareciam ter fundo duplo, imagem muito presente na obra do escritor latino-americano que escolheu outro país para olhar a América Latina. O duplo, Paris e Buenos Aires, o metrô e a superfície, o escritor e o crítico, oscilavam entre a analogia ao mundo da luta e do boxe que permeia toda a obra cortazariana explicada pela paixão que sentia pela modalidade, uma maneira de solapar o mundo feminino em que vivia, entre a mãe e duas irmãs desde o abandono do pai. Outra analogia muito presente na obra escondia um elo com a sua vida, o da fotografia, que conserva o status de escape artístico junto com a literatura, numa infância sem muitos amigos ou um pai. Poucos, aliás, são os que conseguem caminhar no escuro sem a ajuda de estrelas, luzes ou lampiões. Além de cronópios, escritores e viajantes fascinados por túneis, certamente todos pertencentes ao mesmo grupo, é justamente o ofício dos fotógrafos que compartilha do fascínio pelo escuro. Em “Janelas para o insólito” (1978), Cortázar, que confessa ter tentado o ofício na juventude, reflete sobre o incomum e o seu lugar nas fotografias reveladas – o que adianta suas impressões sobre a foto – um gênero visual que teve um espaço de destaque em duas de suas publicações mais provocativas visualmente: Último Round e A volta ao dia em oitenta mundos.

Nas décadas de 40 e 50, já compartilhava da escritura-invenção de Butor e devolveu ao mundo um emaranhado de textos críticos com pouca pretensão à verdade, com um malabarismo verbal que se sustentava em pé a muitas vozes e ia se tecendo a muitas mãos, as mãos dos escritores que escreveram o crítico-escritor, o escritor-crítico e o escritor-inventor que se tornou o leitor Cortázar. Em meio à ditadura que predominava em grande parte dos países latino-americanos, o escritor-intelectual Julio Cortázar saiu da Argentina. Foi em 1951, por conta própria, e voltou com frequência ao país de origem. Só em 1974 se viu obrigado a considerar-se exilado, quando, na ocasião de publicação de um livro de contos, a Junta Militar Argentina proibiu a edição argentina, com a condição de supressão de dois relatos considerados lesivos – um acerca da desaparição de pessoas no território argentino, outro acerca da destruição da comunidade cristã do poeta nicaraguense Ernesto Cardenal na ilha de Solentiname. Quase num “jogo do contente” em resposta à censura, Cortázar apostou na positividade de seu segundo exílio, como de fato a atitude de isolamento se tornou para grande parte dos frutíferos escritores instalados na França, um aspecto positivo na sua escrita.

Por ter sido ponto de encontro de grandes escritores no século XIX, os cafés franceses seriam, com um leve adendo ao que Vargas Llosa dizia, a capital latino-americana na Europa – um espaço intelectual para intelectuais e com um magnetismo transfigurado num diploma, de acordo com Cortázar, muito mais valioso que o acadêmico. Cortázar revelou que os anos que viveu na Europa foram marcados por uma significativa plasticidade, por descobertas que, à medida que os anos foram passando, foram sendo assimiladas. Era o anonimato que o atraía. O magnetismo cultural exercido por Londres e Paris resultou numa guerra fria entre os intelectuais que viviam na Europa e os que viviam na América Latina, visto que todos tinham o mesmo objeto de análise: o próprio continente. Muitas foram as razões que “prenderam” dezenas de escritores na Argentina, no Brasil ou em quaisquer outros países do continente, o que, na opinião de Julio Cortázar, não prejudicou o intercâmbio de conhecimento e muito menos diminuiu o abandono de uma atitude colonial frente ao continente europeu.

No mesmo ano em que obtém a nacionalidade francesa, alguns anos antes de sua morte, despertou nos nacionalistas argentinos mais ferrenhos certa atitude de desgosto. A grande estatura física pela qual era conhecido – Sara Facio, sua fotógrafa oficial descreveu-o pela primeira vez como alguém alto, alto, alto – era também um simulacro do sucesso e grandiosidade a que sua literatura tinha ascendido após o grande boom de O Jogo da Amarelinha – e sintetizou entre passagens secretas, duplos e pontes, a relação do escritor com a cidade que recebeu o enxame de mariposas em 84. Para ele, as mariposas não poderiam não ter aparecido para a festa. O poeta Cortázar, esse cronópio sonhador, mesmo morto, ainda é o monstro carregando o adulto dentro da criança, não encaixável nas circunstâncias políticas – quaisquer que sejam. Ele, que completaria 101 anos, viveu os frágeis limites entre o sentimento de não estar filiado e cumprir um papel. Cortázar é a gaveta de fundo duplo, talvez infinita, de que não para de sair papéis, mas não comporta divisórias.

Os perigos e as delícias da autopublicação

mercadoeditorial

Fenômeno da autopublicação é reflexo antigo e transparece dilemas na relação entre autor, leitor e mercado editorial

 

Da geração de escritores paranaenses renovadores da linguagem, Jamil Snege (1939-2003) talvez tenha sido o autor com o sistema de distribuição mais anárquico: seus onze livros foram impressos por ele mesmo ou vinculados a editoras locais de amplitude restrita de mercado. Não se sabe ao certo se o padrão foi estabelecido por motivações estratégicas – Snege era um exímio publicitário – ou por falta de gerenciamento da própria obra, já que ele não escondia de ninguém o interesse em viver somente de literatura. O que podemos averiguar: ele foi um dos mais inventivos autores brasileiros do século 20 e segue lido em determinados círculos.

Dotado de muita intensidade e capacidade criativa, Snege tornou-se uma bússola moral para inúmeros autores, de Joca Reiners Terron a Hilda Hilst, e um exemplo de como o caminho da autopublicação e da independência editorial é possível e acidentado. Seus livros, por exemplo, estão esgotados há mais de década, muito em função do desacordo familiar na reedição de sua obra, o que certamente prejudica um maior alcance de seu legado. E não há maiores novidades ao longe.

O percurso do Turco, como era chamado por amigos e familiares, aponta para um interessante viés histórico na geralmente conturbada relação entre escritores e o mercado editorial. De fato, o acesso à autopublicação existe desde que o mundo é mundo (mentira: desde Gutenberg) e sempre foi uma saída comum, principalmente em períodos de escassez ou falta de estrutura logística – a maior parte dos autores brasileiros do século 19 recorreu a editoras estrangeiras para levar seus livros ao prelo.

A invenção da prensa tipográfica em idos do século 15 trouxe uma nova dinâmica na produção e distribuição de conteúdo, dando início à Europa Moderna e enterrando o monopólio da informação da Idade Média – mais pessoas passam a conhecer textos reservados e sagrados. Contudo, desde lá temos uma firme dicotomia. Se por um lado, o conhecimento se espalha e quebra a unidade religiosa, o desabrochar das publicações no Ocidente é marcado por muito amadorismo e uma tendência perniciosa ao superlativo, com a proliferação de jornais extremamente tortos e folhetins incrivelmente ruins – o que pode ser bom também, se considerarmos o efeito do humor involuntário.

Hoje, a autopublicação abocanha cada vez mais adeptos por conta da incrível multiplicidade de ferramentas e do funil do mercado editorial de maior abrangência. De sistemas de publicação personalizada, livro a livro, às práticas de crowndfunding, o autor contemporâneo pode se valer tranquilamente de sua crença na validade da própria escrita – algo sempre perigoso – ou fazer uso das forças de algum editor-crítico de confiança antes de publicar, o que evitaria o erro comum de trazer à tona algo que mais afeta sua credibilidade do que o fortaleça.

A proliferação de blogs, sites e coletivos de literatura facilitou o contato direto com os leitores, a circulação de conteúdo gratuito e a ascensão de antologias & coletâneas. Esse panorama impele cada vez mais gente à materialidade ou ao e-book, mesmo os números do mercado virtual ainda tão incipientes – o sucesso de cinco ou seis best-sellers ainda não faz da indústria do livro digital uma prioridade das editoras.

A efervescência produtiva também aumentou o circuito de pequenas editoras especializadas em nichos de mercado, como a Editora Patuá, de São Paulo, com forte presença no ramo da poesia dita contemporânea. Com tiragens enxutas, os selos menores apostam no capital simbólico do autor e em sua capacidade de mobilizar seu networking em prol do livro, gerando um buzz restrito, porém fiel.

Entretanto, como no velho adágio de Tomasi di Lampedusa, muita coisa muda para continuar igual. Sair por uma major continua auxiliando no processo de propagação-introjeção de um autor, embora muitos reclamem do trabalho ostensivo & efêmero realizado pelas grandes editoras. O pequeno selo até pode distribuir mais carinho, mas também é capaz de fazer de um lançamento uma rápida descida ao anonimato, ainda mais se for apenas uma editora-gráfica. E a distribuição infelizmente obedece às restrições das livrarias, sempre mais amistosas com grifes de projeção nacional. Publicar-se como um self-made-man pode ser uma curiosa turnê afetiva-libertária-onerosa-desgastante: um livro é um processo coletivo, da diagramação à estante.

Não deixa de ser animador reconhecer as amplas possibilidades editoriais. Buscar entendê-las nas entranhas pode auxiliar no processo de entendimento do próprio trabalho, além de curar-se do pecado das expectativas elevadas num cenário macro de problemas crônicos na formação de leitores – talvez até existam mais escritores do que leitores. Também convém nunca desconsiderar a função de editores experientes, mais focados na publicação de boas narrativas do que na solidificação de mais um livro pra contabilidade desse universo já tão densamente povoado de sub-histórias.

 

 

A (não) coroação de pERNETa

Chapéu do Harry Potter

Um chapéu que gosto muito, destinado aos heróis

Louros & glória.

O amor nos tempos dos simbolistas.

Eu, que adoro um meio-fio e tenho mais décadas de vida do que de sonhos, nunca perco um lançamento de livro em praça pública.

Ah, Emiliano Perneta, poeta-advogado, nosso simbolista-mor, que delícia não seria vê-lo por aqui, em dias de Facebook & Tinder. Você pleitearia a FLIP? Criticaria Joyce? Sua timeline, sua timeline: como seria? Seria sexy, sem ser vulgar? Duro, porém terno? O vampiro chamava-lhe Emiliano, o Poeta Perneta, embebido do veneno da noite – quando o vampiro ainda não sucumbia à luz, editava revista literária, chamava para beber no ringue.

Em verdade vos digo: Pernetta. Príncipe dos poetas paranaenses, bardo, nosso __________________ (coloque o adjetivo de sua preferência.): 20 de agosto de 1911, a histórica coroação no Passeio Público, nosso zoológico de braços abertos feito um cartão postal, toda a urbe intelectual da província reunida. Tínhamos logo ali um engenho poético, tínhamos até fotografias, chineques, dois cachorros sem nome, um único torcedor do Paraná Clube, um personagem de Borges.

Até aqueles dias, meus caros, Curitiba era pasto. Nevermore! [Maldosinho, Trevisan dizia, aos 21 anos, que a poesia de Perneta era rasa como capim. Poxa.] A memorabilia: a tiragem de 400 exemplares se esgotou em dois dias. E teve até livro de ouro numa caixa de madeira do Paraná com folhas de louro dentro. Perneta, el cerimonioso. A DÚBIDA que persiste e assola os historiadores: Perneta, colocou ou não colocou os louros na cabeça? Em verdade vos digo: colocou! Estive lá. Colocou e ainda disse: “Lírios das espáduas nuas, Curitiba, ó sábia pecadora, sua linda.”

Preciso ir, ver minha mãezinha bêbada. Somos em treze. Mas não desistimos. Tudo nosso, nada deles.

Leitura para comer ad eternum: Uma modesta proposta para prevenir que, na Irlanda, as crianças dos pobres sejam um fardo para os pais ou para o país, e para as tornar benéficas para a República, de Jonathan Swift.

Até a próxima!

Arte Contemporânea, com José Carlos Fernandes

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Desde a Antiguidade, a literatura tem fortes ligações com as artes visuais, numa relação permanente de correlação e diálogo. Se um escritor é, antes de tudo, um leitor do mundo, não deixa de ser razoável especular que boa parte de sua produção também seja um reflexo de suas influências artísticas – toda palavra ecoa um passado de códigos e imagens. É famosa a citação de Simonides de Cós, via Horácio, de que “a pintura é poesia muda e a pintura é poesia falante”.

Nessa combinação de vozes, alcances e estilos, as ramificações artísticas estão para o autor como o pulmão está para o corpo, sanguíneo, inerente. Dentro desse ciclo de significados, José Carlos Fernandes, jornalista curitibano graduado em Belas Artes, é dos que melhor traduzem essas margens de influência, tanto em suas crônicas para a Gazeta do Povo, onde perfila as diversidades da metrópole, quanto em suas atividades como professor universitário, pesquisador e crítico de arte.

Filho de um casal de imigrantes portugueses, Zeca, como é mais conhecido nas redações e universidades, é um dos mais importantes coeficientes intelectuais da capital. Sua visão singular de humanidades possibilita uma avaliação profunda de como a arte e a escrita caminham juntas, polivalentes.

O curso explorará os diversos conceitos de arte ao longo do século 20, sem reduzi-la a meros passos cronológicos. A proposta, além de repertório, é oferecer uma interpretação mais aguçada dos elementos que envolvem desde a montagem de uma exposição às discussões sobre beleza e cânone. A análise de clássicos, como Caravaggio e Michelangelo, e de trabalhos pop de artistas contemporâneos, como Nuno Ramos e Vik Muniz, permitirá um recorte mais abrangente das conexões entre literatura e artes visuais.

Inscrições para o curso, aqui:

Um percurso de silêncios e afetos

José Luiz Peixoto no Litercultura

Morreste-me, de José Luís Peixoto, constrói um pequeno tratado sobre a perda do pai – e a literatura como luz

 

Há um bom tempo, José Luís Peixoto integra com firmeza o rol de autores fundamentais no entendimento da dita literatura de língua portuguesa contemporânea. Ao lado de nomes como Valter Hugo Mãe, Gonçalo Tavares e Mia Couto, ele está solidificando uma significante carreira internacional, escorada por diversos prêmios, e vem, gradativamente, se estabelecendo no Brasil – sua vinda a Curitiba em 9 de maio, numa parceria entre a Escola da Escrita e o Litercultura, em encontro mediado por Manuel da Costa Pinto, comprovou a força dos novos portugueses e o potencial de assimilação do mercado local.

Na safra de títulos trazidos à capital, Morreste-me, publicado por aqui pela Editora Dublinense, é o primeiro livro do português de Galveias, previsto para ser lançado no Brasil no segundo semestre. Escrito em 1996, quando o autor tinha apenas 21 anos e lançado em Portugal em 2000, a obra trouxe notoriedade a Peixoto, sobretudo por apresentar velhas (e importantes) questões do universo literário e sua rede de potencialidades.

Em tempos de exaustão da expressão autoficção – como se algum narrador na história tivesse sido confiável e não bagunçasse as fronteiras do real, das guerras de Homero ao pipoqueiro do teatro comentando a noite de trabalho –, o livro de menos de setenta páginas relata, sem concessões, o processo de luto após a perda de um ente querido.

Da morte literal do pai, Peixoto realiza uma exemplar didática do afeto: quando a literatura é caminho para a ressignificação das experiências de tudo o que é humano. “Parto de ti, viajo nos teus caminhos, corro e perco-me e desencontro-me no enredo de ti, nasço, morro, parto de ti, viajo no escuro que deixaste e chego, chego finalmente a ti. Pai. Ao lado desta manhã, a outra vez. A primeira noite que não viste.”

A obra apresenta, de modo poético, um percurso sobre o vazio amoroso – a realização disso é como um encontro fortuito entre a poeta Sophia de Melo Breyner Andresen e um Carlos Drummond de Andrade cronista. “No reflexo, encontrei-te, vi-te passar a mão rapidamente pelo cabelo e alisar a roupa no corpo e acertar o colarinho da camisa”. Aliás, o potencial lírico quase impele a uma leitura em voz alta, principalmente por conta do efeito da potente sintaxe lusitana.

Um dos méritos de Peixoto é reverter a morte do pai e lhe conferir presencialidade, como se a cada linha pudéssemos tocá-lo, senti-lo e chorá-lo. A ligação de palavras se torna um método de reavivamento – a literatura como expurgo do que é mais emergente e diálogo entre-dores. Ao apresentar o intercâmbio entre os sentimentos diretos de perda e uma visão singular de existência, “És brilhante entre os que dormem. Pai”, Peixoto torna a discussão sobre a autoficção – o que é real, o que é invento – um mero joguete de palavras. A literatura se apresenta aqui como o velho contador de histórias do mundo, quando um leitor em Bangcoc ou em Curitiba senta-se para tomar um café amargo e sai, através do percurso de um olhar, com o antigo sentimento de pertencer ao coração do mundo – mundo em que impera o negrume, a saudade e, por fim, a morte.

Escape para a leitura

“Pai, ter a tua memória dentro da minha é como carregar uma vingança, é como carregar uma saca às costas com uma vingança guardada para este mundo que nos castiga, cruel, este mundo que pisa aquele outro que pudemos viver juntos, de que sempre nos orgulharemos, que amamos para nunca esquecer.” (p. 60)

Estante                

Morreste-me

José Luís Peixoto

Dublinense, 62 páginas, R$ 29,90

www.dublinense.com.br

LOREM IPSUM #2 crônicas e métodos de urubu

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A crônica é um respiro que escapa entre o cotidiano, sempre tão fértil de estranhezas enquanto nós passamos em branco. Um singelo restaurante ou uma praça abriga dúzias de anônimos, suavemente retirados de seus silêncios pelo olhar de um cronista. Não precisa fazer perguntas, às vezes um par de ouvidos disponíveis é suficiente para guardar as histórias escondidas na cidade.

É uma interpretação possível da fala de Luís Henrique Pellanda, em um bate-papo aqui na nossa Escola de escrita. Cronista da Gazeta do Povo, autor de Nós Passaremos em Branco (2011) e Asa de Sereia (2013, ambos publicados pela Arquipélago), ele nos contou de sua experiência com a crônica, antes de escapar para dentro de seu feitio, quando era apenas leitor.

Em meio as leituras de infância e adolescência, originadas de incentivos familiares e também de uma assinatura do extinto Círculo do Livro, Pellanda descobriu a obra de um ilustre desconhecido de paradeiro ignorado, um cronista chamado Dalton Trevisan (cuja existência também é assunto de lendas e demais escapadas narrativas). Era uma época bem distinta da nossa, com menos locais de leitura espalhados pela cidade e longe do hoje imediato acesso a produção sobre a cidade graças a internet. Na ocasião, Luís não sabia que se escrevia sobre Curitiba, nem se imaginava escritor.
Não na maneira como se tornou um, pois escreveu muito durante seus anos no jornalismo, de reportagens na já mencionada Gazeta do Povo a incursões na produção sobre literatura do Rascunho, além de um tempo como editor no site de crônicas Vida Breve. Quando a frente deste, já tinha escapado dos relatos jornalísticos e literários para as próprias crônicas, lapidadas entre andanças, freelas, estranhamentos e pausas na insone Curitiba.

Além da prática da escrita, Pellanda também contou de eventuais becos obscuros com os quais se topa. Nada da famosa folha em branco, mas sim de ruelas entre redigir um livro e vê-lo publicado, estreitas o bastante para apertar o autor em formação. Da busca mercadológica por um produto específico até ser escolhido para ter um livro lançado, porém sem participar de fato de sua construção; das ambiguidades da distribuição a ter a obra abrigada por uma editora que acolha também o autor, a trajetória da publicação pela vista de Pellanda pode ser interpretada como uma cidade que não esconde a sombra de suas árvores e nem seus bueiros, menos ainda a distância entre eles.
No bate-papo com os alunos da Escola de escrita, Luís Henrique Pellanda também abordou outros aspectos referentes a prática da crônica, um aprendizado do qual nossos alunos não escaparão. A próxima oficina da Escola de escrita é com ele, que vai nos levar para uma caminhada pelo ofício deste gênero tão particular e tão próximo do cotidiano.

É a trajetória do aluno se equivalendo a do autor – você já escapou para dentro de uma crônica hoje?

Inscreva-se [últimas vagas] aqui.

Concurso!

concurso do blog

[foto: Divulgação]

[foto: Divulgação]

Se você acompanha nossas redes sociais, notou que estamos de casa nova, que nosso site acabou de ficar pronto, que novos cursos estão com inscrições abertas e que nosso blog não tem nome. Pois é, com tudo isso acontecendo, deu um TILT e ainda não temos um nome. Por isso, a Esc. convida vocês a embarcarem numa jornada.
Preparem as malas, as mochilas e as lancheiras! Chequem seus pertences: o guarda-chuva da intertextualidade (check!), uma barraca cheia de referências (check!) e uma marmita com muita poesia (check!). Embarquem, então, no concurso da Esc.. Abrimos as portas e confiamos a vocês o cargo de entituladores do nosso blog. Isso mesmo: o concurso é para encontrar o nosso título.
E ele vai acontecer assim: do dia 15/04 ao dia 15/05, neste post aqui, você envia na caixa de comentário a sua ideia, junto com sua identificação (nome, sobrenome e e-mail), com o link do seu perfil do facebook e com o nome da sua cidade. Vamos analisar todas as sugestões de nomes e escolher a que mais se encaixe na proposta da escola.
Regras do jogo:
  1. A primeira regra do concurso da Esc. é: você pode falar do concurso da Esc.;
  2. Cada pessoa só pode mandar UMA sugestão;
  3. As sugestões de nomes para o blog devem ser enviadas na caixa de comentário deste post;
Premiação:
  1. O autor do nome escolhido vai ganhar 50% de desconto para o próximo curso de Redação Criativa da Escola de Escrita [que acontecerá dia 13 e 14 de junho, em Curitiba].
Enquanto esperamos a contribuição de vocês, seguimos o nosso último mês de coisa nova, recém feita. O Manoel explica bem:

Prefácio
Assim é que elas foram feitas (todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

Manoel de Barros

(Via Revista Bula )

Nos despedimos aqui e esperamos para ver todos serem poetas dando nome àquilo que não tem – para sempre ou por um comentário. Também aguardamos curiosos para ver o que traziam nas mochilas e daqui a pouco voltamos com o resultado da nossa jornada do título.
*Qualquer dúvida sobre o concurso e a premiação, entre em contato com a gente pelo facebook, twitter ou sinal de fumaça.

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