Ciclo nordestino, de Heloisa Zilah

Quando vai chegando o mês de dezembro, eu sinto que o meu entorno vai encolhendo como na história do Boris Vian, com a diferença de que eu também reduzo. Vou deixando de fazer tudo que passo a considerar demais, vou me retraindo até o nível Balu.
Trabalhei em um banco estatal onde as pessoas se feriam diariamente, com uma crueldade incômoda, porém velada e na época do fim de ano se abraçavam e desejavam coisas boas umas às outras. No primeiro ano fiquei chocada, mas depois aprendi com um amigo com muitos anos de casa, e passei a marcar as férias a partir do dia vinte de dezembro e saía de fininho sem cumprimentar ninguém.
Já tendo vivido um trauma na infância, a perda do irmão mais velho no dia vinte e cinco de dezembro e, alguns anos depois a do meu pai em final de novembro, minha disposição para hipocrisias natalinas sempre tende a zero.
Viajávamos, meu filho e eu, para Santos, visitar os seus avós paternos, nordestinos de Natal e muito católicos. Na casa deles a celebração natalina se resumia à missa do galo na véspera e um almoço especial no dia seguinte. Os presentes eram trocados no dia seis de janeiro, dia de reis. Minha sogra, a vovó baixinha, dizia que tínhamos que praticar o que o menino Jesus veio ensinar e nos levava para visitar os parentes mais velhos. Era a via sacra do amor, conforme ela.
Já meu sogro nos carregava para conhecer os redutos interessantes de Santos e nos contava sobre a saudade que sentia das pessoas e dos lugares que tinham deixado. Dizia que quando desse eles voltariam para casa. Lembrava sempre dos versos do Luiz Gonzaga; quem sai da terra natal em outros cantos não para.
Foi um período de muito aprendizado amoroso porque além de conhecer e aceitar pessoas com histórias e ritmos diferentes havia a parte da gastronomia nordestina que eles faziam questão de nos apresentar e explicar a origem de cada prato.
Depois que a filha mais nova, Maria das Gracinhas, como meu filho a chama até hoje, se casou, eles enfim se decidiram a colocar em prática o velho desejo. Empacotaram tudo e se mudaram definitivamente, no meio do ano, para não entristecer o natal de quem ficava, bem do jeitinho nordestino deles.


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Nascida em Curitiba, mas nem parece de tão simpática. Fui socióloga. Agora aposentada. Gosto de ler. Sou aluna da Esc. e, em 2017, fiz a Oficina Livre de Crônicas, com Luís Henrique Pellanda.

Dia da Consciência Negra e quatro nomes

No dia 20 de novembro, o Brasil vive o Dia da Consciência Negra. Nessa data também dedicada à reflexão, vamos falar sobre autores negros e autoras negras. Separamos quatro nomes cujas leituras valem muito a pena. Por uma questão de espaço espacial do Blog da Escrita, esta lista não está multiplicada, Esc.quers, mas fiquem à vontade para recomendar mais leituras nos comentários. Sabem como é, a grande frustração de nós leitores e leitoras é que nunca vamos poder ler tudo que essa vida, as bibliotecas e livrarias têm de bom para nos oferecer.

Lima Barreto

Lima Barreto deixou vasta obra

Lima Barreto deixou vasta obra

Com obras marcadas pelo comprometimento social, o brasileiro Lima Barreto escreveu dezenove livros, entre eles Clara dos Anjos, Os BruzundangasCemitério dos Vivos, livro póstumo e inacabado, e seu mais famoso romance, Triste fim de Policarpo Quaresma, que em 1998 ganhou adaptação para o cinema. O escritor morreu aos 41 anos, deixando uma obra de dezessete volumes, entre contos, crônicas e ensaios, além de crítica literária, memórias e uma vasta correspondência. Grande parte de seus escritos foi publicada postumamente.

Carolina de Jesus

Carolina de Jesus ainda tem produção inédita

Carolina de Jesus ainda tem produção inédita

Carolina de Jesus, que só estudou formalmente por dois anos, revelou por meio de sua escrita a importância do testemunho, como meio de denúncia da desigualdade social e do preconceito racial no Brasil. Sua obra mais conhecida, Quarto de Despejo – Diário de uma favelada, organizada pelo jornalista Audálio Dantas e lançada em 1960, teve inicialmente uma tiragem de dez mil exemplares, os quais se esgotaram na primeira semana. Passados mais de 55 anos desde então, o livro já foi traduzido em 13 idiomas e vendido em mais de 40 países. Também Casa de Alvenaria – o diário de uma ex-faveladaPedaços de Fome, Provérbios, Diário de Bitita – Póstumo, Meu estranho diário, Antologia pessoal, Onde Estaes Felicidade.

Paul Betty

Autor de O Vendido

Autor de O Vendido

Paul Beatty, 55 anos, foi o primeiro americano a vencer o prestigioso Man Booker Prize, no ano passado, com O Vendido. A gente queria falar muita coisa sobre o livro, mas já falaram tanto que só fica o pedido: leiam, por favor. A parte mais interessante é que antes do sucesso, o livro foi recusado por nada menos do que 18 editoras diferentes até fechar com a independente Oneworld. No Brasil, a editora é a Todavia e o texto tem tradução de Rogério Galindo.

Djamila Ribeiro

Djamila Ribeiro lançou recentemente O Lugar de Fala (Foto: agência IstoÉ/Felipe Melo)

Djamila Ribeiro lançou recentemente O Lugar de Fala (Foto: agência IstoÉ/Felipe Melo)

Djamila Ribeiro lançou recentemente O que é Lugar de Fala, pela editora Livramento. Ela é graduada em Filosofia e mestra em Filosofia Política com ênfase em teoria feminista. Suas principais atuações são nos seguintes temas: relações raciais e de gênero e feminismo. É colunista online da CartaCapital, Blogueiras Negras e Revista Azmina. Escreveu o prefácio do livro Mulheres, raça e classe, da filósofa Angela Davis, obra inédita no Brasil e que foi traduzida e lançada em setembro de 2015.

 

Pule, Gaby Brandalise

Gaby Brandalise lançará Pule, Kim Joo So, seu novo livro, pela Verus Editora, do Grupo Editorial Record.

Em São Paulo, o lançamento acontece no dia 26 de novembro, na Livraria Saraiva Center Norte. No Rio de Janeiro, o evento acontece no dia 3 de dezembro, na Saraiva (Shop. Rio Sul). Em Curitiba, por fim, a autora lança o livro no dia 9 de dezembro, na Livraria Cultura. Seu livro já ocupa a 2ª posição entre os mais vendidos na pré-venda da Saraiva.

Gaby Brandalise é jornalista e participou de inúmeros cursos na Esc. desde 2015, entre os quais Escrita Criativa, com Julie Fank, e Oficina de Romance, com Cezar Tridapalli.

A própria autora fala um pouco sobre o livro e seu contexto no vídeo abaixo:

Pule, Kim Joo So

“Pule, Kim Joo So” é inspirada nos dramas coreanos, também conhecidos como kdramas, e conta a história da jovem brasileira Marina, que odeia o emprego de jornalista no aeroporto de Curitiba e sofre com a saudade dos pais, mortos em um acidente. Como se não bastasse, quase todos os dias, precisa se defender das agressões do ex-namorado e tratar dos ferimentos causados por ele.
Um dia, ela encontra no aeroporto um homem coreano, machucado e muito assustado. Sem saber por que, decide ajudá-lo. A partir daí, a vida de Marina muda e ela descobre que tem algo em comum com o desconhecido: os dois precisam mudar a própria história.

 

 

OLDSLETTER #5 – atrasada pelo fuso horário do Mundo Invertido

Quem esperou 15 meses e 12 dias entre a primeira e a segunda temporada de Stranger Things vai entender o atraso desta Oldsletter e o jet lag da volta do Mundo Invertido. Talvez você esteja se perguntando o que a Esc. estava fazendo por lá. Talvez você, perspicaz que é, já tenha ligado aquelas luzes piscantes e falantes na parede à oficina de Escrita Criativa.

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Vamos Esc.plicar.

A verdade é que, em um belo dia de outubro, as luzes do Esc.onderijo começaram a piscar em uma dança típica do Halloween. Já estávamos juntando os doces e gritando “gostosuras” quando todo conhecimento em anos dedicados à Netflix ligou o alerta. Aquela cena se tratava na verdade de um chamado de Eleven, Mike, Will, Dustin, Lucas e o Xerife Hopper, que queriam contratar a Esc. para um In Company de escrita estranha com gente esquisita do outro lado, no outro mundo, ou seja lá onde acontecem aquelas coisas.

Embora o convite parecesse inusitado, entre uma coisa estranha aqui, outra ali, neste universo real tão surreal, a gente não podia se Esc.quivar. A Esc. de volta ao mundo… (como é mesmo o contrário de invertido?). De nada, Esc.quers, de nada. Foi um prazer ajudar. O problema é que entre lutas contra Dermogorgon e o Dr. Martin Brenner, a gente quase não consegue chegar a tempo de enviar este estranho  ̶a̶m̶o̶r̶  e-mail. Apenas te pedimos que aceite. Pois antes muito tarde do que antes de antes, todo mundo precisa saber o tanto de boas novas e nem tanto estranhas que aconteceram por aqui. Prêmio internacional, Prêmio Jabuti, livro lançado, oficinas, visita, bate-papo.

A Oldsletter completa você pode ler no Mundo Invertido por aqui: http://mailchi.mp/f6c6e055bba6/oldsletter-5-atrasada-pelo-fuso-horrio-do-mundo-invertido

Premiaste-me: de Peixoto para Volpato

Depois de José Luis Peixoto visitar a Esc. em julho, para lançar seu A criança em ruínas, foi a vez de André Volpato, aluno da escola, ir ao encontro do escritor português no Velho Continente, ao vencer o Prêmio Literário (veja só:) José Luis Peixoto. Com O corpo persiste, e sob o pseudônimo Edna R. Cun, André ficou em primeiro lugar na categoria de não naturais ou não residentes no concelho alentejano.

A premiação vai acontecer dia 16 de dezembro, no Centro de Artes e Cultura de Ponte de Sor, com a presença de José Luís Peixoto, que também lançará seu novo livro “Caminho imperfeito”.

O prêmio, que existe desde 2007 e ocorre todos os anos, considera qualquer texto escrito, em língua portuguesa, por cidadãos de até 25 anos de idade residentes em países cuja língua oficial é o português.

André Volpato é aluno da Escola de Escrita desde 2015, quando venceu o Concurso Passaporte Esc. André participou dos cursos de Escrita Criativa e Literatura Subversiva, além das oficinas de Romance, Criação de Mundos Ficcionais, Revisão e Edição de Textos, entre outros. No total, foram cento e treze horas e trinta minutos de oficinas na Escola de Escrita.

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André Volpato venceu o Prêmio Literário José Luis Peixoto.

Sem fôlego, de Diangela Menegazzi

Time is money, mas money que é good nóis não have. Foi assim, unindo Benjamin Franklyn e Mamonas Assassinas na mesma frase, que me vi no meio de uma das minhas piores crises. Sim, as crises. Aquele lugar maravilhoso em que nos colocamos quando unimos um fato a algum questionamento mais filosófico sobre a existência. As crises, dizem, geralmente são associadas a certas idades… Nunca parei de tê-las. Quando chegou a dos vinte, logo emendei com a dos vinte e um, vinte e dois, vinte e três. Uma vai puxando a outra e quando percebemos já estamos igual o bichano todo enrolado no novelo de lã no meio do tapete da sala. Começa como uma brincadeira inocente com a ponta de um fiozinho, mas quando a gente puxa nunca mais tem fim. Foi desse jeito com a crise do “ai, minha nossa senhora, trabalho pra morrer?”. Ela chegou às vésperas de eu completar quase uma década no mesmo emprego e me fez perguntar por que deusas do céu e da terra aturo tudo aquilo. Ok. No meio desse trabalho e dessa morte tem um monte de outras coisas. Tem o happy hour com a turma depois do trabalho pra ficar falando mal do chefe. Tem também aquela viagem entre um ano e outro como prêmio de consolo por ter vivido 12 meses tão estressantes quanto viajar na poltrona atrás de uma criança chorona, no ônibus lotado de um pós-feriado. A viagem parece nunca ter fim e você fica o caminho inteiro rezando pra ela passar logo. Ela passa rápida e estridente e você pensa que até pode suportar uma próxima, assim como também mais outro ano lazarento depois de 30 dias de férias. Mas aí vem essa crise do “ai, minha nossa senhora, trabalho pra morrer?” e penso: “Tá certo isso?”. Em seguida, vem uma voz baixinha do fundo da consciência e lembra: “sabe-se lá se tem certo e errado, larga dessa culpa judaico-cristã de uma vez por todas”. Aí você volta atrás e vê que, talvez, a melhor pergunta a fazer seria se de fato deseja e quer tudo isso. Tudo o quê? Tudo, mas principalmente o trabalho estressante que me faz pensar toda segunda-feira na noite de sexta e em qual será a saída da hora capaz de dar a esperança necessária pra respirar fundo e suportar a hora do Fantástico no domingo. Nesse meio tempo, entre decidir qual será a pergunta capaz de ajudar a tomar a coragem necessária pra largar TUDO ou suportar o sofrimento voluntário, já abri mais uma janela no navegador. Pela milésima vez, assisto o Pepe Mujica falar do quão foda é a vida nesse “capetalismo”, como diriam os Garotos Podres. Eu você quase choramos na parte que ele diz que gastamos o nosso próprio tempo de vida ao consumir algo supérfluo. Porque tempo é dinheiro e o dinheiro se faz com o tempo gasto pra ter dinheiro e comprar coisas supérfluas, mas, minha nossa senhora, a única coisa que não se compra com dinheiro é a vida. E a vida, amigo, vem lá de trás o Vinícius de Moraes lembrar, é uma só. Mas, ao fechar a aba do Pepe Mujica dou de cara com outra aberta ainda ontem de uma tabela do Excel feita pra tentar parar de gastar dinheiro (VIDA!) com coisas nem sequer usadas. O mais aterrorizante é ver, só agora, nessa porcaria de tabela, os gastos que fiz com a psicóloga nos últimos anos, e eles brilham como se estivessem marcados com caneta marca-texto-amarelo-neon. Sim, a psicóloga. Essa mulher sensacional te faz pensar toda vez na loucura que é largar o emprego em meio à crise sem fim de 2008. Do lado da conta com terapia, está o tanto de dinheiro, digo vida!, gasto para fazer aquelas aulas de Yôga. Aquela maravilha feita pra ensinar a respirar fundo toda a vez que você se irrita com um colega irritante tentando te irritar. Como se Tudo não bastasse, logo abaixo das marcações de contas necessárias pra manter a saúde mental em dia, e aguentar essa vida-sertanejo-universitário-dez-vezes-o-mesmo-refrão, está o gasto feito no mês passado com aquele vestido novo. Ele foi comprado pra festa de casamento da amiga de infância quando dancei o álbum inteiro do Mamonas Assassinas até chegar na música-tema dessa crise, piorada quando juntou a ressaca do dia seguinte com a frase do Benjamin Franklin. Esse sacana morreu há centenas de anos, mas continua sendo reproduzido muito mais que cd tecnobrega em Belém do Pará. Depois de contar isso eu paro, puxo o ar pro fundo, bem para o fundo, e percebo, talvez, a possibilidade de ter evitado essa crise se antes tivesse feito uma pergunta anterior: “É reforma ou revolução?”. Tarde demais, já estou toda emaranhada no fio no meio do tapete da sala.

Diangela Menegazzi

Na boca do túnel

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A Arena da Escrita está pronta para receber o grande clássico da intelectualidade filosófica-literária planetária e, quiçá, do ramo futebolístico também.

De um lado do campo, se aquecem os reflexivos, seres míticos e dúvidas. Pelo que se vê daqui, estão discutindo quem vai bater a bola. Muitos porquês e parece que nenhuma definição. A regra não é clara!

Do outro lado, os romancistas. Aparentemente, cada personagem ainda não está bem definido. O momento é de investigação do sujeito-autor, que só quer passar a bola. Só pensam em partir para a publicação, mas muita calma nessa hora. E a revisão?

Vai ser uma partida e tanto – e como toda boa competição em nome de uma causa, talvez ela não seja tão, assim, competitiva. A gente quer é ver esse jogo de ideias, palavras e pensamentos superiormente interessantes. A boa notícia é que os times ainda estão em formação e você pode escolher um lado para participar, Esc.quer. Esse grande acontecimento esportivo, também chamado de cursos, vai levar, olha, umas 30h cada: Filosofia e Literatura e Oficina de Introdução ao Romance.

Filosofia e Literatura

Técnico: Daniel Medeiros
Escalação preliminar: Guimarães Rosa, Simone de Beauvoir, Italo Calvino, Junichiro Tanizaki, Lygia Fagundes Telles, Dalton Trevisan, Jorge Luís Borges, Franz Kafka, Clarice Lispector, Alejandro Zambra, Raduan Nassar, Elvira Vigna, Luis Fernando Veríssimo, Bernhard Schlink, Ésquilo, Ignácio de Loyola Brandão, Emmanuel Carrère, Mario Benedetti.
Treino: às quintas-feiras, das 19h às 21h30.
Temporada: 21 de setembro a 21 de dezembro.

Filosofia e Literatura. Clica aqui? Sim, talvez? Com certeza

Oficina de Introdução ao Romance
Técnico: Cezar Tridapalli.
Escalação: surpresa!
Treino: às segundas-feiras, das 19h às 21h30.
Temporada: de 2 de outubro a 18 de dezembro.

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Oficina de Introdução ao Romance – Quero escrever escrever meu livro.

Não sei se no time de romance ou no de filosofia, só sei que ̶n̶a̶d̶a̶ ̶s̶e̶i̶ a gente vai adorar ter você por aqui, compondo a maior seleção da escrita que você respeita.
Esc.tamos sempre de papéis abertos. <3

Sem desgosto: concursos literários do mês de agosto

Depois da nossa primeira demonstração de que agosto não é o mês do desgosto, com o combo de Escrita Criativa + Revisão & Edição, eis aqui mais uma prova: selecionamos alguns concursos literários, para poesia, conto e romance, inéditos ou publicados, que aceitam submissões até o fim do mês.

Prémio Literário António Cabral:
http://gremio.cm-vilareal.pt/index.php/premio-literario-antonio-cabral

Prêmios Literários da Fundação Biblioteca Nacional:
https://www.bn.gov.br/edital/2017/edital-publico-premios-literarios-fundacao-biblioteca

Concurso de Poesias Campo Mourão:
https://campomourao.atende.net/atende.php?rot=54002&aca=737&processo=visualizar&codigo=2831

1° Concurso de Haicai de Toledo – Kenzo Takemori:
https://revistaphilos.com/2017/06/25/1-concurso-de-haicai-de-toledo-kenzo-takemori/

Prêmio Paraná de Literatura:
http://www.bpp.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=95

Prêmio Barueri de Literatura:
http://portal.barueri.sp.gov.br/noticia/05072017-abertas-inscricoes-para-premio-barueri-de-literatura-2017

3º Prêmio Nacional CEPE de Literatura:
https://www.cepe.com.br/attachments/article/459/CONCURSO%20001-2017%20-Pr%C3%AAmio%20Cepe%20de%20Literatura.pdf

28º Concurso de Contos Paulo Leminski:
http://pauloleminski.wixsite.com/concurso

Prémio Literário Santos Stockler:
http://cms.cm-lagoa.pt//upload_files/client_id_2/website_id_1/Biblioteca2017/SANTOS%20STOCKLER.pdf

Leite com canela, de Cristina Bresser

Sinto o chão frio da calçada de cimento sob o meu corpo. O vento está forte e ainda nem é outono. Logo se aproxima da porta um grupo de jovens lindas. Aproveito-me da confusão e entro junto com elas na loja de ervas. A dona pousa o olhar em algum ponto acima dos meus olhos amarelos. Com um meio sorriso fixado no rosto vincado, se dirige às moças. Mas seu pensamento divaga: “Esvoaçantes, meninas-borboletas sorridentes, barulhentas. Borboletas recém-saídas do casulo. Será que pensam um dia envelhecer? Criar rugas no rosto, hoje papel-arroz? Rugas pelo filho doente, amor não correspondido, escassez de proventos? Meninas-moças que vivem atrás de poções mágicas para conquistar namorados. Ah, meninas-borboletas, brilho tão reluzente quanto fugaz, usufruam a dádiva da ignorância de serem finitas: simplesmente, voem. ” Assim elas o fazem. Mal acabaram de entrar e já saem voando, com seus pacotinhos de ervas e poções mágicas dentro de suas bolsas de grife. Quando vão aprender que amor não se atrai com feitiços? Porque amor é feitiço. Mágica indissolúvel quando os dois corpos se fundem e se transportam para uma dimensão além do tempo e espaço. Além das palavras. Além de tudo que não seja sentimento e sensação. A velha das ervas conhece este amor. Me olha atravessado quando lê meu pensamento. Ela, que sabe misturar grãos e condimentos para curar a tristeza no coração das gentes. Como não conheceria o amor verdadeiro? Por que pensar em amar lhe deixa vulnerável e insegura? Me encara e dá um sorriso torto, porém doce. Dirige-se para os fundos da loja. Fico em dúvida se ela voltará com uma vassoura para me espantar ou se simplesmente vai me deixar lá naquele canto, abrigado do frio e da noite. Ela retorna carregando uma coberta macia e um pires. Sou recompensado por minha astúcia com leite morno. Leite temperado com canela. Ronrono de satisfação e me esfrego em suas pernas. A senhora se rende, por fim. Abaixa-se meio encurvada, afaga minha cabeça macia e me presenteia com um sorriso genuíno. Durmo bem.

Conto originalmente publicado em inglês, na revista literária anual da University of Edinburgh. Em português, o conto aparece na antologia Minicontos Vol. 03, organizada por Lucas Palhão (e à venda na Amazon.com).

rsz_img_8865Formada em Comunicação pela UFPR, Cristina Bresser é autora do conto Capitolina, integrante da antologia Torre de Papel, de 2015. Cursou as oficinas de Escrita Criativa, em 2013, de Relatos de Viagens, em 2014, e de Romance, em 2016, na Esc. Escola de Escrita, além de ter participado, em 2016, do curso de Creative Writing da University of Edinburgh. Em agosto do mesmo ano, foi premiada, com o conto Captolium, com o primeiro lugar no I Concurso Literário do Núcleo Interdisciplinar em Direito e Literatura, de Fortaleza, CE. Lançou seu primeiro romance, “Quase tudo é risível” (155 páginas) pela Editora Benfazeja em novembro 2016. Participou da mostra “Literatura postal”, organizada pelo jornal Correio do Porto, de Portugal.

A vida imita a escrita ou a escrita imita a vida?

No século XX, bastante ligado às universidades e a uma maior assertividade no discurso, o ensaio contemporâneo ocupa novos lugares de escrita, como a internet, e a experimentação. Contudo, ainda é pouco estudado, tanto na teoria literária como na prática das oficinas literárias ou de comunicação. Dessa maneira, antes do nosso Ensaiando a Não-Ficção, listamos 5 livros de ensaios de autores recomendados na bibliografia proposta por Moema Vilela, professora do curso:

Ficando longe do fato de meio que já estar longe de tudo — David Foster Wallace
Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo reúne alguns dos mais significativos ensaios de David Foster Wallace.
Embora seja mais conhecido por sua obra de ficção, que inclui, entre outros títulos, o aclamado romance Infinite Jest (1996), Wallace também foi um ensaísta e repórter brilhante, que deixou marcas no jornalismo literário e exerce hoje uma influência comparável à de Hunter S. Thompson.
Com a proposta de fornecer uma porta de entrada ao universo literário do autor, o volume abriga três reportagens – entre elas o famoso “texto do navio”, o relato de um cruzeiro pelo Caribe -, uma palestra sobre Kafka, uma crônica poderosa sobre o tenista Roger Federer e “Isto é água”, o discurso de paraninfo que se difundiu como um viral inspirador pela internet.
Na reportagem que dá título ao livro, Wallace, enviado pela Harper’s a uma feira agrícola em Illinois, se sai com uma crônica hilária sobre o estilo de vida americano. Em “Pense na lagosta”, o autor aproveita a visita a uma feira gastronômica para refletir sobre a legitimidade ética de ferver lagostas vivas para degustá-las. Ao tratar desses e de outros temas, o autor ignora as convenções da apuração jornalística e se concentra nos detalhes mais inusitados. Humor, inteligência, inventividade e um poder de observação assombroso são as marcas desse estilo que influenciou toda uma geração de escritores.

A vontade radical — Susan Sontag
Misto de ensaísta, novelista e cineasta, Susan Sontag é hoje uma das mais destacadas figuras da intelectualidade norte-americana. A vontade radical – Estilos reúne alguns de seus melhores ensaios sobre arte, filosofia e política. Em análises agudas e desmistificadoras, a ensaísta põe em questão temas polêmicos e absolutamente atuais, tocando em pontos-chave da contemporaneidade.
No primeiro artigo, a arte do século XX é analisada em sua tendência a se transformar em “antiarte”. A partir daí, são examinados o cinema (Bergman, Godard), o teatro (Beckett) e a literatura (Rilke, Novalis, Burroughs) e, em especial, a literatura pornográfica.
Passando pelo pensamento do filósofo romeno Emil Cioran, Sontag chega, por fim, à reflexão política: esboça um retrato seco e cortante da América e opõe-se à guerra do Vietnã num famoso “diário de guerra”, escrito por ocasião de sua visita a Hanói.

Ó — Nuno Ramos
Olhando bem os textos que compõem este livro em sua unidade tão estrita quanto desatada não são contos, nem poemas em prosa, nem crônicas, nem ensaios, nem crítica, nem romance, nem autobiografia etc., sendo, no entanto, tudo isso e mais uma coisa incerta e não-sabida, que o leitor nomeará. Uma vasta fantasia antropológica? Uma crítica da percepção? Um De senectude precoce? Uma meditação sobre a ruína? Uma reflexão espectral da forma-mercadoria? O transe brasileiro no seu limite? Epifania negativa? Uma Carta ao pai, que dói e estala em todas as suas juntas? Uma tese de doutoramento impossível, apresentada a um Departamento de Filosofia do Além? De novo nenhuma dessas coisas e, ao mesmo tempo, todas elas e mais alguma etc.

O guardador de segredos — Davi Arrigucci Jr.
Composto majoritariamente por textos escritos nesta primeira década do século, O guardador de segredos é dividido em três partes. Na primeira, “Poesia e segredo”, Arrigucci renova sua aguda capacidade analítica na leitura cerrada de textos poéticos brasileiros. Cecília Meireles, João Cabral de Melo Neto e Carlos Drummond de Andrade dividem espaço com nomes menos canônicos como Roberto Piva e Sebastião Uchoa Leite. Em seguida, em “Prosa do sertão e da cidade”, a ficção de João Guimarães Rosa baliza a rota interpretativa percorrida na abordagem de narradores como Rachel de Queiroz e Dyonelio Machado, assim como Juan Rulfo e Jorge Luis Borges. Na última parte, o autor analisa sua própria trajetória intelectual numa entrevista e em ensaios esclarecedores. Integrante de uma geração privilegiada pelo convívio com mestres como Gilda de Mello e Souza e Antonio Candido, Arrigucci revela nos textos sobre seus colegas e mestres a paixão pela experiência da literatura. Um texto magistral sobre o cinema de Alfred Hitchcock fecha o volume, reafirmando a amplitude da constelação de interesses que caracteriza a carreira intelectual de um dos críticos literários mais destacados do país.

Reflexões sobre o exílio — Edward W. Said
Em ensaios primorosos, Edward Said combina experiência pessoal e reflexão teórica para abordar autores de filosofia e literatura, além de temas ligados à política, à antropologia, à música e ao papel social dos intelectuais.
A guerra, o imperialismo e a ambição de governantes totalitários fizeram do século XX a era da imigração em massa e de uma condição de deslocamento psicológico ligado ao refúgio e ao exílio. A família de Edward Said é um exemplo significativo dessa condição: seu pai, a fim de não servir no exército turco, fugiu da Palestina para os Estados Unidos. Depois, já como cidadão americano, voltou, prosperou nos negócios e instalou-se no Egito.
Foi no Cairo que o menino Edward passou a infância e a adolescência, quando estudou em escolas inglesas que ignoravam a cultura árabe. Como diz ele, a escola “me convencera de que com um nome como Said eu deveria envergonhar-me de mim mesmo, mas que meu lado Edward deveria ir adiante e progredir, ser mais inglês, agir mais como inglês”.
É do ponto de vista privilegiado e ao mesmo tempo doloroso de quem sempre esteve dividido entre duas culturas que Said aborda uma série de temas que conduzem, cada um à sua maneira, ao ensaio que dá título ao livro. Como ele mesmo afirma, o exílio é uma fratura terrível e “sua tristeza essencial jamais pode ser superada”.


Professora do curso Ensaiando a Não-Ficção, Moema Vilela é doutora em Escrita Criativa pela PUCRS, graduada em Jornalismo (UFMS), mestre em Linguística e Semiótica (UFMS) e em Escrita Criativa (PUCRS). Trabalha com comunicação e artes desde 2000. Escritora e jornalista, é autora de Ter saudade era bom (Dublinense, 2014) e organimoema-vilelazadora de Vozes da Dança e Vozes do Teatro (Editora FCMS, 2008 e 2009). Co-editora e repórter da revista Cultura em MS de 2008 a 2015. Ministrou oficinas de escrita criativa em Porto Alegre, Pelotas e em Campo Grande-MS. Publicou contos e poemas em antologias e revistas literárias brasileiras, como na Raimundo, Revista Escrita, Jornal Vaia, Homo Literatus, O Borralho, De tudo fica um pouco.