Ciclo nordestino, de Heloisa Zilah

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Ciclo nordestino, de Heloisa Zilah

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Quando vai chegando o mês de dezembro, eu sinto que o meu entorno vai encolhendo como na história do Boris Vian, com a diferença de que eu também reduzo. Vou deixando de fazer tudo que passo a considerar demais, vou me retraindo até o nível Balu.
Trabalhei em um banco estatal onde as pessoas se feriam diariamente, com uma crueldade incômoda, porém velada e na época do fim de ano se abraçavam e desejavam coisas boas umas às outras. No primeiro ano fiquei chocada, mas depois aprendi com um amigo com muitos anos de casa, e passei a marcar as férias a partir do dia vinte de dezembro e saía de fininho sem cumprimentar ninguém.
Já tendo vivido um trauma na infância, a perda do irmão mais velho no dia vinte e cinco de dezembro e, alguns anos depois a do meu pai em final de novembro, minha disposição para hipocrisias natalinas sempre tende a zero.
Viajávamos, meu filho e eu, para Santos, visitar os seus avós paternos, nordestinos de Natal e muito católicos. Na casa deles a celebração natalina se resumia à missa do galo na véspera e um almoço especial no dia seguinte. Os presentes eram trocados no dia seis de janeiro, dia de reis. Minha sogra, a vovó baixinha, dizia que tínhamos que praticar o que o menino Jesus veio ensinar e nos levava para visitar os parentes mais velhos. Era a via sacra do amor, conforme ela.
Já meu sogro nos carregava para conhecer os redutos interessantes de Santos e nos contava sobre a saudade que sentia das pessoas e dos lugares que tinham deixado. Dizia que quando desse eles voltariam para casa. Lembrava sempre dos versos do Luiz Gonzaga; quem sai da terra natal em outros cantos não para.
Foi um período de muito aprendizado amoroso porque além de conhecer e aceitar pessoas com histórias e ritmos diferentes havia a parte da gastronomia nordestina que eles faziam questão de nos apresentar e explicar a origem de cada prato.
Depois que a filha mais nova, Maria das Gracinhas, como meu filho a chama até hoje, se casou, eles enfim se decidiram a colocar em prática o velho desejo. Empacotaram tudo e se mudaram definitivamente, no meio do ano, para não entristecer o natal de quem ficava, bem do jeitinho nordestino deles.


helo 2

Nascida em Curitiba, mas nem parece de tão simpática. Fui socióloga. Agora aposentada. Gosto de ler. Sou aluna da Esc. e, em 2017, fiz a Oficina Livre de Crônicas, com Luís Henrique Pellanda.