Curitiba em lead e travelling

Crítica Literária

Curitiba em lead e travelling

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de Kooning - Woman

“Mulher”, do pintor Willem de Kooning

Uns Contos No Bolso, de Flavio Jacobsen, concilia ambientes cinematográficas com técnicas narrativas do Jornalismo

 

Se assim é, se lhe parece, Uns Contos no Bolso, de Flavio Jacobsen, é o retrato do jornalismo contemporâneo – seco, reto, distanciado perante o absurdo – abraçado a um cinema cinzento, de cortes rápidos, sem piedade. Em 21 histórias, marcadas pela brevidade, o escritor paulista, radicado na capital desde a infância, relata uma série de episódios urbanos com personagens vestidas de decadência.

Não falta pra ninguém.  Da televisão às madrugadas, a prosa de Jacobsen atira sem ser o vilão que explica o crime. Em “Paranoid”, um repórter conversa com uma banda de death metal antes de um show – a ironia vencendo o tédio e o ridículo. “A entrevista foi boa. Anticristos, nada demais. Gente que não gosta da sociedade cristã e ouve música alta. Muito alta. Só isso. Barulheira dos infernos, eu não quis ficar. Fomos embora, deixando os filhotes de Rosemary pra trás.”

A prosa de Jacobsen, apesar de não fazer questão de esconder influências de diretores que nunca foram reconhecidos pela falta de pretensão, não sofre de mimetismo intelectual (quando tudo parece um arremedo de algo melhor). São diversas capturas que resultam num estilo próximo da música barroca, com cores próprias. “Cigarro versus escuro. João esteve aqui. Dá-lhe Coxa. I love you. Boqueirão na veia. Aqui o valente se mija. Só Jesus salva. Mariazinha, volta pra mim.”, diz em “Ao Sucesso”.

Alguns momentos se destacam pela crueza, principalmente quando o autor faz prevalecer a sua vontade de choque e lirismo. Personagens mais tortos são humanizados em sua natureza menor, solenemente dramática. Em “Cotidiano 2”, um terno diálogo amoroso evidencia isso:

 

– Me diz uma coisa. Você engole meu esperma por que me ama ou é pra não sujar o lençol?

– Hmm?

– Pra não sujar o lençol, né?

– É.

– Puxa…

– Mas eu gosto. E te amo, também…

 

Uns Contos no Bolso é direto como a tristeza é para a bebida. Um projeto noturno-decrépito para bares cativos. A lamentar apenas que um livro tão consistente em intenção e gesto não tenha recebido um título melhor.

 

Estante

Uns Contos no Bolso

Flavio Jacobsen

Kotter Editorial, 80 páginas, R$ 30

 

Escape para a leitura

Escarlate

Entre os destroços do avião, o que sobrou de Antônio, ainda que por milagre, foi a feição. O terno risca de giz, chamuscado mas quase intacto, seus grisalhos inconfundíveis. Em punhos cerrados numa mão uma maleta, algemada ao pulso, na outra uma foto 3×4.

Madalena foi reconhecer o marido no IML. Confirmado, era ele e seus os pertences. Na foto colorida, uma moça de cabelos em falso vermelho contrastando azul claro dos olhos, sorria leve. Na maleta escova, pasta de dente e documentos, dos quais a esposa não sabia nem muito nem pouco. Choro breve e procedimentos.

Dia seguinte, na capela do Municipal, família, imprensa, empresários e amigos. Sob um véu negro, adentrando discreta e solene, a moça toca levemente o caixão fechado. Sorri o mesmo enigma da foto, deixando escapar por debaixo do véu os fios escarlates. Uma rosa branca, e vai-se sem cumprimentos.

Madalena abraça o mais novo, desalinhando seu tweed inglês. Ensaia uma gargalhada, que evolui para choro e soluços. Ao vivo, de soslaio, a repórter de tevê irrompe em breve silêncio, examina a cena e, ato contínuo, devolve a matéria ao apresentador do plantão.