Leite com canela, de Cristina Bresser

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Leite com canela, de Cristina Bresser

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Sinto o chão frio da calçada de cimento sob o meu corpo. O vento está forte e ainda nem é outono. Logo se aproxima da porta um grupo de jovens lindas. Aproveito-me da confusão e entro junto com elas na loja de ervas. A dona pousa o olhar em algum ponto acima dos meus olhos amarelos. Com um meio sorriso fixado no rosto vincado, se dirige às moças. Mas seu pensamento divaga: “Esvoaçantes, meninas-borboletas sorridentes, barulhentas. Borboletas recém-saídas do casulo. Será que pensam um dia envelhecer? Criar rugas no rosto, hoje papel-arroz? Rugas pelo filho doente, amor não correspondido, escassez de proventos? Meninas-moças que vivem atrás de poções mágicas para conquistar namorados. Ah, meninas-borboletas, brilho tão reluzente quanto fugaz, usufruam a dádiva da ignorância de serem finitas: simplesmente, voem. ” Assim elas o fazem. Mal acabaram de entrar e já saem voando, com seus pacotinhos de ervas e poções mágicas dentro de suas bolsas de grife. Quando vão aprender que amor não se atrai com feitiços? Porque amor é feitiço. Mágica indissolúvel quando os dois corpos se fundem e se transportam para uma dimensão além do tempo e espaço. Além das palavras. Além de tudo que não seja sentimento e sensação. A velha das ervas conhece este amor. Me olha atravessado quando lê meu pensamento. Ela, que sabe misturar grãos e condimentos para curar a tristeza no coração das gentes. Como não conheceria o amor verdadeiro? Por que pensar em amar lhe deixa vulnerável e insegura? Me encara e dá um sorriso torto, porém doce. Dirige-se para os fundos da loja. Fico em dúvida se ela voltará com uma vassoura para me espantar ou se simplesmente vai me deixar lá naquele canto, abrigado do frio e da noite. Ela retorna carregando uma coberta macia e um pires. Sou recompensado por minha astúcia com leite morno. Leite temperado com canela. Ronrono de satisfação e me esfrego em suas pernas. A senhora se rende, por fim. Abaixa-se meio encurvada, afaga minha cabeça macia e me presenteia com um sorriso genuíno. Durmo bem.

Conto originalmente publicado em inglês, na revista literária anual da University of Edinburgh. Em português, o conto aparece na antologia Minicontos Vol. 03, organizada por Lucas Palhão (e à venda na Amazon.com).

rsz_img_8865Formada em Comunicação pela UFPR, Cristina Bresser é autora do conto Capitolina, integrante da antologia Torre de Papel, de 2015. Cursou as oficinas de Escrita Criativa, em 2013, de Relatos de Viagens, em 2014, e de Romance, em 2016, na Esc. Escola de Escrita, além de ter participado, em 2016, do curso de Creative Writing da University of Edinburgh. Em agosto do mesmo ano, foi premiada, com o conto Captolium, com o primeiro lugar no I Concurso Literário do Núcleo Interdisciplinar em Direito e Literatura, de Fortaleza, CE. Lançou seu primeiro romance, “Quase tudo é risível” (155 páginas) pela Editora Benfazeja em novembro 2016. Participou da mostra “Literatura postal”, organizada pelo jornal Correio do Porto, de Portugal.