No desenredo emocional de Davi Boaventura

Crítica Literária

No desenredo emocional de Davi Boaventura

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Edward Hopper

Talvez não tenha criança no céu apresenta uma descida escura aos bastidores psicológicos da adolescência

Há livros para serem consumidos numa certa pulsão primeira de vida, como O Apanhador no Campo de Centeio, de J.D. Salinger, o mais derradeiro estudo sobre a mente de um jovem, em todas as suas rupturas e incongruências. Nesta vocação que a literatura tem de simbolizar um tempo ou conversar diretamente com o leitor como se um companheiro antigo – os fenômenos editoriais infanto-juvenis (seja lá o que isso queira dizer em matéria de divisão conceitual) estão aí para comprovar –, Talvez não tenha criança no céu, do escritor baiano Davi Boaventura, é uma significante contribuição às narrativas sobre adolescentes perdidos na tradução de si mesmos.

O mote é simples: uma turma de adolescentes da região metropolitana de Salvador passa por uma série de experiências extremas, do uso abusivo de drogas às inaugurais destruições amorosas. O autor esquema treze capítulos, em velocidade frenética, descarrilando, para contar como a vida, logo ao princípio, é sem saídas, asfixiante. “Acordei na manhã seguinte como um pequeno bebê, maltratado, duro, sedento e com uma fome insuportável. Os cabelos sujos de terra, tinta, grama e uma dor inexplicável no joelho esquerdo, que estalava cada vez que a perna se mexia”.

O narrador é um sujeito sem nome – estratégia gasta para flertar com o universal – que atravessa os cenários de desamparo/incomunicação com uma intensidade extraordinária: estamos diante de um autor que pratica literatura como quem testa os limites da respiração debaixo d’água. De modo impressionante, Boaventura escava a insatisfação existencial de um adolescente – e, por que não?, da condição humana – sem subir no caixotinho, generoso com seus personagens tortos. O tédio é cúmplice, o despertencimento também é nosso.

Não é tarefa simples descrever a adolescência e contribuir no processo, nem costurar narradores verossímeis. A tendência geral, quando se trata de fazer literatura com intenções estéticas, é ou simplificar o discurso ou comunicá-lo de cima do pedestal. Boaventura, ao se entregar ao vazio de coração – até na incidência dos erros de revisão –, nos carrega a um cenário empático, num excelente tratado sobre a desolação de existir sem saber para quê: não há mais festa, nem carnaval.

 

Estante

Talvez não tenha criança no céu

Davi Boaventura

Editora Virgiliae, 129 páginas, R$ 29,90

 

Escape para a leitura

 

Veio primeiro um arrepio profundo quente na base da espinha, mas em seguida, uma moleza pastosa, arrastada e essa sonolência tomou conta da cabeça, neurônio a neurônio, como se a luz de filete de tungstênio do lugar resolvesse torrar meu crânio. E de repente, ainda com o lábio curvado da garota me tocando e me beliscando, percebi os braços e as pernas amolecendo sobre a cadeira, o salão se tornou escuro, quieto, lá estava eu à beira do inconsciente, dormindo quase, em um transe incapacitante. Ela deve ter me olhado aterrorizada, coitada, nunca iria imaginar um dia passar por esse tipo de humilhação. Cuspiu na minha cara toda a saliva que pôde arranjar e arrastou a amiga para longe de nós dois. Gil me encarou em dúvida se acreditava ou não no que tinha presenciado. (p.67)