O corcunda vai à academia

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O corcunda vai à academia

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Corcunda de Notre-Dame

Do grotesco e do sublime, de Victor Hugo, é uma descida entusiasmada às profundezas do fazer literário

 

Uma anedota impiedosa do cantor francês Serge Gainsbourg, com evidentes ares autobiográficos, é de tempos em tempos ressuscitada nessa relação entre o belo e o feio: “A grande vantagem da fealdade em relação à beleza é que a fealdade nunca acaba”. E é nessa atmosfera de investigar juízos de valor estético, com alguma graça, que Do Grotesco e do Sublime se situa, o antológico autoprefácio (sim, autoprefácio) de Victor Hugo para Cromwell, de 1827. “O belo só tem um tipo. O feio mil.”. Eis um escritor que não tinha problemas com a própria confiança.

Victor Hugo é um dos grandes nomes do romantismo europeu. Portanto, podemos intuir que o autor de Os Miseráveis e Os Trabalhadores do Mar não era de economizar ao narrar. Altamente produtivo, desses que gastavam tinta sem dó, era muitas vezes um verborrágico sem piedade e dotado de um espírito fundamental para a natureza da literatura: entusiasmo, muito entusiasmo.

Não tinha como ser diferente na crítica literária, terreno em que o francês também escrevia com todas as energias possíveis, sob o farol da pressa e da ansiedade de abarcar o mundo – seu texto não descansava. Contudo, era potente como uma usina, ou como ele mesmo dizia: “Eu sou uma força que avança!”, com exclamação e tudo.

Em Do Grotesco e do Sublime, a busca por unidade e expansão é translúcida, do percurso histórico às suas impressões pessoais sobre seu tempo. A poesia surge como um convite ao novo, em oposição às repetições do passado. Contudo, Victor Hugo evidencia a diferença entre tradição literária e continuísmo de velhas fórmulas. A base teórica se solidifica em três eixos: A Bíblia Sagrada, Homero e Shakespeare. Para o escritor francês, toda a base narrativa ocidental surge disso, paga tributo, mesmo que inconscientemente.

De fato, Victor Hugo produziu, pasmem, aos 25 anos, um valioso tratado sobre a arte e as entranhas literárias. E a condução desse processo é espantosa: “A sociedade, com efeito, começa por cantar o que sonha, depois conta o que faz, e enfim se põe a pintar o que pensa”.

A cada página vemos o pensador encontrando o romancista, num ótimo jogo de palavras. “O gênio, que adivinha antes de aprender, extrai, para cada obra, as primeiras da ordem geral, as segundas do conjunto isolado do assunto que trata. Não à maneira do químico que acende seu fogareiro, sopra seu fogo, esquenta seu cadinho, analisa e destrói”.

Importam aqui as especulações de como a literatura está sempre tensionando a linguagem, ao mesmo tempo em que se alimenta de tudo o que é humano, contraditório, num lance de espelhos que se utiliza tanto da claridade, quanto da escuridão. “O sublime sobre o sublime dificilmente produz um contraste, e tem-se a necessidade de descansar de tudo, até do belo. Parece ao contrário, que o grotesco é um tempo de parada, um termo de comparação, um ponto de partida, de onde nos elevamos para o belo com uma percepção mais fresca e mais excitada.”

Do Grotesco e do Sublime é o manifesto de um jovem em efervescência – “Destruamos as teorias, as poéticas e os sistemas”. Victor Hugo apresenta a literatura não como uma máquina de escrever corretamente ou reprodução de antigos modelos. Mas também como ferramenta de expansão, sem esquecer, nunca, de explorar o que o passado tem de permanente. Dali, se parte em busca do novo.

 

Estante

Do Grotesco e do Sublime

Victor Hugo

Editora Perspectiva, 101 páginas

www.editoraperspectiva.com.br

 

Escape para a leitura

“A arte folheia os séculos, folheia a natureza, interroga as crônicas, aplica-se em reproduzir a realidade dos fatos, sobretudo a dos costumes e dos caracteres, bem menos legada à dúvida e à contradição que os fatos, restaura o que os analistas truncaram, harmoniza o que eles desemparelharam, adivinha suas omissões e as repara, preenche suas lacunas por imaginações que tenham a cor do tempo, agrupa o que deixaram esparso, restabelece o jogo dos fios da providência sob as marionetes humanas, reveste o todo com uma forma ao mesmo tempo poética e natural, e lhe dá esta vida de verdade e de graça que gera a ilusão, este prestígio de realidade que apaixona o espectador, e primeiro o poeta, pois o poeta é de boa fé. Assim, a finalidade da arte é quase divina: ressuscitar, se trata da história; criar, se trata da poesia.” (p. 69)