Os perigos e as delícias da autopublicação

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Os perigos e as delícias da autopublicação

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Fenômeno da autopublicação é reflexo antigo e transparece dilemas na relação entre autor, leitor e mercado editorial

 

Da geração de escritores paranaenses renovadores da linguagem, Jamil Snege (1939-2003) talvez tenha sido o autor com o sistema de distribuição mais anárquico: seus onze livros foram impressos por ele mesmo ou vinculados a editoras locais de amplitude restrita de mercado. Não se sabe ao certo se o padrão foi estabelecido por motivações estratégicas – Snege era um exímio publicitário – ou por falta de gerenciamento da própria obra, já que ele não escondia de ninguém o interesse em viver somente de literatura. O que podemos averiguar: ele foi um dos mais inventivos autores brasileiros do século 20 e segue lido em determinados círculos.

Dotado de muita intensidade e capacidade criativa, Snege tornou-se uma bússola moral para inúmeros autores, de Joca Reiners Terron a Hilda Hilst, e um exemplo de como o caminho da autopublicação e da independência editorial é possível e acidentado. Seus livros, por exemplo, estão esgotados há mais de década, muito em função do desacordo familiar na reedição de sua obra, o que certamente prejudica um maior alcance de seu legado. E não há maiores novidades ao longe.

O percurso do Turco, como era chamado por amigos e familiares, aponta para um interessante viés histórico na geralmente conturbada relação entre escritores e o mercado editorial. De fato, o acesso à autopublicação existe desde que o mundo é mundo (mentira: desde Gutenberg) e sempre foi uma saída comum, principalmente em períodos de escassez ou falta de estrutura logística – a maior parte dos autores brasileiros do século 19 recorreu a editoras estrangeiras para levar seus livros ao prelo.

A invenção da prensa tipográfica em idos do século 15 trouxe uma nova dinâmica na produção e distribuição de conteúdo, dando início à Europa Moderna e enterrando o monopólio da informação da Idade Média – mais pessoas passam a conhecer textos reservados e sagrados. Contudo, desde lá temos uma firme dicotomia. Se por um lado, o conhecimento se espalha e quebra a unidade religiosa, o desabrochar das publicações no Ocidente é marcado por muito amadorismo e uma tendência perniciosa ao superlativo, com a proliferação de jornais extremamente tortos e folhetins incrivelmente ruins – o que pode ser bom também, se considerarmos o efeito do humor involuntário.

Hoje, a autopublicação abocanha cada vez mais adeptos por conta da incrível multiplicidade de ferramentas e do funil do mercado editorial de maior abrangência. De sistemas de publicação personalizada, livro a livro, às práticas de crowndfunding, o autor contemporâneo pode se valer tranquilamente de sua crença na validade da própria escrita – algo sempre perigoso – ou fazer uso das forças de algum editor-crítico de confiança antes de publicar, o que evitaria o erro comum de trazer à tona algo que mais afeta sua credibilidade do que o fortaleça.

A proliferação de blogs, sites e coletivos de literatura facilitou o contato direto com os leitores, a circulação de conteúdo gratuito e a ascensão de antologias & coletâneas. Esse panorama impele cada vez mais gente à materialidade ou ao e-book, mesmo os números do mercado virtual ainda tão incipientes – o sucesso de cinco ou seis best-sellers ainda não faz da indústria do livro digital uma prioridade das editoras.

A efervescência produtiva também aumentou o circuito de pequenas editoras especializadas em nichos de mercado, como a Editora Patuá, de São Paulo, com forte presença no ramo da poesia dita contemporânea. Com tiragens enxutas, os selos menores apostam no capital simbólico do autor e em sua capacidade de mobilizar seu networking em prol do livro, gerando um buzz restrito, porém fiel.

Entretanto, como no velho adágio de Tomasi di Lampedusa, muita coisa muda para continuar igual. Sair por uma major continua auxiliando no processo de propagação-introjeção de um autor, embora muitos reclamem do trabalho ostensivo & efêmero realizado pelas grandes editoras. O pequeno selo até pode distribuir mais carinho, mas também é capaz de fazer de um lançamento uma rápida descida ao anonimato, ainda mais se for apenas uma editora-gráfica. E a distribuição infelizmente obedece às restrições das livrarias, sempre mais amistosas com grifes de projeção nacional. Publicar-se como um self-made-man pode ser uma curiosa turnê afetiva-libertária-onerosa-desgastante: um livro é um processo coletivo, da diagramação à estante.

Não deixa de ser animador reconhecer as amplas possibilidades editoriais. Buscar entendê-las nas entranhas pode auxiliar no processo de entendimento do próprio trabalho, além de curar-se do pecado das expectativas elevadas num cenário macro de problemas crônicos na formação de leitores – talvez até existam mais escritores do que leitores. Também convém nunca desconsiderar a função de editores experientes, mais focados na publicação de boas narrativas do que na solidificação de mais um livro pra contabilidade desse universo já tão densamente povoado de sub-histórias.