Ossos do Paraná

Literatura Paranaense

Ossos do Paraná

Categorias:

Multidão no Passeio Público por ocasião das homenagens ao poeta de Ilusão.

Multidão no lançamento de “Ilusão”, de Emiliano Perneta, em 20 de agosto de 1911

 

A história literária paranaense tem na revista Joaquim seu primeiro grande momento de protagonismo, mas há, anteriormente, nomes e eventos importantes para o entendimento de nossa produção cultural.

 

Daniel Zanella

 

Em abril de 1948, o confiante Dalton Trevisan proclamou, no primeiro editorial da Joaquim, um peculiar manifesto: “Por tudo, a literatura paranaense começa agora”. A revista – em homenagem a todos os joaquins do Brasil, em minúsculo mesmo – começava a romper com o provincianismo local, a estabelecer uma nova rota literária e a colocar-se como um dos periódicos brasileiros mais vanguardistas do século 20. E não tinha vergonha de anunciar isso.

Não foi pouco. Ao longo de 23 edições, a revista atacou o Paranismo, corneteou Monteiro Lobato, colocou Alfred Andersen pra correr e lançou uma série de artistas, de Poty Lazarotto ao próprio Dalton, que, curiosamente, se autopublicou algumas vezes – uma interessante tradição dos publishers locais de literatura.

Apesar da ressignificação proposta (e acontecida) pela Joaquim, a literatura paranaense feita antes da década de 1940 não pode ser descartada como um Emiliano Perneta severamente arrasado na terceira edição, em artigo de Trevisan: “[…] Ele está para Bilac como o canto do vira-bosta está para o canto do sabiá”. Em sua própria revista, o Vampiro de Curitiba relembrou diversas vezes a importância da obra de Newton Sampaio (1913-1938), a quem considerava o maior contista do Paraná – a intertextualidade de vozes, inclusive, é evidente.

Sampaio não publicou nenhum livro em vida, mas acabou sendo reconhecido quase ao acaso pela Academia Brasileira de Letras por Irmandade, livro premiado após a morte do autor, vítima de tuberculose, num sanatório da Lapa. (Até hoje não se sabe como um exemplar foi parar nas mãos dos imortais). Os contos de Sampaio, destituídos de adjetivismos ou de floreios, apresentam uma Curitiba sem cortinas, escura, fugindo propositalmente do baú de mitos, belezas e engrandecimentos do Paranismo, em voga no estado. Pessoalmente, ele desprezava com força a vida artística pública.

Quando o artigo da discórdia relembra a coroação de Emiliano Perneta, eleito Príncipe dos Poetas Paranaenses em uma pitoresca solenidade realizada no Passeio Público de Curitiba, em 20 de agosto de 1911, podemos ver retratado ali um certo sangue histórico de Sampaio, de fato, o nosso primeiro outsider. Trevisan não seria tão determinado em seus ataques sem uma coragem originária.

Se Ilusão representa o Simbolismo em seu cerne muitas vezes pejorativo, também é o primeiro best-seller paranaense e a comprovação da existência de uma cena literária local. A cerimônia toda de lançamento é bem mais do que um marco da nossa trajetória cultural. É a sagração do mais importante nome da produtiva geração de simbolistas paranaenses.

Para homenagear Perneta, foi construída uma pequena ilha de contornos gregos, em um cenário marcado pela artificialidade. Foram vendidos 400 exemplares, entre louros e aplausos. Os registros do evento são até hoje inigualáveis no entendimento do Paraná, sempre de mãos dadas com a autoveneração, principalmente de fora para dentro – Emiliano era bem relacionado no Rio de Janeiro e em São Paulo, algo sempre considerado entre nossos pares.

Dalton, do alto de seus 21 anos, negava, de modo visceral, a validade da obra de Perneta, mais como um publicitário iconoclasta do que como um crítico apurado. “Foi uma vítima da província, em vida e na morte. Em vida, a província não permitiu que ele fosse o grande poeta que podia ser, e, na morte, o cultua como o poeta que ele não foi.” Contudo, não é tão simples invalidar Emiliano, integrante que foi de importantes coletâneas nacionais sobre o Simbolismo, apesar de uma visível repetição de temas. Além disso, ele foi motor no surgimento e desenvolvimento de diversos impressos literários, como a revista Cenáculo e a Pallium.  

Aliás, a tradição de impressos do Paraná é quase misteriosa. Entre 1896 e 1914, por exemplo, tivemos 15 periódicos com ambições estéticas comprometidas com o Simbolismo. A própria Joaquim, antianterior, surgiu na esteira seguinte com uma modernidade difícil de explicar, se valendo, sim, de uma trajetória já estabelecida de periódicos. Depois tivemos (e temos) O Sapo, Nicolau, Rascunho, Cândido, entre outros periódicos importantes, além daqueles com atividades reduzidas a períodos mais curtos, como a curitibana Oroboro, publicada de 2004 a 2006 por Ricardo Corona e Eliana Borges.

Bem antes de tudo isso, em 1867, foi realizado o lançamento do volume 1 de Flores Dispersas, de Júlia da Costa, a primeira escritora paranaense, de voz romântica-melancólica e história pessoal dramática, a quem o escritor e editor Roberto Gomes dedicou um livro emocionante, Júlia, de 2008. A parnanguara teve uma vida social e política marcada por um protofeminismo ferrenho. São tristezas, escândalos – ela pintou os cabelos de negro numa época em que apenas as meretrizes faziam isso –  e a posterior reclusão seguida de paranoias. No fim da vida, fazia colagens na parede. Em uma prova da nossa falta de respeito histórico, seus restos mortais foram “redescobertos” em 2009, quando operários faziam a manutenção do obelisco em sua homenagem, no Centro Histórico de Paranaguá.

Em 1894, o escritor e tipógrafo Dario Vellozo (1869-1937) afirmou na Revista do Clube Curitibano (1890-1912) que o Paraná não tinha literatura, nem possuía valiosos subsídios para sua história. Não é verdade. Talvez o Paraná sempre tenha sido bom em desarticular suas próprias origens, como se tudo se iniciasse agora. Ou depois.