As condições de laboratório em Rodrigo Garcia Lopes

Cr´tica Literária

As condições de laboratório em Rodrigo Garcia Lopes

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George Grosz em Paisagem do Apocalipse

George Grosz em “Paisagem para o apocalipse”

Experiências Extraordinárias apresenta uma nova relação entre os fenômenos midiáticos e a poesia

 

A poesia, o ato de preencher a linguagem com significados, está para a interpretação do mundo assim como a água está para a seca, exercício de resgate. Experiências Extraordinárias, último livro do londrinense Rodrigo Garcia Lopes, é um caso raro de clareza intelectual com rigor e método: precisão aliada a sentimento.

(Força na aguadura, distanciamento do que é turvo.)

A obra é dividida em quatro eixos bem amplos. Em “Idade Mídia”, os temas contemporâneos são questionados na balança fumegante entre civilização e barbárie; “Satori Uso” é uma compilação de haicais, também nome do heterônimo criado pelo poeta na década de 1980; “Diálogos” é um passeio pelo percurso intelectual-artístico do autor, com suas referências à mostra; e “Experiências Extraordinárias” é um apanhado de poemas livres. Os núcleos quase extremos se conversam e denotam a versatilidade de Garcia Lopes, também compositor, tradutor, editor e jornalista.

A obra foge do palavreado nebuloso, de uma certa alma trapaceira muito em voga na poesia contemporânea – quando o autor deixa no leitor a desconfiança de que ou escreveu algo muito genial ou foi apenas confuso, algo que realmente não acontece aqui. “Querido pensamento,/ nunca fomos tão nós/ quando estivemos a sós/ no instante de seu advento.” é dito em “Solilóquio”.

De modo geral, a curvatura metodológica de Experiências Extraordinárias transita entre a tradição literária – os mitos, a literatura oriental, França, as glórias do mundo – e a elaboração de um tipo de leitura para o novo, quando o poeta se coloca na condição de tradutor. Aqui, a cultura pop se apresenta num campo onde o erudito não a anula. A primeira sequência de 14 poemas desvela isso; vozes para entender o imediato:

 

Tempos de Celebridade

Carlos, na próxima encadernação

Nascerei filho de alguém famoso.

E então, como um cão raivoso,

Não largarei meu precioso osso.

 

Quem disse que é preciso ler,

Ter talento? Não seja ridículo.

Esforço é coisa de otário.

Meu sobrenome será meu currículo.

 

Vou escrever uns poemas fofos

Umas cançõezinhas ordinárias

Com uma certeza: o Brasil nunca saiu

Das capitanias hereditárias.

 

Garcia Lopes corre alguns riscos. Ao se aventurar em um terreno crítico/sonoro, ele soa, em alguns momentos, quase como tribunal de redes sociais, principalmente na sequência em que parodia formatos jornalísticos para autores clássicos. “DJ Marcel Duchamp curte balada em Jurerê Internacional”, diz em um trecho de Famosos (I). A busca por ser integrante de seu tempo também cobra seu preço, que o autor não se nega a pagar.

Porém, a aplicação conferida ao cotidiano, àquilo que está boiando na superfície em busca de sentido poético e é recuperado, impede que a obra se perca no próprio fluxo de acidez. Em “Guarujá Salem”: “linchada por um boato/ numa tarde de sábado/ mundo-barbárie// fabiane// ainda ergue a cabeça/ para um último olhar/ à multidão de agressores// filmando com celulares/ e smartphones”.

Sem semear espinhos, Experiências Extraordinárias ambiciona, sim, uma certa juventude eterna, assentar-se como espírito de um tempo. Não é um livro pequeno, individualizante, parido para ser mais. Em “Império dos Segundos”, há o aprofundamento das noções contemporâneas de tempo, a fugacidade toda da matéria que absorve os dias, o fluxo inesgotável, perene. (O poeta como um revelador, transmissor e registrador dos pensamentos):

“Se eu fosse parar pra saber/ o sabor deste instante/ não iria jamais perceber/ do que é feito o durante,// a carne de cada segundo, / minuto de cada poente/ de que é feito este mundo, / sangue, esperma, poeira,// não ia jamais me lembrar/ da trama da tarde, museu/ onde moram as velhas horas,/ nem o duro rosto deste outro// outono, matéria, mistério,/ nem a memória, esse mármore/ em fluxo, rugido em estéreo/ de uma incessante cachoeira.”

A poesia de Rodrigo Garcia Lopes é bela e funciona. Atravanca o caminho, mas descongestiona. É o poeta como um cientista de sensações, em busca de responder (com a cabeça e o coração) à fome absoluta dos dias.

 

Estante

Rodrigo Garcia Lopes

Experiências Extraordinárias

Kan editora, 104 páginas, R$ 35

A obra pode ser adquirida na livraria da Escola de Escrita, localizada na Rua Riachuelo, 427, Centro, Curitiba ou pelo contato@escoladeescrita.com.br.

O autor ministrará na Escola, a partir de março, a Oficina de Criação Poética, também denominada Experiências Extraordinárias. As inscrições podem ser feitas aqui e aqui.

 

Escape para a leitura

A história da Lua

Ela, velha

lanterna chinesa

translúcida

 

(Cor de crânio

quase a explodir)

flutua – Lua:

 

Escudo de batalha,

hóspede do céu,

cesta de damas-da-noite:

 

Quantas marcas de passado

em suas feridas, fissuras,

cicatrizes?

 

1969, Armstrong te largou aí,

depois de pisar e pular

em suas crateras.

 

Até hoje dizem

que tudo não passou

de pura encenação.

 

Cientistas se debatem

sobre o mistério

de sua composição

 

E ainda assim, com essa cara

de máscara de Nô,

você nos olha.

 

Li Po te esperou aquela noite

no Rio Amarelo.

Ele só queria abraçá-la.

 

Méliès (1902) abusou

de sua inocência

em Le voyage de la lune

 

Enquanto egípcios

a tiveram, Chonsu,

em altíssima conta.

 

Artemis, Chandra, Jaci.

Deusa branca,

Senhora do Oriente,

 

A memória colhe

outros nomes

em seu passeio noturno:

 

Bombardeada pelo sol,

o que fascina

é sua face oculta:

 

Capuz de velha bruxa,

perita no disfarce

de suas fases.

 

Este o nascer da Terra

visto de sua praia cinza e sem mar,

onde som nenhum se propaga.

 

Estéril concubina, espelho solar,

satélite inútil

suspenso no enigma.

 

Certa noite de verão

Sokan lhe pôs um cabo

e tornou-a um esplêndido abano.

 

Lua que desce à terra

e se mistura

com o sonho dos homens.