Sem fôlego, de Diangela Menegazzi

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Sem fôlego, de Diangela Menegazzi

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Time is money, mas money que é good nóis não have. Foi assim, unindo Benjamin Franklyn e Mamonas Assassinas na mesma frase, que me vi no meio de uma das minhas piores crises. Sim, as crises. Aquele lugar maravilhoso em que nos colocamos quando unimos um fato a algum questionamento mais filosófico sobre a existência. As crises, dizem, geralmente são associadas a certas idades… Nunca parei de tê-las. Quando chegou a dos vinte, logo emendei com a dos vinte e um, vinte e dois, vinte e três. Uma vai puxando a outra e quando percebemos já estamos igual o bichano todo enrolado no novelo de lã no meio do tapete da sala. Começa como uma brincadeira inocente com a ponta de um fiozinho, mas quando a gente puxa nunca mais tem fim. Foi desse jeito com a crise do “ai, minha nossa senhora, trabalho pra morrer?”. Ela chegou às vésperas de eu completar quase uma década no mesmo emprego e me fez perguntar por que deusas do céu e da terra aturo tudo aquilo. Ok. No meio desse trabalho e dessa morte tem um monte de outras coisas. Tem o happy hour com a turma depois do trabalho pra ficar falando mal do chefe. Tem também aquela viagem entre um ano e outro como prêmio de consolo por ter vivido 12 meses tão estressantes quanto viajar na poltrona atrás de uma criança chorona, no ônibus lotado de um pós-feriado. A viagem parece nunca ter fim e você fica o caminho inteiro rezando pra ela passar logo. Ela passa rápida e estridente e você pensa que até pode suportar uma próxima, assim como também mais outro ano lazarento depois de 30 dias de férias. Mas aí vem essa crise do “ai, minha nossa senhora, trabalho pra morrer?” e penso: “Tá certo isso?”. Em seguida, vem uma voz baixinha do fundo da consciência e lembra: “sabe-se lá se tem certo e errado, larga dessa culpa judaico-cristã de uma vez por todas”. Aí você volta atrás e vê que, talvez, a melhor pergunta a fazer seria se de fato deseja e quer tudo isso. Tudo o quê? Tudo, mas principalmente o trabalho estressante que me faz pensar toda segunda-feira na noite de sexta e em qual será a saída da hora capaz de dar a esperança necessária pra respirar fundo e suportar a hora do Fantástico no domingo. Nesse meio tempo, entre decidir qual será a pergunta capaz de ajudar a tomar a coragem necessária pra largar TUDO ou suportar o sofrimento voluntário, já abri mais uma janela no navegador. Pela milésima vez, assisto o Pepe Mujica falar do quão foda é a vida nesse “capetalismo”, como diriam os Garotos Podres. Eu você quase choramos na parte que ele diz que gastamos o nosso próprio tempo de vida ao consumir algo supérfluo. Porque tempo é dinheiro e o dinheiro se faz com o tempo gasto pra ter dinheiro e comprar coisas supérfluas, mas, minha nossa senhora, a única coisa que não se compra com dinheiro é a vida. E a vida, amigo, vem lá de trás o Vinícius de Moraes lembrar, é uma só. Mas, ao fechar a aba do Pepe Mujica dou de cara com outra aberta ainda ontem de uma tabela do Excel feita pra tentar parar de gastar dinheiro (VIDA!) com coisas nem sequer usadas. O mais aterrorizante é ver, só agora, nessa porcaria de tabela, os gastos que fiz com a psicóloga nos últimos anos, e eles brilham como se estivessem marcados com caneta marca-texto-amarelo-neon. Sim, a psicóloga. Essa mulher sensacional te faz pensar toda vez na loucura que é largar o emprego em meio à crise sem fim de 2008. Do lado da conta com terapia, está o tanto de dinheiro, digo vida!, gasto para fazer aquelas aulas de Yôga. Aquela maravilha feita pra ensinar a respirar fundo toda a vez que você se irrita com um colega irritante tentando te irritar. Como se Tudo não bastasse, logo abaixo das marcações de contas necessárias pra manter a saúde mental em dia, e aguentar essa vida-sertanejo-universitário-dez-vezes-o-mesmo-refrão, está o gasto feito no mês passado com aquele vestido novo. Ele foi comprado pra festa de casamento da amiga de infância quando dancei o álbum inteiro do Mamonas Assassinas até chegar na música-tema dessa crise, piorada quando juntou a ressaca do dia seguinte com a frase do Benjamin Franklin. Esse sacana morreu há centenas de anos, mas continua sendo reproduzido muito mais que cd tecnobrega em Belém do Pará. Depois de contar isso eu paro, puxo o ar pro fundo, bem para o fundo, e percebo, talvez, a possibilidade de ter evitado essa crise se antes tivesse feito uma pergunta anterior: “É reforma ou revolução?”. Tarde demais, já estou toda emaranhada no fio no meio do tapete da sala.

Diangela Menegazzi