Três Poemas de “Pássaro Ruim”, de Rodrigo Madeira

Crítica Literária

Três Poemas de “Pássaro Ruim”, de Rodrigo Madeira

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Os Amantes

Os Amantes, de René Magritte

Livro do escritor paranaense potencializa a vida a partir do chão bruto, num caminho entre as vísceras e a decrepitude.

 

Pássaro ruim foi lançado em 2010, pela Editora Medusa. Passou batido. A distribuição ficou a expensas do autor. É difícil, porém lógico, compreender o quão pouco a poesia de Rodrigo Madeira circula. Não é uma poesia fácil, sequer limpa. É a voz autoral paranaense com maior poder de construção de imagens. Seu texto, uma rude carpintaria poética, retira a poesia do estado de graça romântico/inefável e a coloca nas esquinas sujas, entre viciados e pombos, na interseção do humanamente falho e do poder mais arenoso de concentração da linguagem.

 

1.

Balada da Cruz Machado

tem piedade, satã, desta longa miséria!

charles baudelaire

 

uma rua à queima-roupa

curta, brilhante, sem fôlego

(puta nova mas ancestral)

rua-faca, rua-vício

a cruz machado termina

nos pés de uma catedral.

alguém além de deus e

da polícia e taxistas

e putas e vigaristas

cafetões e travestis

sabe que depois das 20

nas calçadas do acinte

beijam latas os guris?

que se agridem por farelos?

que se juram por centavos?

filhos do sangue e do escarro

talhando derrota para

o horror de bicho caçado

que, de manhã, tresnoitara…

para as gargantas gastarem

para os alvéolos gritarem

nesta imunda forja da

convulsão respiratória

este pão da falta de ar

na mesma lama ofertória

a ninguém ou coisa alguma

que a raiva de mendigar

que a fissura que verruma:

pedra pedra pedra pedra

quem dentre vós estiver

sem pecado

que fume a primeira pedra.

e as putas e travestis

não se prestam a outro talho

juntam seus pobres dinheiros

entre um cu e dois caralhos

e como sob a extensão

de um cargueiro embaraçado

prendem a respiração

pra sentir melhor o trago

pra soltar sua alma junto:

pedra pedra pedra pedra

quem dentre vós estiver

sem pecado

que fume a primeira pedra.

em seu lado esquerdo a rua

rebrilha em néon e espelhos

ali se guarda a fortuna

de entrecoxas e de seios:

entre flores volitantes

homens ébrios dão risada

e depois como se dantes

sozinhos voltam embora

tristes, pisando nas asas.

fora do agito das boates

polícia é sempre polícia

mas também pobre coitada:

grita, bate, extorque, ofende

e se, após, solta sorrindo

é por que já mordeu rente.

daqui a trinta minutos

numa curva mais rasante

punhos na arma e voz rascante

revistam mais um otário

um pedreiro miserável

que voltava de assaltar

o som novo dalgum carro:

pedra pedra pedra pedra

quem dentre vós estiver

sem pecado

que fume a primeira pedra.

sob as marquises da rua

ou em ruelas bem próximas

que por vazias e umbrosas

são melhor acoitamento

e em especial, no centro

pela praça tiradentes

(desaguadouro e monturo)

de homens sem qualquer futuro:

traficantes e usuários

usuários traficantes

consumindo criptonita

qual se todas suas vidas

consistissem num segundo…

uma rua à queima-roupa

curta, brilhante, sem fôlego

de uma miséria ancestral

rua-vício, rua-oxímoro

a cruz machado termina

nos pés de uma catedral

 

Duas marcas atravessam o ideário de Madeira: a desolação e o ciclo dos insetos. No primeiro aspecto, interessa ao poeta tudo o que a sujeira pode produzir, uma poesia sem máscaras mortuárias. São as drogas, as escolhas eletivas de marginalizados, a afetividade dos invisíveis como valor, busca. A tradição literária, para Madeira, serve como combustível para observar o que existe de cruel e está sonegado na realidade da metrópole – e ele faz isso com uma honestidade ambiciosa.

 

2.

passionata

 

o amor foi feito para

a imperfeição, para o silêncio

entojado de som e fúria

e gentilezas.

o amor foi feito para errar,

dar com os burros n’água,

perder a paz

e odiar de um ódio patético

e gago.

 

o amor é assim: uma bomba

de delicadeza e desejo

que arrebenta nossas manias,

nossas veias mais grossas,

nossos relógios e bibelôs,

nossas fotografias antigas,

estudos, trabalho,

o passatempo mesquinho,

a conversa fiada e o futebol

(na hora do gol,

você pensa nela e olha além,

através do alambrado, buscando

a improbabilidade

do jasmim).

 

as vacas, em sua mansuetude,

não amam.

mas os homens…

“um grave acontecimento

na vida de um sujeito ordinário

naquela tarde como qualquer outra.”

 

o amor nos emburrece,

nos embrutece (cavalos doentes,

anjos idiotas),

como se não tivéssemos nunca

amado

e desamado, amado

e desamado.

 

o amor remoça

e envelhece dramaticamente.

a mulher pode dormir virgem

e acordar na menopausa.

o homem pode acordar

analfabeto e se deitar um poeta,

esbofeteado por asas.

 

no meio do sono,

equidistância perfeita

entre sonho e realidade,

o homem, a mulher

trazem abaixo

com uma serra de sândalo

a árvore genealógica.

 

e há quem defeque estrelas,

estupidificado de infinito.

e há quem não consiga,

um trapezista interior,

levantar o garfo até a boca

ou amarrar os cadarços.

 

quase tudo o que se viveu,

todas as lições e sobrevirtudes

esfarrapadas, como se amadurecer

fosse a antevéspera do podre

e da semente.

 

o amor não se cura.

fica incubado

esperando a primavera,

a próxima (sempre prima)

MENTIRA

ah como eu minto

pra você pra mim, meu amor!

 

o amor

o amor,

a desaprendizagem.

 

o amor

sem o qual a vida

seria uma verdade (como a morte).

 

Assim como todo autor, que repete sua pedagogia caricata com ligações de palavras diferentes, Madeira tem lá seu mapa físico. A finitude, presente no estudo de fases dos insetos, e a repercussão lírica da decomposição, apresentam uma voz comprometida com o entendimento-tradução do caos. Dizer que a sua poesia é marginal (ou neomarginal, termo ainda mais duvidoso) é esquecer que, no embate ideológico geral, o poeta quer mesmo é especular sobre si, o próprio fim, e tornar-se, na medida do possível, empático no processo de produção de algo que julgue defensável, sendo, assim, o leitor primeiro. – E a poesia de Madeira tem um comprometimento formal elevado, perceptível na busca incessante por novas combinações e sentidos, quase num estado de arrebatamento controlado.

E até num poema de lirismo mais derramado, como Passionata, uma espada torta lhe atravessa, como se nada fosse irresistível à crueza da morte – e não é mesmo (a morte e o amor, ambos incubados, em estado de espera).

 

3.

uma concha

 

 

parto um osso

de pomba

 

e ao levá-lo ao ouvido

posso ouvir

o alarido

 

 

da praça

 

Os animais, em Pássaro Ruim, assumem o papel protagonista de nos tirar do pedestal e nos levar pra baixo. Há uma profusão deles – o gafanhoto, que nunca chega a voar em sua brevidade existencial, justifica o título, um dos mais bonitos da literatura paranaense recente – e de cada uma dessas forças-motoras surge um espaço de previsão diante do turbilhão, como o pombo-concha, as fases hebraicas dos gafanhotos, a vida em desfiladeiro das moscas.

Rodrigo Madeira bate enxada, não se afasta do que é sórdido. De seu lote de terra pesada, entrega a poesia mais pungente da cena poética paranaense contemporânea. Seu exercício é árduo e naturalmente imperfeito. Pássaro Ruim não é uma obra uniforme, nem é necessariamente comprometido com fórmulas consagradas, embora o autor reconheça-as e leve-as às praças, onde habitam pombos, prostitutas, sonhos, meninos viciados. Em última instância, um universo em beleza e degradação.