Troféu Esc. #1: Concurso Dirce Doroti Merlin Clève

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Troféu Esc. #1: Concurso Dirce Doroti Merlin Clève

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Peniel

Ai, mai tá uó esse cabelinho hoje, hein? Vô nem passar a mão que é capaz do sebo secar embaixo dazunha e depois eu vou meter o dedo na boca e ai que nojo. Tudo os dedo comido olha pra isso. E você, quéque cê tá olhano, moça, nunca viu não. Ai, parece que não sei.
Demora da bixiga.
Cheguei seis hora e a senha já tava no duzentos vamo começar 2024 e não vai ser a minha vez. Inferno. Aquela quenga me larga, morre a desgraçada e nem pra me deixar um plano de saúde, viu. Vaca. Queria ver ela aqui nessa fila, esse povo de chinela, duvido que passa sabonete no pé. E daí queu não tomo banho faz três dia, quéque cê tem com isso. Quando eu tomo, fico mais limpo que privada desinfetada, cê tá entendeno. Mai também, como é queu vô tomar banho quesse frio, co gás do alojamento ruim daquele jeito, fora os homi olhando tudo pra ter certeza queu tenho piroca. Jeito de homi eu sei que não tenho, mai como é que ia nascer sem o troço. Num ia, né. Povo besta.
Ai, moça, quéque cê tá olhano. Tem, tem um buraco gigante na minha cara, mai ainda prefiro a boca grudada no nariz com meu dentinho de leite torto do que ser gorda igual você, eu hein. E não me olha mais muito não que se não te mordo todinha, sua loca. E se vier fazer cara feia eu finjo que tô olhando pra cima e você consegue ver até o meu cérebro pela fenda no céu da minha boca. E não é bonito, não, viu, eu mesmo nunca olhei, só sei o que me dizem.
Eita, e o dia que o menino pôs o peru goela acima, saiu porra pelo meu nariz. Doeu que só a pega e o menino ria. Filha da puta. Homi não pode ver um buraquinho que né. Mai também eu deixo. Nunca ninguém quer nada comigo então quando quer tem que aceitar né.
Ai, Deus é mais.
Já me disseram que de costas eu sou até que bonitinho, bundinha bem ajeitada, muito magro, talvez, mai como é que vou come as coisas direito se às vezes os troço sobe e às vezes os troço desce. Desgraça. Aí é vir toda semana no posto, ficar perto dessa gente com dengue, pra tomar um sorinho e rezar pra não caí duro até depois de amanhã, pelo menos.
Senha 197 ainda, só por jesus.
Vontade lascada de fumar unzinho. Mai se a moça já tá assustada assim imagina se ela me vê enrolar o cigarro com a língua e soltar a fumaça pelo buraquinho, acho que ela vomita na minha cara. Eu sei que não é bonito, mai quéque cê quéqueu faça. Foi por causa do fumo da lazarenta queu nasci filhotinho de cruz-credo, então no mínimo, no mínimo, cê tem que suportar olhar pra mim fumando meu mentolado.
Nossa, tô passando a língua no minchinho sem perceber, isso dá um problema. Eu chamo o buraco de minchinho porque se eu não gostar dele quem é que vai gostar né. Mai então, uma vez tava com a língua no minchinho e uma mulher achou queu tava intimando ela pro tchaca. Ai, arrepiei só de pensar. O ruim é que ela falou pro marido dela e o homi veio querer acertar, e vish maria, que homi lindo, vô te contar, só queu não sei o que acontece, ninguém consegue entender o quéqueu falo. A fono disse que o ar entra pelos lugar torto e na minha cabeça tá tudo certinho, mai quando eu vou tentar a língua sai pelo minchinho e aí foi aquilo, né, o homi achou que era ele queu queria pro tchaca. E é claro queu mandava descer, se fosse o caso, mai o tapão veio dois segundos antes deu tentar dizer de novo e, olha, das coisas ruins dessa minha cara oca é que tudo que entra pelo nariz sai pela boca, e as vezes pelo minchinho. Só que o homi não sabia, como é que ele ia saber, e quando ele viu meu nariz já tava quebrado e o sangue jorrou tudo de uma vez na cara dele. Eu ri, os dente vermelho, mai ele que não era doido de encostar em mim de volta né. Nossa, lembrei do tapa fiquei até ton
Eita, quéca conteceu, acho queu apaguei aqui rapidinho porque num lembro de ter dado a senha pra Joice, acho que era a Joice que tava lá na frente hoje e agora já tô aqui sentado, Ai, o sorinho já tá na metade, tão gostoso dar uma desmaiada e acordar no sorinho, renova as energias, recomendo muito. Ai, que soninho, será que dá pra dormir aqui Avião, que susto, não tinha percebido aquela moça aqui do meu lado, eu hein, quéque é essa bacia aqui, credo. Se você pergunstasse pra alguém quem é que seguia quem nessa sala não tinha um que não respondia queu não era o doido. Se essa moça não parar com isso eu juro que levanto e volá dá na cara dela.
Ai, sim, enfermeira, tira ela daqui. Vai, willy.
Levantou, cadê o gindaste, eita, passa perto de mim não, o que é que foi que você disse? Como é que cê tem a corage de me chamar de monstro, gorda, sim, você que precisou de um balde pra fazer um exame de urina. Ai que ódio. Antes eu queria morrer por causa dessas coisa e uma vez até cheguei a colocar uma tesoura no minchinho pra ficar tudo cubista de uma vez, e eu só sei o que é cubista porque a professora sempre me usava de exemplo pra explicar um tal de Picasso e é aquilo né, de pica eu sempre gostei e de cu eu sempre entendi. Já hoje não me abalo não. Quando acontece, é fazer o queu sempre faço, jogar o cabelin pro lado, sem enconstar muito por causa do sebinho, mandar uma beijoca pro reflexo no vidro da enfermaria e falar bem alto, qué pra todo mundo saber que cê tá bem:
— Pixa, chora tão, fofê é finta.

Conto premiado na terceira edição do concurso Dirce Doroti Merlin Clève.

c2d0e32e-dbd3-48af-8641-3017d5b68e11Gabriela Ribeiro é escritora, roteirista, bibliófila e, quando dá, também é graduanda em Letras Português/Inglês na UFPR. Além de participar da organização de eventos literários em Curitiba (a Semana Literária do Sesc e a Semana de Letras), ela é criadora do blog ElasPorEla, cyber-lugar dedicado à divulgação da literatura escrita por mulheres. Gosta intensamente de parênteses, de advérbios e de falar de si mesma na terceira pessoa, como já deu pra perceber, se você leu até aqui. Essas características, inclusive, estão constantemente presentes em seus contos (que já foram destacados pelo Leia Mulheres, pelo Sweek e pelo Medium).