Troféu Esc. #3: Prêmio Off-Flip

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Troféu Esc. #3: Prêmio Off-Flip

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Debaixo da lama

Confirme a sua humanidade, por favor. Ele observou o letreiro que se colocava à frente, estampado em cores chocantes e pixels reluzentes. O imperativo não tinha meio termo, não dava a oportunidade de olhar para a janela aberta, escutar o barulho de água correndo lá em baixo, bater os dedos na mesa e verificar se haveria mesmo algo a se confirmar. Se é que de fato havia alguma humanidade naquela altura da vida. A ordem era dura e direta: confirme a sua humanidade. O “por favor” apenas para dar uma falsa ideia de cortesia, como um vaso de flores artificiais, repousando sobre a mesa da sala de estar.

Do quarto, era possível escutar os gemidos dela, que vinham abrindo caminho pelo corredor, passando atrás das cortinas até entrar no escritório, bem fraquinhos. Ao percebê-los, ele logo pensou na lista. Onde estava? Provavelmente não estaria ao lado da cama, ou debaixo do travesseiro, como de costume, e por isso ela gemia. Com certeza ela não se lembrava de que lugar era aquele, a sua própria casa. Meu Deus, onde estava? Ele se levantou, apoiando-se no tampo da mesa do escritório e foi procurar a maldita lista. Arredou os objetos sobre a mesa, o computador, os livros para referência, o caderninho fechado com um cadarço. Decidiu desligar a música para poder se concentrar. Foi até o banheiro e olhou no armário do espelho. Nada. Não encontrava a lista em lugar algum. Saiu em direção à cozinha, desistindo por alguns minutos da busca que agora já lhe parecia implacável. Reparou na sujeira da pia e sentiu o cheiro de matéria orgânica repousando sobre a água acumulada. Era tudo em dobro: dois pratos, duplas de talheres e dois copos emparelhados. E ele tinha de cuidar de tudo aquilo sozinho. Esbaforiu de raiva, tencionou o maxilar e cerrou os punhos, espremendo os dedos contra a palma da mão. Os azulejos da parede eram duros demais, gelados, brancos de arder a vista. Quebrariam as falanges, não valia a pena.

Acabou achando a lista caída ao lado da cama, no chão do quarto do casal. Entregou para ela, que agarrou o papel com as mãos trêmulas, olhando de volta para ele. A expressão já rotineira de estranhamento e pavor. “1 – Você está na sua casa”. Olhou para ele mais uma vez. As sobrancelhas deixaram transparecer alguma tranquilidade. “2 – Você tem…” Ele apoiou um copo d’água no criado ao lado da cama e saiu do quarto antes que ela pudesse terminar a frase, lida em voz alta. Voltou-se para a mesa no escritório. Mirou novamente para a tela do computador e clicou mais uma vez no arquivo anexo enviado por e-mail, um rascunho de roteiro para ser aprimorado e finalizado. Abriu uma janela de um outro site: para fazer o download, confirme a sua humanidade, por favor. Ele precisava digitar um texto colorido, um captcha, para provar ao site que era mesmo alguém de verdade fazendo o download do arquivo, e não apenas um robô. Arrastou o mouse para o campo de texto. O captcha em letras e números, todos tortos e coloridos. CX8ab4. Errou. Uma outra vez: confirme sua humanidade, por favor.

Depois de baixar o arquivo, passou algumas horas trabalhando no roteiro. A monotonia brotava da tela, arrastando-se corpulenta pelo teclado. Ele trabalhava arrumando e corrigindo roteiros de programas para televisão. Era o que dava para complementar a aposentadoria, sem sair de casa, garantindo a possibilidade de comprar os remédios para ela. Não que ele preferisse ficar dentro do apartamento todos os dias durante horas. É que sair seria a morte, a ausência prolongada, traduzida em homicídio.

Já tinham se passado alguns anos desde a tragédia. Ele se lembrava do dia em que a barragem se rompeu, alagando tudo. Primeiro foi um silêncio, seguido de um tremor rouco. Pássaros azulões serviram de arautos para o desastre. A revoada começou lá de cima do morro e veio seguindo vale abaixo trazendo a lama, mole e pesada, uma coisa única, um corpo se alongando em exercícios de consciência física, esparramando braços e pernas de barro por toda a cidade.

Ele foi um dos primeiros a ver a enchente se aproximando. Estava sentado ao lado da cama, com ela encostada próxima ao seu ombro, mirando cambaleante a colher que ele trazia para perto de sua boca, carregada de sopa. Foi um susto só, ele se lembrava muito bem. Depois de escutar o tremor, correu para a sala e abriu a janela: quedou-se lá uns vinte minutos, observando a enchente tomar conta de tudo, um espetáculo bonito de se ver, ele se lembrava. Ela, no entanto, ficara completamente muda, deitada na cama com a sopa toda esparramada no colo.

A lama veio de uma só vez e coincidiu com as tempestades formadas dentro do próprio apartamento, arrastando pequenas lembranças dela, que iam se diluindo cada vez mais na água, misturadas com o barro, até o ponto de ela se esquecer do próprio nome. A ele, restou guardar, sozinho, a memória dos dois. Lembra daquela música?

Antes da enchente, ela sempre colocava para tocar, logo quando chegava do trabalho: Did I remember to tell you I adore you, And I am livin’ for you alone, Did I remember to say, I’m lost without you…

O despertador tocou às cinco e trinta da tarde, acusando o horário no qual ela deveria tomar o remédio. A caixa de papel cuspiu um envelope de alumínio amassado e vazio. Ele esbaforiu mais uma vez, raivoso. Como poderia ter se esquecido de repor o estoque? A farmácia ficava para mais de cinco quarteirões e fechava mais cedo no domingo. Teria que sair para comprar os remédios às pressas. Tomou um outro gole d’água para se acalmar, foi em direção à janela aberta e olhou para baixo. O aguaceiro continuava, lamacento, e sem denunciar fim. Não era de surpreender. Foi até o quarto, deu um beijo de despedida no rosto dela, calçou um par de galochas e arqueou a gola do casaco antes de sair, como se tampar a goela pudesse adiantar para alguma coisa. Arranjou-se em um bote, segurando o remo de forma experiente, e partiu em direção à farmácia pela porta da garagem do prédio, a fim de comprar os remédios. Os primeiros respingos bateram-lhe no rosto como se fossem um cumprimento vindo do lado de fora, do mundo que o aguardava, alagado.

Ele gostava de sair de casa, de atravessar os corredores ensopados, antigas avenidas urbanas. Para manter a sanidade, resolveu passar por algum lugar que costumava ir junto com ela antes da enchente. Uma esquina perdida, um banco no platô da praça, uma birosca ou um restaurante rebuscado, de cabernets e tempranillos, a porta da escola onde ela trabalhava ou a igreja na qual haviam se casado. Ao ver os resquícios dos lugares de antes, ele se esforçou para se lembrar de como tudo costumava ser. Os hábitos dela, suas plantas favoritas, regadas três vezes na semana, suas pequenas sandálias guardadas próximas à porta de entrada do apartamento, os livros da Hilda Hilst, os imensos pacotes amarelos com as provas dos alunos para corrigir durante o final de semana, a vida agitada de professora de ginásio e o ritual noturno de pentear os cabelos, durante horas, antes de dormir. Naquela época, os cabelos dela ainda passavam dos ombros e todos os dias pela manhã ela comia peras portuguesas com granola de coco e castanha do Pará.

Foi quando ela começou a fazer as listas. Umas notinhas, com números de 1 a 10, que se tornaram a única e talvez a maior de todas as suas preocupações. Começara redigindo notas bem simples, listas de tarefas diárias, que acabaram progredindo para um bloco de notas eletrônico no celular. Coisas para se comprar para a casa, os dias em que deveria regar as plantas, os nomes dos alunos, dos próprios parentes e das ruas do caminho que percorria todos os dias até a escola. Embora ela as tentasse esconder, as listas começaram a povoar a casa, como hóspedes ou inquilinos malquistos, que não haviam sido convidados.

Finalmente veio a febre e ele teve de cuidar dela, alguns dias antes da enchente. Ficou atarefado, trabalhando e administrando as contas do banco, as compras da casa e a faxina. Teve que tomar as rédeas da vida dele e da dela, com uma mão só, e acabou se dando conta da situação. Teve acesso a todas as listas que ela vinha guardando, escondidas em papeis amassados dentro da bolsa e nos aplicativos do celular. E lá estava, escrito num caderninho pautado, de capa dura, escondido no armário: “1. O nome do seu marido é…” Parou de ler por aí. Foi nesse momento que ele foi obrigado a parar de ignorar os sintomas da doença. Caminhou até o quarto e a abraçou bem forte, escondendo a cabeça nos ombros dela para não revelar os olhos avermelhados. Ela, porém, já estava de cama e, com o olhar vazio, continuou com os braços apoiados sobre o cobertor, como se pudesse prever o desastre.

As lembranças de antes da enchente o perturbavam mais do que de costume. Deixou-se perder no caminho até a farmácia e ficou à deriva no meio da lama, pensando em como poderia ter sido, não tivessem as memórias dela se perdido com o dilúvio. Pensou em como poderia ter sido se ela não tivesse se esquecido de como andar, de como falar, os movimentos dos ombros e dos cotovelos necessários para se dar um abraço. Pensou em como poderiam ter sido as viagens com as quais ambos sonharam e que nunca fizeram. Machu Picchu, Roma, as Ilhas Galápagos. Pensou nos filhos que não puderam ter. Pensou nela, apenas nela, e no conjunto de lembranças que a transformavam em quem ela era de verdade, ou ao menos quem ela deveria ser. Pensou em como seria a vida dela, caso suas memórias não tivessem sido cobertas pela lama. Não havia nada que pudesse ser feito, não tinha mais volta, o diagnóstico era unânime. Agora, ele apenas cantarolava baixinho, com a voz embriagada: Did I remember to say, I’m lost without you, And just how mad about you I’ve grown, You were in my arms, And that was all I knew, We were alone, we two, What did I say to you, Did I remember to tell you I adore you…, enquanto pensava em como poderia ser se ela também se esquecesse de respirar.

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O conto Debaixo da Lama foi um dos vencedores (3º Lugar) do Prêmio Off Flip de Literatura 2017 e será publicado em coletânea a ser lançada em e-book pelo selo Off Flip.

André Villani é formado em direito pela UFMG, tendo estudado também na Friedrich Shiller Universität Jena, na Alemanha. É natural de Belo Horizonte e em 2016 venceu o concurso de poesia Um Soneto para Vinicius de Moras, promovido pela Editora Companhia das Letras.