Tutorial para ganhar um concurso literário

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Tutorial para ganhar um concurso literário

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O nome da rosa

 

O Brasil é uma terra cada vez mais fértil em concursos literários. De um extremo ao outro, inúmeros festivais possibilitam ao escritor contemporâneo a chance de se decepcionar e criticar os critérios dos jurados. Por isso, a Escola de escrita, em parceria com o RelevO, apresenta uma pequena série de dicas para o autor pensar um pouco mais em suas ações e aumentar as chances de êxito e glória.

 

1. Atenção ao tema e ao gênero.

[ Porque a vida do jurado também é vida.]

Primeiramente, previamente, primitivamentepreliminarmente, no início, no começo, a princípio, inicialmente, anteriormente, à frente, antes de tudo, o autor contemporâneo pode muito bem tomar o cuidado de inscrever seus materiais nos concursos adequados. Não deixa de ser desestimulante o jurado ter que eliminar uma cópia descarada de Dom Quixote, só que ambientada em Três de Março, em um concurso de haikais que homenageia Nempuku Sato. Também não custa nada o autor engajado nisso de ser concurseiro literário tomar o devido cuidado de não confundir prosa com poesia, José de Alencar com José Alencar, Paulo Coelho com Teixeira Coelho. Ou Marcelo Coelho. Quiçá, escrever um conto sobre coelhinhas da Playboy para o concurso de trovas de Ribeirão Claro, terra do voo livre – ou escrever sonetos para um concursos de sonetos. Ou pensar que pode existir um concurso de sonetos. Não acredite em sonetos.

 

2. Não tenha problemas ortográficos não intencionais.

[Não confunda liberdade com libertinagem.]

Em tempos de presencialidade líquida, sólida e gasosa, sobretudo nas cidades com muitas indústrias e diversos prêmios de sustentabilidade, o erro sem estilo não é sinal de fineza. Nem de sustentabilidade. Você até pode se arriscar a um “estou q nem um pexe fora da agua se debateno de um lado pro outro pq eu nao sei mas o que fazer com tantos sentimento”. Pode mesmo. Contudo, escrever días ao invés de dias ou optar por estupida quando deveria ser estúpida pode confundir demais os jurados e colocar você na condição incômoda de analfabeto secundário das mesinhas de análise.

 

3. Procure concursos que se adequam ao seu perfil.

[Dai a César o que é de César.]

Se você escreve preferencialmente sobre lobisomens que atacam adolescentes em celeiros interioranos, mais especificamente em Cape Charles, Virginia, não nos parece muito coerente inscrever seu texto num concurso sobre o centenário de Manuel Bandeira. Houve certa vez um concurso em que um homem escreveu sobre a Lua quando se exigia o uso da palavra geladeira. Não houve geladeira. Só a Lua, o que não necessariamente é um demérito, vide Exaltasamba, em “Tá vendo aquela Lua que brilha lá no céu?”. De todo modo, não seja essa pessoa.

 

4. Evite relações de cunho físico com os jurados e/ou juradas.

[Privacidade é mais, diria um pichador anônimo.]

O meio literário é pouco afeito à discrição. Qualquer coisa é “Nossa!”, “Não acredito…” e “Eu já sabia que ele/a não valia um centavo”. Excetuando a parte em que geralmente é tudo verdade, vale a pena evitar o caô.E certamente ninguém quer saber de seu vocabulário à Olavo Bilacpara momentos íntimos. “— É muito formosa, Anastásia Steele. Morro por estar dentro de ti.” = NÃO.

 

5. Persista.

[Crítica negativa é elixir.]

Não desanime, mesmo quando o seu melhor amigo disser que da última vez em que leu algo escrito por você, teve vergonha de reconhecer-se como seu amigo e evitou-o por duas semanas, até você descobrir o motivo do afastamento num dia de bebedeira, em que ele também confessou ter ficado com a sua ex-namorada enquanto vocês namoravam. Escreva um conto vingativo e faça ele chegar ao maior número de leitores pela força e poder de sua mágoa.

 

6. Use a imaginação.

[Não acredite em pesquisas e banque sua loucura como verossimilhança.]

Ignore os números. Não respeite as convenções.O concurso de resenhas sobre a importância da agricultura familiar de Itapipoca pode muito bem aceitar um fluxo de consciência hard com um remix de clássicos gregos em edição adaptada para grilos falantes do Aconcágua. Não se acanhe quando o concurso for sobre a poluição do Rio Iguaçu e o seu coração disser que dinossauros podem ornar com crocodilos, até porque as figurinhas que vinham antigamente nos chocolates diziam que os crocodilos eram parentes remotos de alguns animais paleozoicos.

 

7. Não acredite em elogios.

[Assim como descrer em narradores em primeira pessoa é sempre uma boa.]

“Meus poemas são bons, não são?”, “Meus contos são ótimos. Por que não ganhei?”. “Todos que me leem, amam”. O importante é que você goste de seus textos. Goste muito. Se apaixone por eles. Mas não perca a noção. Quando Bukowski disser em seus pesadelos que para ser escritor é preciso ter o que dizer, retrucar “Com quem você pensa que está falando?”pode soar um tanto arrogante. Não desista, jamais. Ou desista e volte a escrever uns dois anos depois, assim que atingir a maioridade emocional e o distanciamento necessário.

 

8. Não se leve muito a sério.

[A natureza é tragicômica.]

Disseram que você voltou americanizado? Que a sua literatura é pedante, uma soma do pior do Enrique Vila-Matas e do Tom Zé? Que você, escritor de poesia, deveria se arriscar na prosa e deixar de participar de concursos de aforismos? Criticaram seu livro no periódico de literatura que ninguém lê? Altivez, meu caro, altivez. Vá ao bar mais próximo, peça uma boa dose de conhaque de cinco reais e faça um brinde ao poder da literatura como plataforma rápida rumo ao anonimato.

 

9. Não se inscreva pensando em ganhar concursos literários.

[Desapega, desapega.]

Renuncie aos valores financeiros, ainda mais quando eles tiverem mais de dois zeros após o numeral. Dinheiro gera iniquidades, que produz arbitrariedades, causa empatabilidade e, por fim, deixa-nos pobres e à míngua de meros trocados no calçadão do Passeio Público. A LITERATURA deve ser desprovida de glamour. O melhor caminho é morrer jovem de tuberculose, contrair dívidas com pequenas editoras e produzir miçangas para comercialização em feriados de meio de semana. Como dizia Daltinho, o que importa é o texto. Não temos comida? Acabou o gás? A vida anda pior do que um universo distópico de George Orwell? O samba acontece na sua cara? Ainda assim, o que importa é o texto. Dos outros. Ler é top.