Um mapa para encontrar pássaros africanos

Crítica Literária

Um mapa para encontrar pássaros africanos

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O pescador no mar, de William Turner

Sem Passagem Para Barcelona, segundo livro de poemas de Alberto Bresciani, cataloga paisagens e espaços de desencontro

 

Diante de gêneros que necessitam de mais cimentaria, como o conto e o romance, a produção poética se constrói na lateralidade, em um espaço de economia e decomposição – a linguagem se condensa, encontra a ideia e parte em busca de novos sentidos. Sob esse ideário da redução rumo à amplitude, Sem Passagem Para Barcelona, de Alberto Bresciani, é um interessante módulo de expansão (estranhamente lívido no processo). Detentor de uma poesia sem exageros sentimentais e com intenções estéticas ao plano da racionalidade, o autor carioca percorre locais de transferência, dando um peculiar equilíbrio à inconstância.

São 77 poemas com fortes marcas de despertencimento geográfico. Em “Radical”: “A despeito do medo de altura / e de escadas verticais / subir ao topo do prédio / olhando para o alto – / um convite a prometidos sinais”, percebe-se as tentativas, geralmente bem sucedidas, de estudar as regiões de transição, aquilo que podíamos chamar de ética migratória, ou desconvite à letargia.

O repertório de pássaros, estrelas, barcos e sentimentos inominados aponta para um projeto maior de não-fixação, de traduzir o que é inacabado. Não há em Bresciani uma caça por um projeto social de poesia, de transformar o leitor em algo melhor, em convencê-lo para um novo ideário. Aqui, a própria poesia está em estado de transformação, ruminando buscas. “[…] No entre (o vale) / erguemos a casa”, diz em “Mudança”.

Os poemas de Bresciani, como conjunto, distinguem para algum tipo de estudo sentimental a partir da ausência de território; o despertencimento é a condição concreta. Um poema chamado Táxon, “Certos animais noturnos / não mastigam sombras / ou concebem escuros”, aplica um espírito singular de não-classificação. Essa perspectiva (ou projeto de viagem, como define o autor) de que, antes de nós, há o vazio – e com ele devemos nos virar – percorre todo o livro, como se a pergunta sobre o propósito de tudo nunca deixasse de ecoar.

Sem Passagem Para Barcelona é um livro-mapa, um chamado para uma viagem que não oferece chegada, nem partida. Também nada garante que as resoluções se encontram na travessia. Por tudo isso, um livro que surpreende na impermanência.

 

Estante

 

Sem Passagem Para Barcelona

Alberto Bresciani

José Olympio Editora, 112 páginas, R$ 39

 

www.record.com.br

 

Escape para a leitura

 

CLÍNICA

(à maneira de Eltânia André)

 

I

Sofremos iguais

inacabados e iguais

aqui

em Bali

Nepal

 

Morremos iguais

ignorantes e iguais

aqui

em Manaus

Cadaval

 

Uma flor igual

em cada cova

funda ou rasa

 

II

O relógio desperta

abrem-se os sinais

os filhos de bicicleta

 

Só precisamos de um foco

na sorte das cartas

dos búzios do ar

 

Somos a promessa

no horóscopo de hoje