“Um passeio público”, de Cezar Tridapalli

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“Um passeio público”, de Cezar Tridapalli

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Aquarela de Christopher St. Leger, em Negroni

 

Em dezembro, lançamos a primeira edição do dEsconforto, nosso periódico feito a partir de textos de alguns alunos e professores que passaram pela Escola. O escritor Cezar Tridapalli, autor de O Beijo de Schiller e Pequena Biografia de Desejos, além de professor da nossa Oficina de Romance, apresentou em “Um passeio público” seu mapa afetivo de Curitiba.

 

Um passeio público

Cezar Tridapalli

 

O roteiro é esse: entram pela primeira vez em nosso apartamento e dizem, vendo a sala sem mobília, que sala enorme. É para pular e dançar melhor, brincamos. Fazem o reconhecimento da nudez da casa, ameaçam levar o corpo para os pufes que, como batatinhas que nascem, se esparramam pelo chão, mas os olhos ainda se detêm: as janelas. O corpo em pé, pendurado pelos olhos, janelões de fora a fora. Que janela enorme. O mundo lá fora é que é, brincamos ainda outra vez.

É em frente a essa janela que faço meu filho dormir, como fiz com minha filha vezes sem conta. Olhamos pela rua de árvores enfileiradas cujas folhas amarelas devem ser medrosas porque, quando nevam, choram umas lágrimas amarelecidas que a vizinhança se apressa em limpar, alguma vergonha alheia, chorar sempre é feio e triste. Dizem que é sujeira, e mangueiras e vassouras fazem trabalho ligeiro, gastando água e escondendo as lágrimas-flores-sujeiras debaixo do tapete esburacado do asfalto, pelas bocas de lobo banguela.

Eu mostro para o menino o que vemos lá fora, em nossa rua que tem nome de poeta parnanguara. Pensando bem ou mal, quem mostra são os olhos dele. Eu apenas repito nomes do que conheço: digo olha o carro, olha lá a árvore, veja: as pessoas. Grudo palavras nos objetos que me aparecem e que talvez só eu veja, os olhinhos dele enxergando sei-lá-quê. No escuro, quando nos afastamos um pouco da janela, nos vemos refletidos no vidro-espelho. Eu também não sei – ignoro tanto – se ele se vê ou continua vendo através do vidro para a caixa d’água iluminada, o alto da XV, linha do nosso horizonte, a nossa Nossa Senhora da Luz por onde senhores e senhoras passam esfregando pneus no asfalto. Aí penso que o mundo fora de nós entra na gente e acaba sendo a gente. E invejo o menino, que vê o que quer, com olhos livres, sem precisar pensar nessas bobagens que me fazem perder a paisagem, colando nomes às coisas, refém de códigos arbitrários.

A paisagem vista, os olhos cansados. Chega de paisagem por hoje, hora de dormir. E ele pousa nos meus dois braços, sua cama. Começo a inventar canções, letra e música saindo no repente, associação livre, a primeira palavra que ganha o ar na voz desafinada fica esperando as outras, mas só se forem rimadas, como se ele dormisse melhor se elas combinassem ter o mesmo som final. Desde minha filha, já inventei muitas canções que se foram, rápidas como vieram. Como disco riscado, minúscula e insistente, uma delas persistiu.

 

E agora?

O mundo lá fora.

Um dia vai embora.

 

O mundo lá fora já tinha ido embora dos olhos do meu filho, que dormia e enxergava só os mundos misturados do sono e do sonho. Mas eu continuei o mantra, a cada repetição uma ave-maria a mais no rosário, novena perplexa.  

Eu pensava no agora e no dia em que o mundo fosse embora, presente e futuro, tempos reunidos pelo espaço. O dia, um dia, iria embora de mim, de nós. Mas o dia não morre, corre atrás da noite para não ser alcançado por ela. Entre o agora e o fim dos dias – dos dias, não dos meus dias – há, calculo, a distância de um infinito e meio.

O tempo se veste de espaço e seria invisível se não usasse estas roupas. É no espaço que a tinta descasca, que aparece a ruga ainda ontem escondida. O corpo é um lugar e dá forma ao tempo. Que transforma e deforma e transtorna, no trocadilho fácil e poderoso.

 

O mapa é a representação de um lugar. Representação é tornar algo de novo presente. Mapa é território atomizado. Se no grão de areia há o universo, no mapa é o território quem habita, encolhido.

Um mapa afetivo é um território que me afeta.

Meu filho já está no berço, deixo pra trás sua respiração pesada. Curitiba e seu molho de chaves a trancarem todos os narizes. Volto para a janela e logo ali na frente, cortando minha rua de poeta parnanguara, vejo um poeta alemão. Encontram-se, cumprimentam-se, e seguem seus caminhos. Fernando Amaro está separado de Schiller por 26 anos e um oceano, mas se encontram na esquina da minha janela. Esse é um encontro do território que me afeta. Mas mapas afetivos são cheios de ruas suspensas, becos sem saída, e entre as calçadas ruins em que tropeço me vejo levantando em outros chãos.

Sou um sujeito de sobrenome italiano esdrúxulo, em que as pessoas tropeçam mais do que nas calçadas. E fui espremido, premido, por alemães. Se Schiller é meu agora, faltou-me falar de passado – o que rima com ontem, para inventar a próxima cantiga? Shhh, o menino dorme. Montem um ontem? Eu monto o meu: meu primeiro mundo, dentro dele abri os olhos pela primeira vez, a inauguração dos meus dias, foi uma vila discreta desta discreta capital. Hoje Vila Hauer virou só Hauer e Curitiba diz que é gente grande. Anda metida, fazendo calor de 33 graus, alinhada aos principais avanços do mundo, como o da temperatura global, por exemplo. Hauer. Hauer e Schiller, meus pêndulos alemães a balançar em mim o ontem e o agora. Ontem, quase anteontem, da janela lateral do meu quarto de dormir eu ouvia a igreja. Santa Rita de Cássia e o sinal de glória: um beijo de quatro minutos e doze segundos embaixo do altar encoberto por toalha branca, sob corpo e sangue humano divino, marcou meu território. Afetou, alfinetou meu mapa de afetos. Hauer da primeira comunhão e do primeiro sexo, também comunhão, também corpo e um pouco de sangue, divino humano.

Sangue rubro, torcedor rubro-negro. Errei o bonde e, em vez de levado aos caminhos da Baixada, saio do Hauer casado para os trilhos do Alto da Glória, de onde, ainda distante, o trem já se fazia ouvir. Rima sem solução: lá, na Mauá: crio meu primeiro mundo de papel, uma pequena biografia dos desejos de outro, eu. Faço da guarita do porteiro fortaleza e, no deserto dos tártaros, esperamos que algo surja, binóculos atentos ao futuro. Quando o desejo vai ao mundo, na primeira Arte&Letra, do Lucca Café, já tinha dado adeus às verdes coxas brancas do Alto da Glória e sua inseparável necessidade de Perpétuo Socorro. Do sétimo andar do poeta de Paranaguá – ele acostumado a interromper o trajeto e esperar o trem passar, réptil barulhento gemendo e se arrastando a duas quadras de casa –, eu já acompanhava seu encontro diário com Schiller, encontro e despedida cada vez que eu olhava a janela.

A rua Schiller me devolve uns pedaços de esperança, que não foi a última a morrer. A cidade é bonita lá. Se eu merecer paraíso depois que meu mundo lá fora um dia for embora, serei modesto: um Mojica da luz dos pinhais: pedirei apenas a rua Schiller. Foi lá que houve um beijo? Perto da pista de skate? Emílio, o Meister, Aprendiz.

 

Sou um Tridapalli, criador de um Desidério e de um Meister. Sou filho de mãe Eurich. Eu e meu Desidério cercados por três alemães, um 3 a 2 pró-deutsch nunca visto entre as duas seleções. Para não virar goleada, não falo do Pe. Germano Meyer, que Fernando Amaro encontra no quarteirão seguinte.

 

*

 

  • Você sabe o que seu nome significa em italiano?

Desidério não estava mais lá.

Nem os livros.

 

*

 

Dessa vez não é o olho que apronta uma travessura. É tua boca, Menino. Mas dizei uma palavra e serei condenado. A voz sai fraca, contudo suficiente para ser ouvida pelos mais próximos. Eles se encarregam de passar a mensagem aos mais distantes: o menino pediu um beijo.

 

*

 

Nem forjou desejo de maestria, nem me tornou mestre do desejo. Curitiba criou em mim duas asas. Mas as asas, ah, mazasasas. Ladeiam corpo de âncora. É voo de galinha, tiros curtos que me cansam, elástico a me puxar de volta para a cidade sempre quando dela me afasto. Âncora dá lastro e afunda, estabiliza e imobiliza. Enterrado no território, afogado nele, vasculho jeitos de ganhar mundos. Minha cabeça de leitor, salpicada entre agora e ontem, Schiller e Hauer, abstraiu Curitiba. E conheceu a Rússia, a França. Portugal, Espanha. Passeou pela América e Japão, Moçambique e Angola. E sempre voltou de lá – curioso: tantos países, tantas pessoas, e os mapas mostravam sempre o mesmo lugar: tudo na Cândido Lopes 133. O planeta mora em Curitiba. A inutilidade de todos os atlas. Mapa-múndi, Google maps, Google Earth, globos iluminados, parem de palmilhar territórios. Basta espetar o alfinete na Cândido Lopes 133, morada do mundo.

 

Aí era sair do mundo e cair em Curitiba. Outra vez. Tropeçar nos mendigos, fugir dos crackentos e pensar neles como fatalidade, da mesma natureza que os fios elétricos amontoados entre os postes, os buracos com uma ou duas calçadas no meio, o grito silencioso entalhado a canivete nos vidros dos ônibus, a roda da SUV entalada a subir sem focinheira no meio-fio e morder o carrinho do bebê, os condomínios virando as costas para a cidade, a arquitetura salve-se-quem-puder-quem-fizer-a-coisa-mais-feia-ganha.

E o mundo agora um dia foi lá fora.

 

O menino dorme.

 

Do Italo Calvino, com suAs cidades invisíveis:

 

A cidade se embebe como uma esponja dessa onda que reflui das recordações e se dilata.

 

O olhar percorre as ruas como se fossem páginas escritas.

 

Essa é minha Curitiba, sempre imaginária, tanto quanto pode ser uma voltinha no “metrô curitibano, que, dessa vez, vai sair. Agora vai, ah, vai” (fala de uma autoridade qualquer, em qualquer ano de 1693 para cá).

 

Esse é meu passeio livre, meu passeio íntimo, meu passeio público.

 

A cidade é tão linda

na hora do blecaute.

Um nocaute técnico,

Épico onde não existem heróis:

só eu, só tu, só nós.