Um percurso de silêncios e afetos

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Um percurso de silêncios e afetos

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José Luiz Peixoto no Litercultura

Morreste-me, de José Luís Peixoto, constrói um pequeno tratado sobre a perda do pai – e a literatura como luz

 

Há um bom tempo, José Luís Peixoto integra com firmeza o rol de autores fundamentais no entendimento da dita literatura de língua portuguesa contemporânea. Ao lado de nomes como Valter Hugo Mãe, Gonçalo Tavares e Mia Couto, ele está solidificando uma significante carreira internacional, escorada por diversos prêmios, e vem, gradativamente, se estabelecendo no Brasil – sua vinda a Curitiba em 9 de maio, numa parceria entre a Escola da Escrita e o Litercultura, em encontro mediado por Manuel da Costa Pinto, comprovou a força dos novos portugueses e o potencial de assimilação do mercado local.

Na safra de títulos trazidos à capital, Morreste-me, publicado por aqui pela Editora Dublinense, é o primeiro livro do português de Galveias, previsto para ser lançado no Brasil no segundo semestre. Escrito em 1996, quando o autor tinha apenas 21 anos e lançado em Portugal em 2000, a obra trouxe notoriedade a Peixoto, sobretudo por apresentar velhas (e importantes) questões do universo literário e sua rede de potencialidades.

Em tempos de exaustão da expressão autoficção – como se algum narrador na história tivesse sido confiável e não bagunçasse as fronteiras do real, das guerras de Homero ao pipoqueiro do teatro comentando a noite de trabalho –, o livro de menos de setenta páginas relata, sem concessões, o processo de luto após a perda de um ente querido.

Da morte literal do pai, Peixoto realiza uma exemplar didática do afeto: quando a literatura é caminho para a ressignificação das experiências de tudo o que é humano. “Parto de ti, viajo nos teus caminhos, corro e perco-me e desencontro-me no enredo de ti, nasço, morro, parto de ti, viajo no escuro que deixaste e chego, chego finalmente a ti. Pai. Ao lado desta manhã, a outra vez. A primeira noite que não viste.”

A obra apresenta, de modo poético, um percurso sobre o vazio amoroso – a realização disso é como um encontro fortuito entre a poeta Sophia de Melo Breyner Andresen e um Carlos Drummond de Andrade cronista. “No reflexo, encontrei-te, vi-te passar a mão rapidamente pelo cabelo e alisar a roupa no corpo e acertar o colarinho da camisa”. Aliás, o potencial lírico quase impele a uma leitura em voz alta, principalmente por conta do efeito da potente sintaxe lusitana.

Um dos méritos de Peixoto é reverter a morte do pai e lhe conferir presencialidade, como se a cada linha pudéssemos tocá-lo, senti-lo e chorá-lo. A ligação de palavras se torna um método de reavivamento – a literatura como expurgo do que é mais emergente e diálogo entre-dores. Ao apresentar o intercâmbio entre os sentimentos diretos de perda e uma visão singular de existência, “És brilhante entre os que dormem. Pai”, Peixoto torna a discussão sobre a autoficção – o que é real, o que é invento – um mero joguete de palavras. A literatura se apresenta aqui como o velho contador de histórias do mundo, quando um leitor em Bangcoc ou em Curitiba senta-se para tomar um café amargo e sai, através do percurso de um olhar, com o antigo sentimento de pertencer ao coração do mundo – mundo em que impera o negrume, a saudade e, por fim, a morte.

Escape para a leitura

“Pai, ter a tua memória dentro da minha é como carregar uma vingança, é como carregar uma saca às costas com uma vingança guardada para este mundo que nos castiga, cruel, este mundo que pisa aquele outro que pudemos viver juntos, de que sempre nos orgulharemos, que amamos para nunca esquecer.” (p. 60)

Estante                

Morreste-me

José Luís Peixoto

Dublinense, 62 páginas, R$ 29,90

www.dublinense.com.br