Um prédio em construção

Resenhas

Um prédio em construção

Categorias:

Gaudí

Insônia, de André Timm, apresenta uma interessante e irregular vista de um edifício 

 

Alguém disse antes (e melhor) que toda cidade é composta de três personagens clássicos: um bêbado que todo mundo conhece, um louco caricato e uma grande construção que nunca termina. Insônia, do gaúcho André Timm, pode se encaixar numa quarta categoria, em progresso: das ótimas ideias arquitetônicas em desenvolvimento.

Em linhas gerais, Insônia, menção honrosa no Prêmio Sesc de Literatura de 2009, narra uma série de cenas em um edifício, uma espécie de Janela Indiscreta literária ou um mapa de cartografia inconclusiva. São personagens envolvidos em situações de banalidade ou de desvio absurdo de rota, como o homem nu que atormenta o apartamento 1001 – ecos distantes de Sabino.

Os nove contos formam um mosaico irregular em ambiente potencialmente narrativo. Há bons momentos por todos os andares, com marcações temporais concomitantes e uma certa homogeneidade: “Sete e quinze da manhã. Os moradores do edifico (sic) Grécia acordam assustados com o som intermitente das sirenes e o burburinho vindo da rua. Ao redor do prédio um grande movimento de carros da polícia, ambulâncias e diversos veículos da imprensa. Curiosos juntam-se ao redor do cordão de isolamento para tentar ver os corpos estendidos no chão. Há poucos minutos dois homens haviam se suicidado jogando-se, respectivamente, do 10º e do 20º andar.”

Um tom de inusitado percorre todos os contos e os conecta a um mundo ao mesmo tempo absurdo e comum – o que talvez justifique a escolha do autor por uma narrativa mais simples. A linguagem é concisa, sem floreios, o que facilita a transição entre um apartamento e outro. No último conto-coluna, Timm, também idealizador do projeto 2 Mil Toques, até arrisca uma prosa de respiração mais poética. “Chove. Mas chove brutalmente. Chove tanto que ao olhar pela janela é até mesmo difícil conseguir enxergar através da espessa cortina d’água que desaba.”

Em uma das epígrafes, Marcelino Freire alega que livro não é pra ser entendido, é pra ser sentido. Contudo, o excesso de correção e controle de Insônia impede um voo mais intenso. Estamos diante de autor de primeiro livro e que pode atingir maior verticalidade se soltar mais a mão.

 

Estante

Insônia

André Timm

Design Editora, 82 páginas

www.designeditora.com.br

 

Escape para a leitura

“Quanto mais alto, mais anônimos. Pequenos pontos que se movem a esmo pelas ruas, seguindo indiferentes com suas vidas. Cada uma delas com suas histórias, suas lástimas e anseios. Como partículas de poeira no ar, elas seguem e se deixam levar ao sabor dos ventos que o acaso sopra.”