Um tributo à fina ironia de outros tempos

Resenhas

Um tributo à fina ironia de outros tempos

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Bíblia Antiga

Tomai e bebei, de Max Mallmann, homenageia o comércio antigo de folhetos clandestinos e entrega uma divertida peça de humor

 

Há narradores comprometidos com o uso de métodos, formas, tensões e estudos estéticos para melhor contar – fundamentais na necessidade que temos de empurrar a linguagem (e o leitor) à frente – e há contadores mais modestos, interessados mais em se divertir do que em repaginar a literatura – e fazer do processo de criação uma etapa de prazer pelo prazer. E isso não é tão simples como parece. É nesta categoria de despojamento com controle que se encaixa Tomai e Bebei, de Max Mallmann, escritor e roteirista porto-alegrense. “Meus melhores pecados eu guardava só para mim. Deus talvez os conhecesse, mas Deus, minha experiência atestava, era um chefe relapso.”

A novela de Mallmann, narrada em primeira pessoa, relata as desventuras de um padre (um pouco dado aos vícios da carne e do espírito) após a chegada de um bispo e um anão (!) à sua pequena cidade. Uma série de estranhos eventos começa a acontecer, ampliando o mistério e a atmosfera de absurdo.

Se o enredo, como se vê, não é exatamente uma contribuição em originalidade, a condução é louvável. Com muita ironia, a obra vai habilmente entregando o perfil psicológico de seus personagens. Estamos diante de um narrador muito esperto: “Entrei em casa todo molhado, pensando que ainda teria de improvisar uma ceia para os dois. Dom Domingos, no entanto, já havia se recolhido, e o anão contentou-se com um pedaço de pão e um pouco de queijo. Quando consegui me deitar outra vez, dormi como um morto.”

Tomai e bebei tem lá seus excessos, como toda obra que procura as ramificações mais sutis do humor – e a resolução da trama pode desagradar os leitores mais exigentes. Porém, o livro é uma honesta emulação aos folhetos subversivos do século 18 e 19, que circulavam em impressões mimeografadas – a diagramação até simula as oscilações tipográficas – e evidencia como o ato de narrar pode ser leve, sem maiores exercícios pirotécnicos.

Estante

Tomai e bebei

Max Malmann

Aquário Editorial, 52 páginas, R$ 12,90

www.aquarioeditorial.com.br

 

Escape para a leitura

“Meu sonho de juventude era ser poeta. Para aprender o ofício, dediquei-me com vigor a imitar a vida boêmia dos literatos que admirava. Aprendi como um poeta bebe, como se comporta numa roda de carteado e como gasta dinheiro aos baldes quando vai a um cabaré e sai carregado pelos outros poetas. Nunca escrevi um verso. Encerrei minha carreira por causa de umas pontadas nas costas (meus heróis estavam morrendo de tuberculose) e em obediência a um acordo de cavalheiros com meu pai, que prometeu me excluir do testamento se eu continuasse a desonrar o nome da família”, p. 5