Uma linguagem em processo de dissecação

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Uma linguagem em processo de dissecação

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Francis Bacon - Study for a Running Dog, 1954

Francis Bacon – Estudo para um cachorro correndo

Corpo de Festim, de Alexandre Guarnieri, alcança gradações inéditas ao impor uma nova fisiológica poética

 

Se a poesia é a atividade de condução à alteridade – o leitor como um posseiro de significados e sensações –, Corpo de Festim, de Alexandre Guarnieri, vencedor do Jabuti de 2015 na categoria Poesia, é a síntese do ato criativo como instrumento para causar sustos, gerar novas ligações de palavras e, sobretudo, expandir a experiência humana (a literatura, de modo geral, como diálogo entre dois criadores).

Em pouco mais de cem páginas, o escritor carioca realiza o que pode ser considerado como um dos mais originais percursos da literatura brasileira contemporânea dos últimos anos. O corpo, sob a ótica de sua estrutura interna de ossos e vísceras, é rearranjado, de um jeito fabril, para uma nova camada de eventos semânticos: “a carne humana, terrânea, é também marinha, e encerra, / na híbrida simetria dos membros, seu mistério anfíbio: / no corpo seco, oco e trêmulo, há água salgada por dentro;”.

A poesia de Guarnieri é caso de excelência no jogo de palavras sem abrir mão do potencial comunicativo. É fácil identificar as influências estéticas de Augusto dos Anjos e Mallarmé, dos elementos gráficos ao entendimento da vida como soma de partes em um todo confuso. Porém, Corpo de Festim não é um apanhado de referências modernistas. “no livro corporal ( sob o martírio/ de ser escrito ) o sal que cada talho / encontra, arde, demora a curar/ a chaga criada por cada frase exata”. Sua ética da dissecação investiga o que há por detrás do corpóreo, sem apelar para caminhos etéreos óbvios – a cansativa dicotomia entre corpo e alma. É uma tecnolírica retirada da beleza da partícula.

 

(/no filtro: (o baço), (os rins), (o fígado)/)

1.

o filtro imbrica baço, rins ( integrados )

no fígado definitivo ( todos, na íntegra, definidos ) /

discrimina impurezas ao limbo, metaboliza líquido

e película, nega, entrega e delega a certas partículas

e células os abismos da urina que instiga e destila

/ mesmo ágeis ( destarte, o que decantam é descarte ),

os rins retroagem, ainda que, nesse ínterim ( período

restritivo ), limpem / este filtro ( intrínseco ), retraído

e tímido, (no fígado) quanto menos decidido

( seria o vírus? icterícia? ), quando vítima

da hepatite: (grita) adoece sua usina,

absorve o ódio, a raiva, toda a intriga;

 

As imagens de Guarnieri caminham pelo contemporâneo por rotas inexploradas, “o osso, esse túnel ensanguentado atravessando o corpo?”, propondo algum novo estudo do caos. Entretanto, que não se espere um ambiente de luz, destensionado. O que emerge é o incômodo, o estranhamento, a excrescência como parâmetro, algo prestes a entrar em processo inevitável de destruição. Em “retrogressão”:

 

é estranho esse

gabinete mecânico dos cinco sentidos ( uma oficina onde

se suporia o laborar pacífico / mesmo entre ruídos

( desbravando em si mesmo o sensorialismo )

um taxidermista / ou talentoso artista

da sua própria fenomenologia íntima )

 

Corpo de Festim é um marco, tanto em conteúdo, quanto em organização e disposição das séries. Para entender melhor o que pode ser a poesia em tempos técnicos, Guarnieri apresenta sua manufatura.

 

Estante

Corpo de Festim

Alexandre Guarnieri

Confraria do Vento, 128 páginas, R$ 45

 

Escape para a leitura

(( ( útero ~ incubadora ) ))

 

( hábitos aquáticos no estágio embrionário – ( ~ mar ~

matre ~ mater ~ ) a placenta atravessada a nado por

alguma criatura inicial – ( ~ girino ~ feto ~ enguia ~ ) cujo

único exercício preparatório é o respiro amniótico nesta

antessala líquida do mundo ( a câmara salina na bolha viva

da barriga ) | o que da ova retida leva o solitário

ovócito confortado, do óvulo revelado eva

adentro, é toda fértil a terra materna |

o filho, no início, bicho tão mínimo, indis

tinguível de qualquer outro seixo mode

lado sob o rio sanguíneo ( do íntimo nilo

ao assomo do amazonas ), grão humano

aguardando subir tantos degraus quanto

necessários para tornar-se um corpo, na man

jedoura dos ovários, do zigoto ao todo, gomo por

gomo ( diagrama, fractal ), mandala gráfica o amálgama

dos gametas | ( da nutrição pelo umbílico o bebê é depen

dente, umbrívago ), ossos desenvolvem-se, órgãos, cérebro,

segue-se o desenvolvimento de todos os membros ) desde

o sêmen [ do pai, macho da espécie, apenas o mero reme

tente de seus genes ] e dentro por nove meses [ da mãe,

tenro invólucro amoroso, tendo sob sua guarda algo novo ]

a cápsula carnal que alargará o canal vaginal, túnel extre

mo do músculo, porque se haverá de abandonar (a qual

quer momento) essa hospedagem ( quando nascer começa

a doer ) será outro o destinatário neste parto – o pai não

pare –, a porta (exaurida na expulsão) serão duas

pernas abertas ) ao espetáculo dá-se o nome:

“nascimento” ( no clímax, destaca-se o ticket )

ansioso o silêncio ) o primeiro choro inter

rompe o suspense ) “não há defeito com

gênito!”, celebram os obstetras, aos

berros ] ESTE É O LADO DE FORA!

[ o ar arranha ] é áspero o primeiro oxigênio

[ a partir de agora, sob uma sequência de cho

ques, somente interrompida pela morte, serão mui

tas auroras de fuligem e pólvora! ] a menos que este neo

nato, acometido por estranhíssima epifania pré-natal, (o

caso mais raro!) escolhesse enforcar-se no cordão umbilical

| mas ao recém-nascido saudável restará, desde já,

[ a verdade ainda indisponível ], revoltar-se /

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