Uma vela acesa (da boca para dentro)

Lorem ipsum dolor sit amet, consetetur sadipscing elitr

Uma vela acesa (da boca para dentro)

Categorias:

John Bellany, Male and Female Figures Chained,

John Bellany, “Casal acorrentado”

Um Esboço de Nudez, de Nathan Souza, procura novos caminhos para as relações do corpo com a palavra

 

Dois comandos demarcam Um esboço de nudez, de Nathan Souza: o embate clássico do corpo com o mundo e os sopros de memória – em cada instância uma série de questionamentos de percurso. Primordialmente, o segundo livro de Souza é uma espécie de ode à musa, expediente severamente perigoso. O que pode ser retrabalhado em matéria de erotismo que já não tenha sido dito e melhor? A resposta é uma entrega diferenciada do poeta perante a natureza de seus dilemas. As musas do escritor piauiense estão privadas de um farol seguro e não gozam de olimpos convencionais. “[…] e este mesmo fogo / banha tua argila / impermanente / de veneno / e mel / para alimentar / minha primeira fome”, diz em “3ª Peça”.  

No trajeto memorial, Nathan passeia por sua própria história de espírito, resgatando paisagens e sensações. São textos que encontram o tempo exato entre o desempenho intelectual e as potências significativas do indivíduo: “Aqui, / no interior do Piauí, / onde a arte / é natureza morta, / passeio pelos arredores / da praça adornada de Ipês / como um mago / extraviado na hostilidade / do moderno”, conta em “Sinfonias”.

Para além da corporeidade dos poemas físico/amorosos e dos acrílicos do passado, Um esboço de nudez também investiga as fronteiras da poesia. Não é o ápice da obra, com tons metalinguísticos um tanto superados. Contudo, algumas combinações realmente peculiares perdoam as derrapadas na rota do autoentendimento poético.

Em “2ª Peça”: “Distanciado de teu porto / – tal a vela acesa em um céu sem sopros – / resguardo meus gritos / a uma câmara de ecos”, Souza navega num domínio de imaginação próprio, inventando espaços fraseológicos. São nesses momentos que Um esboço de nudez atinge sua melhor performance. “Os raios e a fala”: “O dia nasce / e nasce também o silêncio / da boca para dentro / (oculto, de goela a baixo)”.

De modo geral, há uma arte do movimento na poesia de Souza. Quase tudo se anima. Seu livro, subdividido em três temáticas apenas aparentemente desconexas, é um projeto de voz fora de seu tempo – a certeza do cineasta Ugo Giorgetti de que realmente não somos todos contemporâneos. Há nesse trabalho operário uma diferenciação de frequência, um corpo de palavras que nos envolve na beleza do incômodo: “[…] e bato palmas / como quem voa / para dentro / do vento”, afirma em “Mergulho”.

 

Estante

Um Esboço de Nudez

Nathan Souza

Editora Penalux, 106 páginas, R$ 32

www.editorapenalux.com.br

 

Escape para a leitura

O sorriso de João

Para João Barros (in memoriam)

 

Hoje

– além da espera e da partida –

teu vagar sereno

sobre esta terra de fogo e frio

é como o lápis

palmilhando os contornos

da palavra eterna.

 

E como o mesmo

vagar dos monges

– que a tudo sentem

pelo tato do silêncio –

tenho teu sorriso

desenhado

passo a passo

em minha memória

de relíquias felizes

 

Há de vir um tempo

em que eu saberei

decifrar a lição

de teus olhos

 

e de teu coração

que não precisa mais pulsar

para continuar
p.74