Viagem ao redor do próprio eixo

Crítica Literária

Viagem ao redor do próprio eixo

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Günther Uecker (b. 1930) Rupture of the artistic genius, 1987

Günter Uecker, “Ruptura do gênio artístico”

Sagração, de Severo Brudzinski, acompanha a trajetória acidentada de um personagem em busca de significação

 

A transformação de histórias em roteiros de viagem é uma prática que remonta à tradição dos primeiros narradores orais e à formação de quase todo o nosso ideário mitológico – a viagem como jornada, exploração, emancipação, catarse. Nesse prospecto do mundo como um grande diário íntimo-aventuresco, Sagração, de Severo Brudzinski, é um percurso irregular que não nega a primordial insatisfação humana com a própria limitação corporal, apresentando a literatura como região de possibilidades.
Sagração conta as fábulas não-lineares de Severo (…), um narrador sem um espaço definido, em contato com seres diversos, de ninfas a crianças mensageiras. O painel é de desconforto. “Então conte uma história de carpintaria, carpinteiro. / Que seja. O nome do causo é… / … / … / … / … / O quê? Qual o nome? / Cale essa boca, Vermelha do diabo. Não vê que é sempre assim quando ele conta essa história. Silêncio. Façam o sinal da cruz que o nosso amigo vai contar a história do caixãozinho.”
O entrecorte protagoniza a obra de Brudzinski, com situações-sonho que operam ou existem em independência estrutural. A entrada de personagens não obedece necessariamente a uma lógica. Monta-se, aqui, um mosaico de imagens que não se conversam – a sensação de estranheza do narrador é evidente. “O prisioneiro abre um sorriso possível. Severo é tocado pelo pedido mas temeroso em levantar-se e fazer a ponte balançar, fia paralisado.”
Na novela do escritor curitibano, o narrador-personagem-testemunha parte ao exterior para relatar seu (re)conhecimento. É uma arte de fazer a dobra de si sobre si mesmo e de propor alguma espécie singular de religação (que nunca acontece). Não há confiança nesse trajeto, apenas a proliferação escura de alegorias e imaginários, como num pesadelo prolongado.
A brevidade da obra de Brudzinski aponta para algum tipo de acerto de contas do autor com mecanismos internos de sua literatura, a experiência de testar o próprio fôlego em mar aberto. Não é tarefa simples determinar intensidade constante em narrativas fragmentárias. Em alguns momentos o autor dialoga com o clichê. “Ela sempre me piscava, a patroa… Era chamada dos Anjos, mas na verdade deveria se chamar dos diabos.” Contudo, o mal-estar do narrador, em permanente cruzamento com o espanto, valida a natureza de Sagração.
Em um plano mais dimensional, é uma obra que funcionaria melhor se conseguisse condensar o domínio técnico com maior suavidade de intenções. O propósito de estilo, por exemplo, se canta em demasia, deixando alguns momentos carentes de leveza. A flutuação de cenários, por outro lado, surpreende. Como dizia Machado de Assis, em Memórias Póstumas de Brás Cubas, cada estação da vida é uma edição, que corrige a anterior. Assim também o é com certos livros ambiciosos, que erram e acertam com honestidade.

 

Estante

Sagração

Severo Brudzinski

7 Letras, 64 páginas, R$ 29

www.7letras.com.br

 

Escape para a leitura

Tudo como antes. Os móveis, o frio, o longo corredor central. De novo, a letargia. As cortinas balançam vagarosas. As pétalas caem dos arranjos de forma imperceptível. A poeira não se move no ar. Como nas fotos amareladas dos álbuns de família, o tempo parou na saleta de entrada. Severo caminha com dificuldade. As pernas não obedecem: ossos fracos, carne frígida. As costas doem, as mãos tremulam. A língua, moto perpetuo, explora a boca sem dentes. O corpo, um esquife derruído. (p.18)